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Por vezes o drama (conto)

Sábado, 12.11.05
Era um tempo com barcos nos minutos.
Havia o mar. Raparigas da terra da saudade
e os grandes gestos belos e gratuitos
no tempo em que não tínhamos idade.

Romance do tempo inocente, Praça da Canção, Manuel Alegre










Chegou meio esbaforido. Olhou em redor. O café estava a abarro­tar. Nem uma mesa vaga. Fungou duas vezes e atirou na minha direcção a flecha do olhar. Avançou decidido para esta mesa onde em calma espedaçava a tarde. Sentou-se e disparou:

- Por vezes o drama insinuava-se na nossa vida...

Alargou-se todo num sorriso cretino a ocupar-lhe toda a boca mais dez anos de recordações.

...pois era... e se eu fazia esforços para a compreender. E ela? Divertia-se inventando tudo para me fazer sair de mim. Conduzia toda a minha vida em ciclo. Um drama, muitas promessas, reconci­liação; novo drama, mais promessas, outra reconciliação...

Olhei para ele com aqueles olhos de acabar conversas que tu tantas vezes dizes denotar em mim. O gajo nem deve ter notado que eu tinha olhos. Ou boca. Escolhera-me como ouvinte. Nem pela cabeça lhe passaria a possibilidade da minha recusa a semelhante papel.

... de tal forma que muitas vezes, esperando o passar da noite, pensava que poderia agarrar na nossa vida e fazer dela uma história capaz de ultrapassar esses romeus e julietas que por aí se contam. Não se ponha a pensar que entre nós não havia amor. Bem... pelo menos pela minha parte havia e muito. Da parte dela parecia-me haver correspondência. Agora ter a certeza... vá lá a gente saber. Como adivinhar o que se esconde no mais íntimo de alguém? Ou mesmo se os actos correspondem à sua aparência. Não lhe parece que estamos sempre encurralados? Acreditamos e corre-se o risco de sermos enganados. Não o cremos, logo a solidão nos toma de emboscada. Como eu detesto a solidão! Seria capaz de fazer qualquer coisa para não estar um só momento solitário na vida...,

Desesperado, mando o olhar à procura de outra mesa no café. Nem esperanças. Chamei o empregado para pagar a despesa e zarpar. Mirou-me, com os olhos a abarrotar de ruído e fumo, com o desprezo de quem tem ainda pela frente três longas horas de trabalho duro e não percebe a pressa de alguém que só tem que estar com o rabo repimpado na cadeira e, olimpicamente, ignorou-me. Fiquei, assim, completamente à mercê da história daquele manjerico.

... você, acha que tenho ou não razão para detestar a solidão?...

Pronto! Agora que me dás a deixa vou despachar-te em grande velocidade!

... livre-se dessa peste, amigo. Livre-se dela. Onde é que eu ia? Ah! O acaso... o mesmo acaso que me fez sentar nesta mesa,
consigo, que não conheço de nenhum lado, fez-me encontrar Terília. O acaso é assim. O café cheio. O amigo sozinho nesta mesa vê-se mesmo cheio de vontade de conversar e eu, que nunca o vi, a descobrir-lhe a minha vida. Sabe que mais? O acaso é o destino. Não é que eu seja fatalista ou supersticioso mas lá que Terília entrou na minha vida por acaso...

Se eu por acaso espetasse uma lambada no trombil deste chato o que é que dirias? Teria sido bruto? Incivilizado? Ou apenas que a paciência é material que se esgota com celeridade? Põe-te no meu lugar. Que farias? Ao menos um berro no ouvido...?

...Recordo-me perfeitamente. Numa festa em casa de amigos. Ricos, pois claro! Ricos até criar bicho. Só o salão dava para duas famílias habitarem. Com piscina e tudo... pensa que estou a exagerar? Qual seria o gozo de lhe mentir. Não o conheço. Provavelmente nunca mais o verei...

Ainda bem, pensei, tentando fazer-me ouvir. Tu bem me disseras que o meu horóscopo me era desfavorável esta semana. Desculpa-me o riso de incredulidade. A tua revista é que tinha razão. Este
gajo não me larga e o empregado já passou por aqui mais de vinte vezes e continua a não atender aos meus chamamentos. Nem sequer vaga uma mesa para eu zarpar daqui.

... uma bela festa, digo-lhe eu. Terília estava lá. Linda de se ficar sem fala. A sala brilhava de iluminada e ela era ainda mais brilhante do que a sala. Trazia um vestido azul claro... não... creme... bem, trazia um vestido que lhe caía lindamente... disso tenho eu a certeza. O amigo já me está a imaginar, como nos filmes, a avançar para ela, os outros a afastarem-se para me dar lugar, pegar-lhe pela cintura e avançar, ao som da valsa final, para um recanto do jardim. Imaginação sua. Imaginação... Ela nem deve ter chegado a reparar em mim. Rodeavam-na admiradores e amigos. Tantos que nem me consegui aproximar. Também não sou exigente. Bastou-me contemplá-la de longe. Sou muito tímido...

Tímido. Tímido o marmanjo. Olha-me bem para este. Dá vontade de rir. O tipo vem de onde não se sabe, senta-se na minha mesa. Nem sequer me pede licença e sem me ter visto algum dia mais gordo desata a contar-me a história da via dele e diz-me que é tímido.

... de qualquer maneira um homem não é de pau. Nessa noite ador­meci com uma telha dos diabos. Bem gostaria de ser um desses bonitões que nem precisam de assobiar e já elas estão a cair-lhes nos braços. Cá comigo nunca é assim. Desunho-me todo para me fazer notado por uma fulana e se consigo despertar-lhe a atenção é certo e sabido... ou é coxa ou anda no psiquiatra. Tenho cá um destes azares!

E eu, o que é que eu tenho? Se calhar isto é sorte. O meu pai, como tu sabes, era um preconceituoso de merda, barrava-me todos os dias os ouvidos com as etiquetas sociais. Calcula que nunca me deixaria assentar arraiais na mesa de qualquer fabiano sem lhe pedir licença e sem que lá me demorasse o mínimo tempo possível. Parece-me que começo a dar razão ao velho.

... fiquei por isso muito admirado quando num dia tempestuoso, a fui encontrar, numa reunião clandestina, na mesa que dirigia os trabalhos, e CÉUS, ela reconheceu-me! Não fez mais que uma piscadela de olhos e a sombra de um sorriso, mas, meus Deus, eu estremeci todo por dentro. Ora veja, ela não só me reconhecia como me distinguia com um sinal especial. Distinguia-me, a MIM, percebe?

Então não percebo. A tua sorte foi ela só te conhecer de vista. Soubesse ela a chaga que tu és punha-te a milhas em dois segundos.

Não sei se o amigo se lembra como eram as coisas naquela época. Refiro-me à situação política. Como é evidente, os problemas nas relações homem/mulher era coisa que ela tinha há muito ultrapassado. Frequentara a Universidade e viajara muito. Além de ser um cérebro conhecia, de viver, uma data de países. Convivera com muita gente importante. Era raro falar de um nome, mesmo de estrangeiros, que ela não tivesse conhecido...

Bem, pensei eu, um chato e uma mentirosa com pretensões. Deviam fazer um lindo par. Ainda por cima este fulano está convencido de ter feito sozinho a resistência ao fascismo. A propósito, se tu aqui estivesses irias franzir o nariz e com o teu ar solene e pedagógico começarias a dissertar sobre a importância de delimitar as fronteiras entre os regimes políticos. Dir-me-ias que o Estado Novo se salientaria pela vertente corporativista, pondo a tónica sobre a conjugação de interesses das classes, o que, em análise, se diferenciava bastante das doutrinas dos "fascios" e nacional-socialista, que em intensidade e extensão dos efeitos ultrapassavam de longe a, mesmo aí medíocre, perspectiva do totalitarismo nacional. Claro que terias de contar com a minha oposição. A vida não é um exercício académico e para os que perderam a vida, de forma literal ou em oportunidades, por divergirem do pensamento dominante, essas subtilezas não farão, no mínimo, grande sentido.

O amigo, concerteza, está a pensar que eu exagero. Pois está enganado. Quando depois da queda da ditadura o país foi invadido por uma quantidade de gente de quem nós ouviamos apenas falar, eu tirei a prova da verdade dos seus conhecimentos. Olhe, em nossa casa esteve mesmo hospedado o Jean-Livoir. Não acredita? Pois posso provar-lho. Só precisa de ir até minha casa. Além das fotografias havia de ver todos os seus livros assinados.

Pois sim, interessa-me mesmo quem é que dormiu ou não em tua casa. A única coisa que verdadeiramente me interessaria era que fosses para lá agora. Ou fosses pentear macacos.

Foi por causa de um romance do Jean-Livoir que as coisas entre nós aconteceram. Lembro-me ainda bem. Era Inverno e tinha acabado de chover. Estava na porta do café pensando se entraria ou aproveitava o escampado do tempo e dava uma corrida até ao emprego. Foi quando ela chegou e ao ver-me disse:

"Então a ler um livro do Jean..."

...falou dele com um conhecimento de matéria e pessoa que me deixou deslumbrado. _

Deslumbrado é que tu me pareces de todo e desde início. Deslumbra-te a mulher, deslumbra-te a sua escolha política, deslumbram-te os seus conhecidos e deslumbra-te o seu saber. _Ó, meu filho, a continuares assim não vais longe.

"No entanto - prosseguia ela - não é na literatura que poderá encontrar o verdadeiro Livoir. Esse só mesmo na matéria de reflexão. Pensador como esse não encontra outro. Foi capaz de ir aos clássicos, e olhe que me não refiro aos gregos mas àqueles de que se não pode falar sem perigo de que ouvidos indiscretos se interessem logo em demasia, e transpor para o absurdo do estar vivos os seus ensinamentos. Para viver, diz ele, é preciso meter as mãos na merda até aos cotovelos. E sem culpas, que isso é matéria para titis de catedral."

Culpa tenho eu em não correr contigo daqui. A tua história não me interessa nem um bocadinho. Além do mais, nada tem de original. Até agora eu poderia contar coisas muito parecidas com essa. Bastaria mudar os nomes porque as situações, em si, parecem ser bastante reduzidas. Tenho a sensação de que alguém com pouca imaginação, ou com pouco tempo para perder com a obra, ordenou a vida de molde a que o deve-haver não se dispersasse demasiado, e tornasse fácil o ajuste final de contas. Ademais , apesar de plausível, a história cheira-me a forjada. Basta pensar no nome da mulher. Terília... isto é lá nome de gente real...

Eu ouvia-a e parecia que ela tomava a minha voz para dizer coisas que há muito pensava e não conseguia transmitir. Aliás, sempre assim aconteceu durante toda a nossa relação. Mas, nesse dia, quando nos sentámos no café por nada deste mundo a interromperia. Penso que fiz mal e que essa passividade marcou desde logo o ritmo das nossas andanças. Se lhe disser que desde aí foi sempre ela a tomar iniciativas não lhe minto nem um bocadinho. Tinha a esquisita sensação, quando lhe propunha alguma coisa, que eu era transparente.

Ora aí está um campo onde eu te percebo. Só que aqui sou eu o transparente. Ou aprendeste bem a lição ou temos uma relação onde aproveitas o não me conheceres para inverteres a polaridade. Se eu fosse mal intencionado pensaria que como nada esperas de mim podes, à-vontade, dar azo a tudo o que te apetece pensar e despejar. Se com ela não o fazias, é lógico que esperavas dela qualquer benefício. Vês meu menino como o interesse gera dependência? Com que então querias apoderar-te dos seus estatutos sem pagar o preço? Começo a perceber-te meu pequeno. E, francamente, o que percebo agrada-me.

Imagine que uma noite me aparece toda vestida de negro, botas e calças justas, camisola de gola alta e um casacão por cima de tudo isto e sem mais aquelas me diz: - Despacha-te que hoje vamos fazer umas colagens de cartazes...Colagem de cartazes?! A mulher é doida, pensei. Decidi logo ali por as coisas claras. Aquilo era já passar das marcas. Então estava a pôr-me a liberdade em perigo e nem sequer me perguntava se estava de acordo? Francamente, isto era ser mais fascista que os ditos. Enchi-me portanto de coragem e disse-lhe:

Está bem, onde é que vamos?

Que grande gargalhada dei nessa altura. Não fazes ideia do prazer que senti. Mas o gajo também tinha uma certa coragem, tive que admitir. Como deves ter percebido, por esta altura já tinha desistido de tentar correr com ele ou sequer meter-me na conversa. Creio bem que o que ele precisava era da aparência de um auditor. No fundo falava apenas para si...

Ainda hoje não consigo recordar-me bem de tudo quanto aconteceu nessa noite. Inicialmente dirigimo-nos a casa de um amigo de que, por hábito antigo, não direi o nome. Mesmo se lho dissesse você não ia acreditar. Sim, é bem conhecido. Só que virou. Virou mesmo e deixou de morar em Campolide. Onde mora agora? Isso não lhe digo. Dou-lhe uma pista. Se correr os três sítios mais caros de Lisboa vai com certeza encontrá-lo num deles. E chega..

Olha-me só para isto. Dialoga comigo como se eu fosse ele. Ou ao contrário, dialoga consigo como se ele fosse eu. Diz-me o que lhe passa pela cabeça como se eu lho perguntasse. Amigo, a si, não me apetece perguntar-lhe nada. Por outra, apetecer-me-ia sim, perguntar-lhe quando é que me desampara a loja e me deixa ler o meu jornal em paz.

Na casa desse tal amigo, que você está cheio de curiosidade de saber quem é, entregaram-nos uma braçada de cartazes um balde de cola com pincéis e pediram-nos para decorarmos um número de telefone onde, para o que desse e viesse, estava um advogado e um médico da cor. Palavra que me arrepiei quando nos falaram nisto. Se até ali estivera pouco à-vontade, mas ainda um pouco descrente de que me estivesse a meter numa alhada daquelas, o número de telefone foi como um murro no peito. Você sabe, uma coisa é a gente ter cá dentro aquela indignação sufocada que nos faz chamar uns nomes à governança e outra, bem diferente, é começar a fazer coisas que os chateiem à grande. Olhe que isto de andar de noite a colar cartazes contra o governo tem que se lhe diga.

Ai não que não tem. Bem o sei porque me calhou em sorte... em sorte, heim??; puta de língua esta que até ao azar chama sorte e sem ser por ironia. Está aqui este tipo retroactivamente cagado por uma coisinha de nada. Se eu fosse de contar as encrencas por onde andei o gajo ficava verde. Bem, a verdade é que tu também de pouco sabes. São coisas que se fizeram. Na realidade já não contam. Deixam de contar logo que feitas produzem efeitos. É por isso que me lixam os politicozecos de agarrar tachos que andam sempre com o passado hasteado. O passado só conta para mandar abaixo. Quando se quer fazer qualquer coisa é o presente que interessa. De nada vale o que fiz se o que estou a fazer não presta. Olha que este pensamento não é meu. Também não o apanhei a flutuar no ar. Foi no decorrer de uma conversa com o Floral que ele o afirmou. Eu gostei e utilizo. Sim, também me sirvo, de vez em quando, de outros pensamentos de outros amigos. Sem citar a fonte, pois claro. Eu sei lá quando é que um pensamento entra no domínio público. Assim, utilizo-os quando me convém. Ponto final.

A noite estava preta de negra. De início tudo correu bem. Só que em certa altura a Terília deu em armar em parva. Primeiro começou aos gritos: "abaixo o fascismo", "viva o comunismo", "proletários de todo o mundo, uni-vos" e nunca mais se calava apesar de toda a gente do grupo a tentar fazer calar. Depois, foi colar um cartaz num enorme Mercedes preto que estava estacionado na rua. Estava ela a meio da manobra quando o condutor apareceu e começou aos berros: - Comunista de merda, andas a cagar-me a viatura e eu é que me lixo a limpá-la. Se calhar pensas que amanhã é o meu patrão que vai estoirar o canastro a tirar a porcaria da cola de cima do carro?

A malta que estava nas tascas ao ouvir estes gritos saiu toda e desatou a perseguir-nos. Corríamos a bom correr e Terília ainda gritava "Uni-vos proletários" enquanto, entre duas golfadas de ar me dizia: - São todos da PIDE, disfarçam-se para se misturarem com o povo...

Pois é . Além do medo aprendeste alguma coisa de útil sobre o folclore revolucionário. Também eu aprendi com muitas dessas. Na altura usávamos uma palavra que hoje me soa esquisita para classificar os companheiros de luta. Dizia-se aquele tipo é um gajo válido. Válido, estranho, não é? É como se nós, que apregoávamos a igualdade, estivéssemos de imediato a classificar as gentes em dois grupos. Os bons e os maus. Depois, com razão em tudo quanto era sítio revoltávamo-nos contra os "fachos" por dividirem o pessoal entre os bons e os maus...portugueses.

Porra, disse-lhe eu, quando conseguimos parar. Fazer trabalho político é uma coisa. Provocar sarilhos é outra. Riu-se, iluminou a noite, passou o braço esquerdo sobre o meu ombro esticando-se um bocadinho e de mamas encostadas ás minhas costas, olhou-me um pouco admirada:

"- Também sabes discordar? Já ganhei a noite."

Não disse mais nada e nada me deixou dizer. Calou-me a boca torcendo-me o pescoço e pondo-me na boca um beijo tamanho da noite e maior do que o susto.

Pronto, pensei eu, cá está mais um com a teoria de que o que elas querem é um durão que as contrarie. Lembras-te como eu os classificava? Eram os da porrada erótica. Primeiro murro nos cornos, depois reconciliação na cama. Tu, como sempre avessa à crueza da linguagem, ias pondo açúcares nas expressões e emendavas suavemente para "relação conflitual". Sempre achei graça a essa tua maneira de encarares a realidade. Dava-me a impressão que ao mudares o registo da linguagem pensavas alterar a dureza do real. Sim, que este mundo é bem filho de puta.

Dormi nessa noite com ela e continuei pelas noites seguintes. A casa onde morava não era muito grande. A bem dizer era um estudiozinho com um quarto e uma sala comum. Não lhe vou contar o que se passou porque detesto esses relatos minuciosos sobre as intimidades de cada um. São coisas para se guardarem e não para se exporem à curiosidade colectiva. Não, não queira insistir nesse ponto que eu não lhe vou contar nada. Apenas lhe digo que foi uma experiência Única. ÚNICA, ouviu? Por muito que você esforce a imaginação nunca se aproximará da verdade. Nem mesmo eu que a vivi. Quando hoje rememoro apenas consigo ter uma representação por demais pálida do que me aconteceu. _

Se eu pudesse interromper-lhe a incontinência verbal ter-lhe-ia dito que de nada me interessava a sua experiência emocional, ou erótica, ou pornográfica ou fosse lá ela o que tivesse sido. Já me bastam as minhas e nem de todas elas me orgulho. Além do mais não considero o sexo nem como uma função meramente reprodutora, nem sequer como uma experiência religiosa ou mística. O sexo é o sexo. Como a palavra, permite estabelecer a comunicação ou a confusão. É tudo uma questão de interlocutores e do que eles têm para dar um ao outro. Enfim, sou pela teoria da troca.

Como lhe disse comecei a viver no seu apartamento. Digo bem, no seu apartamento. Não pense que estou a fazer qualquer figura de estilo. Provavelmente esperaria que dissesse que ficara a viver com ela. Isso também eu queria! Mas quem é que pode agarrar o vento? Logo nessa manhã, quando acordei, tinha o seu lugar vazio. Procurei-a na casa de banho e só a humidade quente dos restos de um banho diziam da sua passagem por ali. Voltei ao quarto, sentei-me na cama e fiz a minha primeira grande e profunda meditação sobre que tipo de relacionamento seria o nosso ou se, eventualmente, haveria relacionamento ou só uma passagem episódica. Devo confessar-lhe que não sendo exactamente o modelo ideal de um bom pai de família, tão pouco tenho ganas de desenfreado libertino. À escaldante sensação da paixão, se bem que a não desconsidere de quando em vez e com brevidade na minha vida, prefiro antes a tepidez de uma relação segura.

Pois, segura. Não querias mais nada. Andas a rolar pelos espaços a uma velocidade tremenda, num grão de poeira que a qualquer momento pode chocar com outro e querias segurança! Não te apercebeste, meu parvo, que somos bolas de bilhar numa mesa cósmica e que nunca sabemos onde a tacada conduzirá a bola em que nos alojámos? Querias então uma relação segura. Queres dizer, estável, parada, imutável, onde o tempo deixou de existir, eterna! Meu parolo, quase me fazes ter compaixão de ti. Definitivamente és um ingénuo. Ainda não percebeste a trama onde te moves.

Esperei-a até à uma da tarde. Nesse tempo, acossado pela fome, desesperança e raiva, fui-me embora. Tive um sarilho dos diabos no emprego para explicar o atraso, o que contribuiu para o mau humor que levava quando, sem me querer confessar, fui ao café pensando poder encontrá-la. Com medo que ela pudesse aparecer e eu não estivesse lá, nem jantei. Esperei, esperei e ela não apareceu. Já muito tarde passei-lhe pela rua. Não havia luz nas janelas e tive medo de que se tocasse à porta reagisse mal e me tomasse por parvo. Sabe, na altura defendia-se muito, embora eu creia que fosse mais teoria que real, a relação descomprometida. O amigo, que é da minha idade sabe bem como era. Um encontro casual, uma noite bem passada e sem saudade ou remorsos cada um para o seu cantinho. Já vê, se ela estava numa dessas e eu lhe aparecia feito dinossauro romântico que triste figura faria.

O sacana não deixa de ter razão. Também me aconteceram algumas assim. Mas era a moda. Era preciso ter aquele ar de não me ralo, de viver o presente, de vestir de negro o corpo e o futuro. Havia mesmo quem acusasse o Jean-Livoir de levar ao suicídio por desesperança muitos adolescentes. Lá que havia suicídios em barda, não há dúvida, mas se olhar para o presente não vejo grandes melhoras...

Só passados três dias a voltei a encontrar. Zangadíssima comigo. "Que não aparecia, onde é que me metera, o que pensava dela, julgava que era mulher de se entregar sem mais aquelas, etc... etc.etc." e eu tão parvo que nem me lembrei de dizer-lhe que me podia ter telefonado para o emprego, que a esperei, que percorri a sua rua na esperança de a encontrar e que fora ela que me deixara sozinho e sem um pequeno recado que fosse a dizer-me: -

Amo-te. Volto já.

...também, para ser sincero, não vejo que as coisas piorem. Mudam, isso sim. Nós ao que parece é que nos vamos esquecendo de como as coisas eram e as vamos pintando de novo. Como as que agora se passam nos correm sempre ao lado, parecem-nos então menos interessantes que as que vivemos. Ilusões! Formas de reagirmos contra o tempo e a vida que tão bem passa sem a nossa indispensável presença. E os outros, os que nos amam, já que este palerma parece que queria uma declaração formal. Esses, por muito sinceros que sejam e falta que lhe façamos, seguem a lei da vida. Estamos, contam connosco, vamo-nos, duas lágrimas de dor e , de novo o tempo cicatriza a ferida e ala que se faz tarde, continuemos a passar a vida e esquecendo quem partiu. Que se há-de fazer? É assim mesmo e, penso que seria bem pior se fosse de outro modo.

Fui de novo com ela, está mesmo a ver. Se calhar o amigo já está pensar pois claro, porque é que este tipo, que é um palerma inveterado, havia de não ir? Se ele até bebe o ar por ela, que remédio tem senão o de aceitar o jogo. Pois está enganado. Só me deixei vencer ao fim de uma longa discussão. Disse-lhe tudo o que pensava do comportamento dela, das indecisões em que me fizera cair, da pouca importância que me parecera ter na sua vida. Ela, senhores, ouviu-me sempre em silêncio, com um ar muito sério e no fim, larga uma gargalhada que fez parar todo o café, agarrou-me na mão:

-"Anda criança.. Vou ver se te faço crescer."

Arrastou-me de novo para casa e fiquei lá definitivamente. Quer dizer, fiquei até ao dia...

Claro, em que ela correu contigo. Fartou-se das tuas imbecilidades, das inseguranças contínuas e pôs-te a milhas. Tinha concerteza coisas mais interessantes em que ocupasse o tempo. Tu sabes que uma relação entre dois adultos não é nada fácil. Duas personalidades que evoluem em direcções próprias, com a sua pessoalíssima visão do mundo, ocuparem o mesmo espaço e fazerem coincidir, dia após dia, continuadamente, as suas vontades é obra. Não é para qualquer um. Quantas noites passamos nós discutindo por coisas que ao alvorecer pareciam sem importância mas que se as deixássemos cavalgar-nos a noite seriam, por essa mesma manhã, um tremendo obstáculo ou um perigosíssimo recalcamento?

...em que ela, sem mais aquelas, chegou-se a mim deu-me um beijo demorado nos lábios e disse-me, pela primeira vez:

" - Amo-te, desesperadamente. Tanto que te vou deixar. Não quero perder as nossas vidas numa relação cujo futuro é o embranquecimento das cinzas. Vou amanhã para Paris com o Cirondo."

E foi.

Sobre a, estupefacção que me invadiu nem lhe falo. Depois, tudo aquilo me parecia inverosímil. Dizer que me amava para logo em seguida me comunicar que me abandonava era coisa que não entrava na minha lógica. A seguir invadiu-me uma revolta e uma angústia que misturadas se anulavam e apenas me permitia ficar num aparvalhamento total. Engoli as palavras várias vezes antes de conseguir dizer-lhe: - ai vais? Então boa viagem. Desandei escadas abaixo para que ela não me visse chorar. Até agora nunca mais deu notícias. Nada soube dela durante anos e, de repente, como se nenhum tempo houvesse passado, como se não me tivesse trocado por outro quando, nada me faria esperar tal coisa, sem mais aquelas, mandou-me um telegrama, seco, imperativo comunicando-me que chega hoje de tarde no avião de Paris e que a fosse esperar. Por esta razão, porque me encontro numa tremenda dúvida é que me sentei na sua mesa e lhe contei esta história. Dê-me o seu conselho. Devo ir ao aeroporto esperá-la ou devo ignorar a sua mensagem e riscar o seu nome da minha vida?

..................................................

Os passos soavam nervosos e nítidos, batidos no mármore do chão do café deserto. Dirigiram-se para o local onde isolado, um homem rabiscava sobre a toalha linhas que se cortavam, seguiam paralelas durante um breve espaço e de seguida se afastavam definitivamente no entrecruzado da trama tecida. Lá chegados dispararam de cima de si um extenso rol de razões

: - sempre a mesma coisa a escrava que se amole que ande todo o dia numa fona vê lá se te interessa saber que o Deco tem que meter um aparelho nos dentes que a Italina está com problemas na escola e que já fomos chamados ao director de turma ainda está por pagar a conta da electricidade ninguém se lembrou de que era preciso ir ao supermercado a escrava que vá que ande numa roda viva dê de comer a horas certas e não se esqueça de nada porque senão ainda lhe caem todos em cima a criticar ai senhor que mal fiz eu para merecer tudo isto grande pecadora devo ser para merecer tanta raiva dos céus que Deus me perdoe mas este homem dá comigo em doida todo o santo dia metido neste antro sem fazer nada só com os olhos a olhar para ontem e a riscar a toalha da mesa se eu fosse o dono do café punha-te mas era na rua podia ser que assim me ajudasses e ele não perdia nada porque fregueses de gosma como tu são de querer longe da porta quem me mandou ser parva e casar contigo um inútil em sem serventia para nada enquanto as outras anda de cu tremido nos seus automóveis eu aguento que nem uma burra com o trabalho da casa as compras os filhos e esta porcaria de homem que não tem ponta por onde se lhe pegue


Com um amor cuidadoso e lento dobrei o meu drama e recolhi-o dentro de mim. Amanhã, se o tempo o permitir, estarei aqui de novo para construindo a vida me afastar desta coisa diária e insidiosa que me corrói. Até amanhã sonho. Até, amanhã vida...

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publicado por Carlos Alberto Correia às 15:48








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