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O muro

Quinta-feira, 15.06.17

 

 

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Vim viver para o Barreiro nos inícios dos anos oitenta. Não me recordo exatamente do ano, mas sei que coincidiu com um dos mais lindos e brilhantes outonos de que me lembro. Os dias eram explosões de Sol e, no jardim, entre o moinho do Jim e o Clube de Vela deleitava-me nesse fulgor, apaziguado pela leve neblina a fazer de Lisboa um quadro quase impressionista. Escrevia, pensava e apercebia-me do quanto valia ser uma península dentro de outra península, esta abraçada pelo Tejo e o Coina, em termos de ambiente, paisagem e claridades.

 

Recordo ainda, por esses tempos escrevia texto para um programa da Rádio Comercial, FM, que, não me apetecendo ir para aquele que era o meu emprego efetivo e burocrático, antes querendo continuar a gozar a maravilha daqueles dias, me deixei ficar olhando o Tejo, vendo o movimentos das embarcações, o pontilhado de pequenas velas brancas a competirem, na subtileza, com as parcas névoas. Escrevi, a propósito, uma justificação de falta, em poesia, que deixou estupefacto e sem saber como agir o meu Diretor de Serviços.

 

Para quem aguentou até aqui o meu palavreado e se pergunta o propósito de tais rememorações confesso-lhes nascerem de um misto de desapontamento e receio, provindos de ter tido conhecimento da ideia abstrusa de colocarem um muro de contentores entre a Avenida da Praia e o alongamento do Tejo. Vi-me obrigado a repetir a leitura da notícia para perceber a enormidade do sacrilégio pretendido. Claro que defendo a colocação do Porto de Contentores no Barreiro. Precisamos de alargar os préstimos da cidade e os postos de trabalho. É evidente que sei e me disponho a aceitar alguns impactos socioambientais. Não há progresso sem transformação! Mas isto, senhores?! Que mente retorcida pode pensar em tapar a respiração da Cidade? Que cálculos económicos valerão o emparedamento da população? Com tantos quilómetros de rio disponíveis na antiga zona industrial, para quê construir um muro de contentores mesmo defronte dos nossos olhos, condenando-nos ao isolamento de uma cegueira inadmissível? Volto a perguntar: cálculos económicos abstrusos ou vontade de mudar a instalação para qualquer outro local procurando o pretexto no afrontamento da população?

 

Desconheço a quem pertence a decisão final, assim como não sei que e quantos interesses, dos mais aos menos legítimos, nela se jogam; sei apenas que deveremos defender a instalação do Porto nesta cidade, ao mesmo tempo que não poderemos permitir a sua colocação sem a mínima salvaguarda dos direitos ambientais e de qualidade de vida dos nossos concidadãos.

 

Câmara, Assembleia Municipal, Juntas de Freguesia, Coletividades, gentes do poder e comuns, juntemo-nos para impedir que, neste tempo de muros impiedosos, seja, perante a nossa indignação, colocado um outro no campo de deleite dos nossos olhos. Não nos deixemos emparedar. Que o único muro possível de aceitar seja o da defesa dos nossos interesses legítimos e da paisagem onde descansamos o olhar. Sigamos livres pela margem de um rio observado em plena liberdade.

 

 

Publicado em Rostos on-line

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 21:20








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