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Já não somos todos “Charlie”?

Sábado, 27.02.16

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Apenas para os mais desatentos recordo a onda de horror que perpassou pelo mundo quando um grupo de putativos extremistas islâmicos assassinou, fria e cobardemente, alguns jornalistas do “Charlie Hebdo”. Lembram-se? Não se esqueceram que então se discutia e apoiava o direito de liberdade de expressão, fundamentado em que os preceitos e desígnios morais de um qualquer grupo religioso, não poderiam condicionar a expressão livre, a liberdade de imprensa, nem a consciência dos autores? Não se esqueceram, pois não?

 

Então porque é que agora, perante o cartaz do Bloco de Esquerda, as mesmas consciências se revoltam e bramem contra o desaforo de um grupo de incréus por utilizarem a efígie de Cristo, numa campanha de apoio à adoção de crianças por pessoas de género idêntico? Será ainda o ressabiamento de o projeto ter passado na Assembleia? Será tentar atacar o mesmo por outro caminho? Tanta indignação! E não vejo esses indignados barafustarem contra o preconceito racista presente na maioria das imagens de Jesus. Já sei! O racismo é muito menor pecado que ser “gay” e poder adotar uma criança, que se calhar até já vivia com esses pais ou mães. O Jesus loirinho, ocidental, das imagens não é uma hipocrisia e uma clara afronta racial à história? É que Jesus, meus senhores, era bem mais escurinho. Não se sabe bem porque razões o pai celeste o fez nascer numa família semita – e aqui eu discordo do cartaz porque na verdade Cristo teria três pais (não se esqueçam do Espírito Santo que, rezam as crónicas, fertilizou a Virgem) – de certeza também trigueirinha e muito diferente dos puros arianos retratados desde as igrejas até à mais insignificantes publicações impressas.

 

É uma falta de respeito, replicam. Pois, ele não é Maomé e, muitos dos seguidores convictos do divino mestre, não têm qualquer pejo em faltar ao respeito a todos quantos não comungam da sua visão do mundo, considerando ser a sua forma de vida e moral aquela que todos terão de respeitar. Claro, o contrário seria desrespeitarem-nos a eles, senhores de toda a razão e de todo o querer. É este o tipo de pensamento autocrático que revelaram e revelam na passada discussão sobre a interrupção voluntária da gravidez e na novel sobre a morte assistida. Quando procuravam e procuram, a todo o custo, impedir a despenalização de tais atos. Reparem! As leis não os obrigam a abortar nem a pedirem a eutanásia. Apenas consideram que, em determinadas situações, tais práticas não serão consideradas crimes. Obrigará tais determinações legais que eles aceitem ou pratiquem estes preceitos? Claro que não! Então porque se opõem? Muito simplesmente porque se estão nas tintas para as éticas e comportamentos que não caibam nas normas que, com todo o direito, escolheram para as suas vidas. Mas, essa é a verdade, é um direito que é só deles, que por o ser todos terão de aceitar, cometendo assim um desrespeito continuado e bem maior que aquele de que acusam agora o Bloco de Esquerda. Precisam que lhes traga outro maior desrespeito pela vida humana? Então falemos do, agora santo, João Paulo II e do seu tão grande respeito pela vida humana que o levou a declarar ser preferível deixar continuar a grassar, sobretudo em África, a SIDA e a morte resultante, que permitir o uso do preservativo. Que respeitinho admirável, que consolo para as boas consciências.

 

Portanto, amigos e menos tal, não sendo um entusiasta, por questões de gosto pessoal por tal cartaz, defendo com unhas e dentes o direito de terem-no feito e fazê-lo difundir. É uma forma de liberdade cívica e religiosa. Nós somos um estado laico – por isso não percebo porque hei de eu ser agredido todos os domingos, de manhã, com uma transmissão de missa católica na RDP1 – isto é, um Estado que não tem qualquer escolha religiosa, mas que as permite todas e a todas dá a mesma proteção. Quer-se dizer, deveria dar e, sabemos bem, é coisa que não faz.

 

Não me venha por isso falar de respeito, ou falta dele, quem se outorga o direito de querer obrigar todos os outros a viverem segundo regras éticas, que fazendo parte do modo de vida que escolheram e apenas tendo plena validade na cultura, no tempo, de quem a tomou para si, não serão exigíveis a quem fez escolhas diferentes. Querer toda a gente de cabeça baixa por respeitinho pelas coisas religiosas que defende é, no mínimo, fascismo moral.

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publicado por Carlos Alberto Correia às 23:49








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