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À muita augusta atenção de vosselências

Sábado, 16.02.13

 

Eu sei que não votei em vosselências e compreendo que, por esse facto, possam estar muito zangados comigo. Percebo que seja este um mal irrecuperável e que os tratos de polé a que tenho vindo a ser submetido sejam mais que merecidos. Entendo também que quarenta e três anos de trabalho, cumprindo embora tudo quanto a vossa legislação obrigava, não sejam suficientes, nem motivo, para me manter teimosamente vivo, esportulando a faustosa reforma que, por contas de vexas, para as quais não meti prego, me atribuíram. Considero também justíssimo que logo no ano da atribuição, sem me consultarem e contra o contrato justamente imposto por vosselências, tenham mudado as regras de cálculos retirando-me -  contra o que em profunda estultícia ousava chamar legítimas expetativas, mas certamente para bem do erário público - muitas centenas de euros. Garantiam-me assim e sem que, por minha única culpa, o conseguisse perceber, não os gastar em nenhum dos inomináveis vícios, sempre presentes quando alguma abastança, seja ela mínima, fica nas mãos destes irresponsáveis perdulários que nós somos. Estimo ser da maior justiça que imediatamente, no primeiro ano de receção, tenha sido congelado o seu valor e, nos anos subsequentes, com certeza no melhor espírito de justiça distributiva, tenham vindo a esforçar-se por, apesar do meu agnosticismo militante, em sucessivas reduções do valor da reforma, pugnarem pelo meu direito a um lugar no reino dos céus.

 

Podendo parecer distraído ou mesmo afastado desta coisas da religião, nunca me esquece ser mais fácil o tal camelo entrar no buraco da agulha que o banqueiro no reino do dito; nem de que só são bem-aventurados os pobres – mesmo os de espírito – porque só deles será esse reino. Apesar de me ficar a dúvida se em tal império, mesmo que totalmente empobrecido, seja franqueado lugar a republicano convicto, não posso deixar de muito humildemente vos ficar agradecido por tanto desvelo pelo futuro da minha alma, embora por vezes, ingrato que sou, preferisse uma menor mortificação para o corpo, no dia-a-dia.

 

 Pensamentos de gente baixa e ignara, direis. Só posso assentir. Devo ser muito mal formado para não estar agradecido por quantas benesses tenho e temos, povo ingrato destas terras, recebido do vosso esclarecido e benfazejo ministério. Andei longo tempo preocupado com a saúde financeira da banca. Sofri ao pensar que poderiam vir a exercer represálias sobre os motores de criatividade e livre iniciativa que são os BPN, BPP e quejandos. Cheguei, vejam lá até onde vai o meu espírito maligno, a pensar que seriam incapazes de perceber o esquecimento de tributação de uns milhõezitos de um dos mais lídimos representantes do NPF (esclareço, Novo Pensamento Financeiro). Tremi ao pensar que não perdoariam a pequeníssima dívida do excelso guarda-redes. Fui, vejam lá, capaz de pensar querem ver que estes gajos, perdoe-se-me o linguajar, vão obrigar estes senhores a pagar as suas dívidas em vez de, como é seu dever, virem tirar esse dinheiro das nossas reformas e dos vencimentos de funcionários públicos, podendo ainda socorrer-se da possibilidade de desempregarem mais uns quantos calões, interessados somente em “chular” as empresas onde fingiam trabalhar? Felizmente, como não podia deixar de ser, enganei-me e vossências, mais uma vez, não me desiludiram. Souberam estar à altura da situação. Fiquei hoje felicíssimo ao ouvir dizer que estão à espera da decisão do Tribunal Constitucional para transformarem em definitivos os cortes, perdão, as poupanças, que estão a fazer com os emolumentos desta gente. Tremo ao pensar que o Tribunal possa não corresponder às vossas expetativas, falhe na sua missão histórica e vos obrigue a ir fazer poupanças com o vosso dinheiro ou com o dos nossos tão queridos investidores. Que as Erínias não permitam tal desastre é o meu mais profundo desejo.

 

Permitam-me, no entanto, um pequeno reparo. Poderiam fazer as poupanças mais rapidamente. Bastaria, é uma mera sugestão, declarar a eutanásia obrigatória a quem tivesse mais de cinco anos de reforma ou, imediata, caso vencesse mais que mil trezentos e cinquenta euros. Veriam como a tróica daria pulos de contente, vos afagaria a cabeça, a Merkel os aninharia no regaço e os mercados se abririam mais céleres que mulheres de mau porte perante a espórtula. Vossas excelências é que não ousam abrigando-se em desvalidas imposições morais sobre direitos e proteção da vida humana. Se fosse aos senhores aproveitaria a vacatura da cadeira de S. Pedro para conseguir um salto qualitativo moral e instituir uma relação mais correta entre os poderes e os descartáveis. Eu sei que não sou totalmente justo ao dizer-vos isto. Percebo que ao tornarem mais parcas as possibilidades económicas, ao dificultarem o acesso à saúde e medicamentos, estão no bom caminho. Só que é muito tímido e demorado. É preciso aumentar a produtividade das medidas e traduzi-las em maiores e mais céleres poupanças. Vá lá, não sejam tímidos. Os doentes e esfomeados ainda virão a agradecer-vos.

 

Só numa coisa eu não concordo com os meus excelsos governantes. Por nada deste mundo me verão a pedir uma fatura a um comerciante. É que eu quero manter-me intrinsecamente fiel à vossa lógica da livre iniciativa e regulação pelo mercado. Ao pedir fatura estarei, sem dúvidas, a interferir na seleção do mais apto. Para isso não contem comigo. Com os olhos nos vossos exemplos e daqueles que merecem o vosso apoio, digo bem alto: cada um que se desenrasque e sobreviva o mais capaz; o melhor predador.

 

Que assim seja!

 

Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt

 

 

 

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 16:25








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