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Ora agora corto eu, ora agora cortas tu!

Quinta-feira, 31.03.11



Ninguém discute que o destino natural das vaquinhas é pastarem num prado verde, comerem ração num estábulo e serem ordenhadas para fornecerem de leite as sociedades humanas. É assim desde há muito, irá continuar a ser, mas, ao contrário do que se pensa, nada há de natural neste destino. As queridas vaquinhas são uma perversão da natureza a tal obrigadas pelos homens. Foram transformadas de seres naturais em produtoras industrializadas, retirando-lhe os meios inatos de vida e pondo-as na dependência extrema dos humanos. De tal modo que agora, sem eles, feneceriam de forma horrorosa.

Também, quando olhamos para a nossa agremiação e para as medidas que os nossos governos vêm tomando, há para cima de três décadas, não poderemos ver-nos senão como dóceis vaquinhas do fisco, isto é, do Estado ou melhor de quantos no Estado fazem dele o estábulo onde mungem, até à secura, as suas vaquinhas. As quais, repito para os distraídos, somos nozinhos mesmos e inteirinhos!

Passada a euforia da queda de Sócrates - mesmo que ele a tenha pretendido, vê-lo cair, sabendo quanto tal estratégia faz doer o seu egocentrismo primário, não deixa de valer bem três vinténs, na aceção daquele velho ditado de que”vale mais um gosto que três vinténs” – vemo-nos de novo confrontados com o que há a fazer para que este povo não caia na mais desolada miséria para onde, a cortes rápidos de meios de vida, ardorosamente, é encaminhado.

Olhando para o espectro político, para o cada vez maior desinteresse pela política clássica revelado pelos nossos concidadãos, somos levados a concluir que com estes partidos (tal como estão) não se irá muito longe. São por demais velhos, cheios de artroses que o tempo lhes infligiu e demonstram extrema incapacidade não só em se reformularem, como em perceberem que, para sobreviver, terão de passar por uma mudança substancial. Parafraseando e adaptando à situação uns versos do meu falecido amigo António Monginho, digo:” os rapazes da minha geração estão todos mortos, eles é que ainda não sabem”. Idem, aspas, aspas, para os partidos. Adormecidos nas suas querelas inter e intra partidárias, aos poucos se fenecem, sem uma palavra atuante e atual para os factos com que este mundo nos vai paulatinamente defrontando. Da direita dos interesses à desinteressante esquerda - sempre mergulhada em divisões de purismos ideológicos que impedem a sua atuação eficaz num mundo para o qual os purismos são devaneios académicos que ficam bem nas estantes, mas que não colocam uma fatia de pão nas mãos de quem tem fome – o horizonte que nos é permitido é o das baias do estábulo onde a ração não abunda, cada vez é mais rateada, e não conseguimos ver outra coisa além dos limites deste pequeno horizonte permitido.

Mas sabemos, pelo menos alguns de nós sabem, que tal horizonte é mentira. Que as soluções únicas apenas o são por interessarem a quem de “direito” e que toda a cena social é montada de molde a que ninguém possa ver além dos antolhos que lhes são colocados. Por isso os que sabem são expurgados, vilipendiados, humilhados, para que desistam, para que se calem, para que não denunciem. É esta a eterna luta dos contrários e a dinâmica da vida, das sociedades, do universo. Caos, ordem, crescimento, apogeu, decadência e de novo caos para início de um novo ciclo. Adivinhem em que estádio está a nossa sociedade. Vale um doce para quem acertar.

Por isso, PS, PSD, agências de “rating”, FMI etc., etc., etc., não são mais que epifenómenos deste movimento que ou ultrapassamos ou nos fará perecer. A geração “à rasca”, por motivos vários, é a mais qualificada e melhor preparada dos últimos anos. Começa a mover-se e tem gente para tal movimento. Serão eles, quando tomarem as rédeas, que, eventualmente, permitirão acabar esta modinha do vai cortando e que nenhum governo velho ou novo, obnubilado e imerso neste paradigma, será capaz de alterar. Até lá, caros companheiros de infortúnio, apertem os cintos e peçam que os instrumentos de ordenha não sejam por demais dolorosos, sabendo que esta gente que nos governa ou quer governar, de nós apenas pretende o úbere pronto para mais uma ordenha mesmo que, por exaustão, seja apenas sangue o que nos sugam.


Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt

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publicado por Carlos Alberto Correia às 18:17








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