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Raivar… que este é outro jogo! Um exercício arriscado

Quinta-feira, 17.11.11

 

Hesitei bastante antes de me arrojar na escrita destas linhas. Apenas a insistência dos meus colegas sobre a necessidade de uma explicação detalhada dos motivos que levaram o Projéctor, na encenação de Abílio Apolinário, a representar, nesta época, um Auto de Índia, transformado por uma apresentação e um epílogo de lavra atual, me levaram à prossecução deste atrevido exercício.

 

Atrevido a meu ver por duas ordens de ideias. A primeira porque estou duplamente implicado como ator e como autor dos textos acima referidos. A segunda prende-se com o injusto esquecimento de que é frequentemente alvo Gil Vicente, o pai do nosso teatro.

 

Em reunião coletiva do Projéctor foi tomada a decisão de encenar, pelo menos uma vez por ano, uma obra de Gil Vicente. Deliberação correta mas, incrivelmente, com alguns riscos. Se noutros países os seus dramaturgos fundadores são motivo de culto, sendo assiduamente representados, entre nós, parece existir um pudor, indiferença ou ressentimento contra os nossos maiores autores, relegando-os para o limbo dos usos insuficientes em manuais escolares ou outras práticas académicas. Representá-los, usá-los como matéria viva, raramente nos passa pela cabeça. Espanha louva Lope de Vega, Inglaterra incensa Shakespeare, em França imperam Racine e Molière – entre outros – e na Itália Goldoni, faz o pleno. E nós? Como sempre, por baixos motivos, imprecamos contra o que é nosso e, bacocamente, deslumbramo-nos com “o que vem lá de fora”. Parece envergonhar-nos aquilo que aqui se faz ou fez. Não é de agora esta pecha e, um relançar de olhos pela história, mostra-nos, sem rebuços, a permanência de tão nefasto comportamento.

 

Decididos a contribuir, dentro das nossas possibilidades, para ultrapassar este estado de assumida menoridade, em termos de festejo de quinze anos de vida e na primeira festa do teatro organizada pela nossa Companhia, fizemos avançar o Auto da Índia, certos da atualidade do seu conteúdo. Senão vejamos: Apertados pelas poucas possibilidades oferecidas pelo País os nossos avoengos, por necessidade ou ambição, mandam-se ao mar em busca das riquezas que por cá escasseavam. A sangria desta migração, ainda que temporária, na pequena população do país reflete-se de modo vário nos usos e viver da população, conduzindo à quebra dos costumes e mudança de moral. Pode dizer-se ser sinal dos tempos e ser sempre assim. Cada época mata a moral antiga e faz crescer uma própria, nascida das necessidades e conjunturas históricas. Nada a opor quando tal mudança aponta para um bem maior. Ora as navegações, trazendo brilho, prestígio e bens de alto valor, não permitiam – onde é que eu já vi isso? – uma redistribuição equitativa por todos os atores sociais em presença, causando um desequilíbrio civil bem maior e desgastante que o anterior. Por isso, Gil Vicente satiriza o Marido (Navegador) na ânsia de riquezas, perdendo as virtudes, apesar de tudo, ainda declaradas como válidas numa sociedade que, na prática, se ia afastando, cada vez, mais delas. Aponta também, na pesporrência do Castelhano e na sua corte a Constança, o risco, sempre presente, da opressão castelhana. Degradação interna, risco de dominação exterior, houvesse mais um pretendente a Constança e teríamos desenhado, sabem o quê, uma “troika”.

 

O teatro de Gil Vicente é, sobretudo, um teatro de atores. Daí a escolha do encenador por um palco onde os adereços são apenas, ao lado esquerdo a cama, ao direito um banco, marcando os espaços da casa. Entre o banco e a cama circula uma roca, símbolo do trabalho diário a cair para o desprezo (como diz a Ama, “siquer fiarei um fio”) com os olhos postos nos lucros a vir, fossem eles resultantes de comércio são ou de matanças e roubos em que, recorde-se Fernão Mendes Pinto, os nossos marinheiros eram expeditos, ganhando-se e perdendo-se fortunas – e vidas – em cada viagem.

 

Havia contudo dois problemas a ultrapassar. Um era a pequena duração da farsa, outro era a dificuldade de apreensão dos temas da peça por dificuldade de compreensão das falas, mantidas, por opção, no original. Muitos grupos de teatro resolveram o primeiro problema apresentando mais do que uma peça do autor; outros fizeram a junção de partes de vários autos, produzindo uma obra particular. Nós decidimo-nos por acrescentar dois textos – Apresentação e Epílogo – mantendo a métrica e musicalidade dos textos vicentinos, servindo o primeiro para explicação da farsa, ao mesmo tempo que introduzia a atualidade através da frustração sentida pelo Apresentador na distribuição de papéis, tal como acontece nas nossas vidas e no tempo presente. No Epílogo, bebendo ainda nas narrações de Fernão Mendes Pinto, ultrapassando a ambiguidade deixada por Gil Vicente na condição económica do Marido, apontamos para um regresso às Índias onde iria recuperar tesouros que deixara escondidos. Acentua-se a ambição reinante e, pela decisão do Marido, os amantes de Constança tornam-se seu protetor, o Lemos e aprovisionador, o Castelhano. Pode interrogar-se aqui o espetador sobre a ingenuidade ou esperteza do marido. Seria ele tão parvo que não entendera que o casamento ruíra por diferença de idade e ausência? Ou, pelo contrário, consciente de tudo isto e sendo seu maior interesse a recuperação das riquezas, metia, dentro de casa o diabo, para esconde-lo dos olhos da população, salvaguardando as aparências? Ao dar o seu beneplácito ao trânsito dos amantes da mulher, através do exercício de atividade reconhecida, salvava a face e poderia ir em busca de mais riquezas, único interesse de Constança nele próprio. A tudo isto assistia a Moça, ao mesmo tempo participante e distanciada julgadora, instituída voz da moral popular onde residiria ainda o repositório crítico dos valores da nação.

 

Apresentado, em quadro sinóptico, o enquadramento da ação está cumprida a tarefa da explicação que julgo necessária. Abstenho-me de falar da interpretação porque isso caberá ao público ajuizar. Assim, recomendo que no próximo domingo, dia 27, pelas 17 horas, vão assistir à última representação deste auto, integrado na Festa do Teatro da Associação Projéctor, nos Penicheiros.

 

Vão e julguem por vós próprios!

 

Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 19:16

Xadrez

Quinta-feira, 03.11.11

 

Nunca fui bom jogador de xadrez. Autodidata na arte, mero conhecedor da movimentação das
peças, ia-me safando enquanto a luta era entre peões e cavalos. Quando entrava
em cena a deslocação mais complexa de bispos, torres, dama e rei, a coisa fiava
mais fino e perdia-me nas complicações de ataques e defesas com muitos
desenvolvimentos possíveis. Chegado o momento de armar um xeque ao rei, então,
só por mero acaso me surgia um alumiamento e, ainda mais raro, cúmulo da sorte,
lá conseguia um cheque mate. Por isso sempre admirei qualquer jogador capaz de
conduzir, premeditadamente, o adversário para o terreno adverso.

 

Daqui o meu respeito pelo gambito perpetrado por Papandreou, pequeno e detestado David, à poderosa
burocracia europeia (bem como ao diretório franco-alemão) Golias de arrogância,
desprezadores de direitos e humanidades, funcionários de impérios financeiros
sem rosto e sem alma. Sujeitados ao terror da dívida, os gregos já perderam
percentagens de rendimento que passam os cinquenta por cento. Benemérita a
Europa decidira agora perdoar parte da dívida grega, contra mais um esmagamento
da já parca capacidade de recurso desse povo. Poderosos mas pouco inteligentes,
os diretórios, nunca se terão apercebido que o poder existe na proporção direta
da expectativa, em relação e ele, tida. Explico melhor. Se o meu chefe na
empresa, de quem dependo e de quem depende o meu progresso, me exige algo eu
sou tentado a corresponder num exercício de custo/benefício a esse requisito. Se
porém, eu estou de saída desse emprego, o seu poder vai diminuindo na razão
direta do tempo que falta para a minha saída. Na Grécia chegou-se a este
estádio. Os sucessivos e desalmados apertos que a “ajuda” foi introduzindo
levaram à perda de qualquer esperança por parte dos gregos. Colocados entre
dois males maiores, sacudiram o jugo e, com a primeira arma da democracia,
ouvir o povo, puseram em pânico os democratas de novo estilo, receosos de
qualquer ato democrático por si não dominado e manipulado.

 

A decisão do governo grego vai criar um “tsunami”
de proporções desconhecidas mas presumivelmente catastróficas. Cá estaremos
para ver e, como sempre para aguentar o esforço necessário à sobrevivência em
tempos de cólera. No entanto, que tinham eles a perder? Com ajuda ou sem ajuda
foram colocados numa posição em que o resultado será sempre ruinoso. Então,
caíamos levando connosco quem a tal nos obrigou. Decisão terrível mas
perfeitamente compreensível. Nem todos dão a outra face, nem a isso são
obrigados caso não professem a passividade frente à agressão propalada pelo
cristianismo.

 

E como é que isto nos toca a nós? A esta pergunta capital correm os fazedores de poeira a
mostrar, solícitos, que nada neste país se assemelha à prevaricadora Grécia.
Pois não. Não temos buracos nas contas – a não ser o pequeno caso da Madeira –
a nossa banca está segura, embora tenhamos BPN e BPP, a banca não financie as
empresas, o desemprego não caminhe em passo acelerado, as condições de vida da
população não estejam a degradar-se rapidamente, a recessão não seja agravada
pela ajuda, os velhos não comecem a morrer por falta de apoios médicos e
medicamentosos, os jovens não andem a pensar onde, no mundo, está o seu futuro.

 

De tal modo vamos em alegre aceleração para o aviltamento que um qualquer secretário de
estado foi capaz de, por pura inabilidade, desvendar parte do jogo afirmando
que os nossos jovens devem sair do seu local
de conforto???
e procurar a resolução dos seus problemas na emigração. O
facto de não ter sido demitido de imediato, nem sequer sido sujeito a censura
pública do governo demonstra como está em consonância com os restantes
governantes. Se acrescentarmos a isto as palavras do nosso primeiro-ministro
sobre a necessidade de empobrecermos em prol de um distante enriquecimento – de
quem? - mais a inspirada declaração do ministro Relvas para o aplanamento das
remunerações, por sonegação dos subsídios de Natal e férias, gentilmente
chamando a nossa atenção para o facto de em países, onde se ganha três vezes
mais que aqui, não haver tais subsídios, perceberemos a profunda inversão a que
as nossas sociedades chegaram.

 

No principio a economia surgiu como uma forma de servir as pessoas. O capitalismo
neoliberal, em pura prestidigitação, alterou a ordem dos fatores e agora são as
pessoas que servem a economia, ou, mais precisamente, a sua forma degradada em
financeirismo ou, como muito bem alguém chamou, economia de casino. Assim, as
pessoas, tal como os povos, são divididos em duas classes, os produtivos que,
com exceção de um muito pequeno grupo dirigente, deverão ser utilizados pelo
menor custo possível e os outros – velhos, desempregados, jovens sem
experiência no campo do trabalho – que deverão ser descartados do modo mais
rápido e eficaz possível.

 

É o que está a acontecer na Grécia, é o que já começou a acontecer aqui. Como é costume
dizer-se, os jogos estão feitos! Agora há que aguardar as consequências. Ou
então vamo-nos aperfeiçoar no xadrez e façamos, de surpresa, cheque ao rei, melhor
à rainha que, neste caso, passou para segundo plano o rei.

 

 

Publicado in “Rostos
on line” – http://rostos.pt

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 13:03








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