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Nós e Eles

Terça-feira, 05.06.07





Nós entramos em casa, ligamos a luz, tomamos um banho quente e vemos o noticiário na TV.
Eles não têm casa ou quando a têm é de cartão, ramos de árvores ou materiais compósitos e pobres; iluminam-se com fogueiras ou velhos candeeiros; percorrem quilómetros para alcançar um ponto de água, quantas vezes insalubre, e são, tantas vezes as personagens e as vítimas dos noticiários que nos entretêm.

Nós temos automóveis potentes que nos transportam, com facilidade, aos locais de trabalho ou aos divertimentos que procuramos. Eles andam a pé e extraem dos seus solos o petróleo que faz andar os nossos carros e morrem em guerras feitas para os expropriar desses combustíveis.

Nós vivemos em democracias e achamos que temos esse direito natural, como se este fosse o estado normal do viver dos homens. Eles não têm quaisquer direitos senão o de penar sob o jugo de qualquer pequeno senhor local, que os utiliza de modo instrumental, para seu benefício imediato e visível e para um distanciado e obscuro interesse das longínquas democracias.

Nós sofremos terrivelmente com o mau funcionamento da nossa rede hospitalar e temos vidas prolongadas; eles morrem novos, e já velhos de míngua, minados por doenças incontáveis e vêem os filhos desaparecer com febres que nos nossos mundos uma aspirina curaria.

Nós vamos ao supermercado comprar produtos de todo o mundo, sempre excessivamente caros, e fazemos várias refeições diárias que comemos, quantas vezes, enfastiados. Eles procuram comida em matas, ribeiros e lixeiras, não sabem quando nem se poderão matar a fome nesse dia, e produzem, por quase nenhum valor, os dispendiosos e desperdiçados produtos que habitualmente consumimos.

Nós temos jardins-de-infância, escolas e programas de reabilitação de dependentes de várias facilidades. Eles vagueiam pelas ruas, roubam, brigam e morrem sob as balas “justiceiras” da polícia, ou qualquer outra força de ordem que nós, para eles, misericordiosamente treinamos e exportamos.

Nós inventámos e receamos a globalização, sentindo que ela põe em perigo a nossa prosperidade. Eles são o motor e os escravos dos nossos empreendedores globalizantes e morrem, de acidentes ou exaustão, nas fábricas deslocalizadas e nas minas sem possibilidades de deslocalização.

Nós embarcamos em cruzeiros de luxo que cruzam o mediterrâneo e demandamos os paraísos artificiais das costa de África. Eles cruzam-se connosco em velhos barcos meio desmantelados buscando, clandestinos, o el-doirado da margem donde nós partimos para férias e morrem na tentativa ou são capturados, desgraçados e famintos, pelas polícias do almejado paraíso.

Nós produzimos e vendemos as armas com que eles se matam para garantirmos o domínio económico dos bens que as suas terras possuem e eles não.

Nós somos inocente ou culpadamente assim e eles são-no, igualmente, mas em muito piores circunstâncias. Por isso, meus senhores o que esperam que venha a acontecer entre nós e eles, senão o mesmo que entre as hordas de bárbaros e o poderoso império romano aconteceu?

As decadências dos impérios têm todas um suave fascínio de queda e entropia!



Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt
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publicado por Carlos Alberto Correia às 17:47


1 comentário

De A-Verdadeira a 05.06.2007 às 19:50

Grande verdade!
Mas infelizmente são poucas as pessoas que se importam com ela.
Gostei de o ler e olhe que ainda há pouco tempo, no Barreiro, me deparei com uma situação de pobreza extrema. Um senhor muito velhinho que andava a catar restos de comida e fruta podre no caixote do lixo de uma mercearia, bem no centro da cidade.
Não tive coragem de levar para casa as compras que tinha feito e nessa noite tive insónias.
Por onde andamos nós que deixamos que isso aconteça em pleno século XXI e com um Governo dito Socialista?

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