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Desamor

Quarta-feira, 21.12.11

 

 

Queiram os senhores situar-se no tempo do era uma vez. Por norma era assim que começavam quase todas as histórias infantis connosco, pequenotes, em ansiosa expectativa de acontecimentos maravilhosos onde, embora com sobressaltos e receios, o herói ou heroína terminava sempre por alcançar a vitória e a justiça. Na verdade, estas ditas e feitas histórias de encantar, mais que todos os ensinamentos oficiais de moralidade e religião, ditaram-me um mundo de razão escatológica onde, no final, o bem triunfará sobre o mal. Ingenuamente continuo, por vezes, a habitar esse mundo de encantamento, mesmo a despeito daquilo que me é dado observar no quotidiano.

 

Por isso, era uma vez um abastado lavrador que tinha um grande rebanho de ovelhas que lhe fornecia uma boa parte da sua riqueza. Esse armento de animais dóceis era, porém, um tanto ou quanto indisciplinado. Para seu cuidado contratou o proprietário um pastor e os seus cães. Deixou-lhe boa impressão o contratado. Parecia conhecer bem o ofício, era pessoa de bons modos e dele ficou a esperar um acréscimo de fortuna pelo melhor trato que ao gado seria dispensado. Tudo correu bem no início, tendo sido, passado o tempo de experiência, o pastor contratado a longo prazo. Porém, quando o zagal se achou seguro tudo mudou. Tornou-se descuidado e esquecendo as promessas feitas ao dono do fato, mantinha-o fechado no redil, cuidava pouco da sua alimentação e higiene, não deixando, no entanto, de a seu tempo levar ao lavrador a lã, o leite e o queijo que das ovelhas houvera. Com o passar do tempo e a falta dos cuidados essenciais, o produto foi diminuindo e, após muitas justificações do pastor, desconfiado, o proprietário foi visitar o curral. Não gostou do que viu. As suas ovelhas brincalhonas e luzidias andavam tristes e magras, com a pelagra a devastar-lhes a lã, os olhos ronhosos, um todo de calafrio e calamidade. Furioso despediu o descuidado pastor, pediu auxílio a uns veterinários especialistas em tratar rebanhos degradados. A primeira indicação dos veterinários foi, como não podia deixar de ser, arranje um pastor de confiança para que o nosso trabalho possa dar resultado. Ele assim fez e escaldado pelo bem falar e mal agir do precedente pastor, entre os candidatos ao lugar, escolheu um muito circunspecto, por honesto lhe parecer. A imagem contrária do guardador preterido.

 Em nova confiança e descanso lá partiu o homem para a vila, deixando de novo o rebanho aos cuidados do novo gestor do aprisco. Este, parecendo em tudo dissemelhante do anterior, quando ficou sozinho e verificou o trabalho que iria ter para alimentar e limpar o ovil desanimou. Em vez de cumprir cabalmente o seu mister cortou a ração aos animais e, quando ela escasseou abriu as portadas do bardo incitando o rebanho para que, só e sem amparo, saísse perdendo-se no largo dos campos. Escusado será dizer que o patrão, despeitado, correu com o novo apascentador assim que se apercebeu do prejuízo motivado pelo ânimo desistente e incapaz do guardador do aprisco.

 Creio que se o meu caro leitor fosse o senhor do rebanho, não faria coisa diferente do feito pelo desiludido lavrador. Tenho ou não fundamento? Claro que sim, responder-me-ão. É por isso que me espanto por, na vida real, não ser este o procedimento comum.

 

Então vejamos!

 

Parece-me meridianamente claro que quando alguém se propõe ao governo de um país, traz implícito nesse desejo, a vontade e a capacidade de indicar soluções e resolver problemas. Não sei para que serviria governação desistente, incapaz de equacionar as dificuldades e encontrar-lhe a terapia adequada. É para solucionar as questões gerais que todos abdicamos de parte da nossa autonomia a favor de um grupo de poder que nos convence, melhor ou pior, ser o apropriado, no momento, para a manutenção do bem comum e capaz de acrescentar progresso onde outros não vislumbram possibilidades. Isto é boa governança e merece o sacrifício de alguma liberdade individual para que mais altos destinos se produzam. Sem este acréscimo não vale a pena manter governantes. Um desistente nunca deverá ter autoridade para, em vez de encorajar, disseminar o desânimo pelos outros. E que fazem, a nosso favor, os governantes, após nos secarem de lã e leite? Nada, ou pior, convidam-nos, qual ovelha tresmalhada a procurar outro rebanho porque no nosso, por sua incapacidade, não se nos arranja lugar.

 

Então para quê o sacrifício da vontade própria, do nosso trabalho, dos escassos bens ainda possuídos? Para, onde procuramos soluções, ouvir um desavergonhado, emigrem!? Um secretário de estado, um centro de emprego, e fantástico, um primeiro-ministro - a quem competiria apresentar soluções - desistem e aconselham parte importante do povo a emigrar? Que estão estes indivíduos a fazer no lugar que ocupam? Porque é que o senhor – isto é, a vontade popular – não faz o que deve e despede o mau pastor? Estamos à espera de quê? Que nos espoliem ainda mais? Que, impudicos, tripudiem sobre as nossas vidas a seu bel-prazer e cuspinhem sobre as nossas melhores expectativas?

 

Seremos, um dia, eu tenho a certeza, capazes de dizer o BASTA que urge e mandar, para a escatologia que merecem, tão maus servidores, em insensíveis mandadores arvorados. Convictos destruidores das condições de vida dos pequenos, serventuários untuosos dos grandes poderes financeiros; gente sem alma nem lei com rapaces corações vendidos, a baixo preço, à hidra da alta finança apostada em desfazer tudo o que foi conquista, civilização, solidariedade, equidade e confiança no futuro.

 

De que estamos à espera para despedir tão maus pastores que, por inconfessados interesses próprios e notável desamor nos oferecem, como moeda, aos lobos?

 

Como, a seu tempo, disse Lopes Graça: ACORDAI!

 

 

 Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt

 

 

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 18:51

Um euro por semana! Custa muito?

Quinta-feira, 15.12.11

 

Nos últimos dias, em várias estações de televisão, tem-nos sido dado observar a fome e o desespero de milhares de portugueses privados de trabalho e quaisquer meios de subsistência, tendo de recorrer a instituições de caridade para garantir uma refeição, por dia, para si e para os seus filhos.

 

Dói ver a humilhação nos olhos de quem, tantas vezes e tantos anos, lutou para viver com independência e dignidade assistir ao derrocar, sem culpa própria, de todos os projetos e objetivos de vida próprios e dos seus descendentes. Apesar de tudo, como muitos dizem, nada mais lhes resta para se manterem vivos que a sopa pública.

 

Não sou adepto da caridade e sempre aceitei como bom o aforismo de mais valer ensinar a pescar que dar um peixe a quem tem fome. No entanto, que fazer quando não há já peixe no rio ou, por malvada sorte, nem mesmo o rio existe já?

 

Também tenho verificado a angústia espelhada e expressa nos rostos e vozes de quantos, responsáveis pela gestão de tais instituições, apontam para a exiguidade de recursos, o aumento exponencial de necessitados a acorrer aos seus bons ofícios e a pungente certeza de que, com muita brevidade, vão deixar de prestar o seu precioso auxílio, porque as verbas são escassas e começam a exaurir-se por tanta necessidade. E, caros amigos, como se diz, ainda a procissão vai na praça porque o próximo ano a calamidade se abaterá, sem dó nem piedade, sobre muito mais famílias mesmo, longe vá o agouro, de muitas que hoje, livres ainda da angustiada situação de carenciados, se verão, por inusitados acontecimentos, na posição dos que hoje já têm de recorrer às boas vontades alheias.

 

Confrangido com a realidade visível, amargurado pela impotência pessoal, revolvi a inventiva na busca de alguma solução, dentro das nossas possibilidades efetivas, que pudesse remediar estes dois males: o crescimento da necessidade e o decréscimo das possibilidades de ajuda. Ocorreu-me então a imagem da galinha que grão a grão enche o seu papo. Vi aí um possível remédio! Como? Perguntarão?

 

A resposta é ao mesmo tempo simples e complexa. Simples porque permitiria manter, durante a crise, o auxílio aos necessitados. Complexa porque necessitaria da coordenação de boas vontades e trabalho em rede de voluntários e instituições de beneficência. Em síntese imaginei que num belo exemplo de solidariedade cada português prescindisse, por semana, de um euro – um só eurito – e o entregasse (através de contas bancárias, recebimento porta a porta por voluntários, entrega direta em associações e quantas mais formas se inventassem ou encontrassem) às instituições que quisessem assumir, auxiliadas pelos voluntários, a responsabilidade de lançar e manter este movimento. Confiado na generosidade dos meus concidadãos tenho a certeza que o bago a bago poderia obstar a muitos futuros atos desesperados de imensa gente.

 

Vá lá, não custa nada. Mobilize-se e, com um euro por semana, permita que o sorriso, ainda que triste, de muitas crianças se mantenha até ao dia em que a dignidade de cada um possa voltar a ser reposta e que, cada um igualmente possa, num abraço fraterno, dizer a qualquer outro: Assim evitámos o pior.

 

Conto contigo e tu, conta comigo.

 

 

Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt

 

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 11:25

São contra a eutanásia, dizem eles!

Sexta-feira, 02.12.11

 

 

Presumem-se pessoas de moralidade perfeita. Reconhecem-se bem pensantes e têm a certeza da infinita bondade das suas ideias. Predicam um mundo de amizade, compreensão e de mãos dadas. Não deixam de ser caritativos e são assíduos em algumas prestações, mais mediáticas, de ajuda aos necessitados. Sofrem com o abandono de crianças e, por vezes, correm a adotá-las salvando-as de uma vida sem apoio familiar. Têm princípios, educação e, frequentemente, são mesmo gente abastada. Prenunciam-se ativamente contra o aborto e a eutanásia. Consideram que ninguém tem completo domínio sobre o seu corpo, porque sobre a sua vontade deverá imperar um principio religioso ou legal. A morte só poderá advir de um desígnio sobrenatural ou de uma decisão de juízes. Desapossam assim, completamente, os desapossados da única coisa que ainda é sua: o seu corpo, e fazem nisto o corolário de uma imensa hipocrisia social.

 

Votam, claro, maioritariamente à direita. Como costumam dizer, à direita dos valores sendo que devemos entender que, na verdade, o seu voto é nos valores da direita. Isto é, possuem uma visão particular do mundo que pretendem tornar única e para toda a gente, destruindo a multiplicidade, servindo-a obrigatoriamente a quem, não a compartilhando poderá ver-se, por necessidade, forçado a partilhar os efeitos de tais ideais. A isto chamam liberdade de escolha. A isto chamo eu subjugação. Claro que os bem pensantes, aqueles que no dizer de Sophia de Mello Breyner, cito de memória, como todas as pessoas sensíveis não matam galinhas, nunca deixam, porém, de continuar a comê-las. Desde que outros, que por isso desprezarão, as matem por e para eles. Não fazem o que é sujo, mandam fazer.

 

Essa gente que se horrorizará com a história daquela tribo ameríndia em que os filhos, quando o pai envelhecia, perdendo as capacidades de manutenção própria, lhes davam uma manta, os levavam para o alto de um monte distante e lá os deixavam abandonados até que a fome e os elementos lhes trouxesse a morte, é a mesma que assiste impávida e até com sorrisos de aprovação às medidas assassinas que, na nossa civilizadíssima sociedade, vêm sendo tomadas para a eliminação segura e paulatina dos idosos. Aplaudem a doação da manta, o distanciamento e o abandono, entre o simbólico e o real, a que as medidas de ajustamento financeiro estão a condenar os nossos velhos. É uma atitude assassina, descomprometida, cheia da leveza da ausência de culpa. É a galinha que se come porque não a vendo matar se elide a realidade dessa morte. É, como já dito, o cúmulo da hipocrisia servida em belas atitudes assistencialistas. Todos sabemos que para haver caridade é preciso criar pobres. E tudo isto está muito bem e está muito certo enquanto bater às portas dos outros. O caso só muda de figura quando o risco lhes bate à porta. Aí, bradarão aos céus a injustiça que os vítima e, ostensivamente, fazem entrar no oblívio os quantos, antes deles viram soçobrar sem um pequeno esgar de desaprovação e pensando sempre que se a desgraça lhes batia à porta era porque o mereciam. Na maior parte das vezes a solidariedade social é uma verdadeira ficção. Sobretudo quando a iniquidade é praticada pelo partido em que essas santas almas, sempre na paz do senhor, votam e depositam toda a confiança.

 

Pagam aos pensionistas reformas miseráveis? Pois, é pena, mas o Estado não tem possibilidades e não pode pagar mais. Mas esse Estado não compra carros de milhares de euros? Claro, é necessário para manter a dignidade das funções! Cortam na assistência medicamentosa? O que se haveria de fazer quando as contas com os medicamentos atingem valores tão elevados? A falta de poder aquisitivo para os remédios condena as pessoas a um menor período de vida e a suportar dores e infortúnios aflitivos? Ora, ora, é da idade, o que se pode fazer? O cada vez mais difícil acesso à reforma obriga gente já sem capacidade de trabalho a arrastar-se agonicamente num posto que deveria passar para gente mais novas? Que querem? São as condições da economia que fazem regras sacrossantas para explorar até ao limite as forças vitais e, depois, descartar o ser humano que por esgotado já mais não possa? Já ouvimos, em prédicas de Estado, afluir, por desastrados comentários, à superfície do discurso, o quanto o reformado é egoísta por, não morrendo rapidamente, estar a expurgar o tesouro de valores que bem podiam ser empregues em mais rendosos negócios. Claro, quem assim fala nunca se lembra de que não dão nada a ninguém, apenas devolvem parte do valor que a pessoa, ao longo do tempo de trabalho, descontou, como um seguro, para auferir na velhice de uma vida mais calma e digna. Também se esquecem que o tempo passa e que aquilo que estão a preparar para os outros virá, um dia, a cair-lhes sobre a cabeça. Só a ilusão e uma menoridade mental lhe obnubilam essa certeza. São distraídos e cúmplices de um enorme assassinato coletivo dos idosos e das esperanças dos mais novos. Continuam no entanto, bondosos e bem pensantes a defender os valores da vida, abominando o aborto e a eutanásia mas participando, mais ativamente que o que querem reconhecer, no crime de eliminação dos idosos que vale, agora, como lei económica, na nossa bela e pútrida sociedade.

 

Volto a recordar: as pessoas sensíveis não matam galinhas!

Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt

 

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 16:58








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