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O Tejo em todas as suas dimensões

Sexta-feira, 13.02.09





A proximidade de Lisboa tem feito mal ao Barreiro. Tornou-o provinciano e parente pobre dos luzeiros da grande urbe. Olhando para dentro e miopemente foi deixando que a grande vizinha lhe levasse tudo e todos quantos da mediania pretendiam sair. E foi-se sociologicamente empobrecendo num deixa andar mole e entorpecente. É certo que motivos políticos e outros foram-se, para mal dos nossos pecados, muitas vezes conjugando. Mas se isso é verdade, não desculpa a torpe aceitação da menoridade a que alguns quiseram condenar-nos. Faltou, em muitas ocasiões, foi a vontade de partir a loiça e de dizer a mandadores de mandadores, que já bastava o que bastava, e que quem geria os nossos destinos era a nossa vontade. Seria difícil, porventura, mas era necessário.

Por isso fomos andando, perdendo peso e população, vendo a juventude procurar o futuro do outro lado do rio.

No entanto, nos longes do tempo, quando quis e olhou para além do seu umbigo, o Barreiro soube ser grande e deixar a sua marca na História. Bastou-lhe olhar para fora, não deixar que Lisboa se interpusesse no seu caminho e gritar as suas competências e possibilidades. Fê-lo na Idade Clássica por entre os rios, na Renascença com os descobrimentos, no Iluminismo com os vidros, na época do vapor com as fábricas de cortiça e caminhos-de-ferro e, já mais perto, com o marco químico da CUF.

Em todos os momentos de grandeza existiu sempre uma constante: a premente presença do Tejo e a suave insinuação do Coina!

Um rio pode ser um obstáculo ou um traço de união entre as duas margens. Depende apenas das pontes que se lancem. Neste momento, parece ser a segunda hipótese a prevalecer com a previsível construção da Terceira Travessia. É uma oportunidade que não poderemos perder e que terá de concitar todas as boas vontades no mesmo sentido. Que, como é triste hábito, querelas antigas tantas vezes sem sentido, não venham a atravessar-se, por duvidosas contabilidades sectárias, na possibilidade de realização desta obra. Podemos estar num momento fulcral para abater a apagada e vil tristeza do nosso viver. A construção do Aeroporto, a plataforma logística do Poceirão, agregada à já referida ponte, pode ser o impulso que faltava para acordar o velho urso da sua hibernação.

De qualquer modo isto só será uma parte do a fazer. Por muita utensilagem material de que disponha, nenhum homem, nenhuma sociedade, se afirmará e tornará credível sem o substrato cultural que confira significado a esses meios. Caso o não possuam poderão parecer tão risíveis como as ridículas ostentações de novos-ricos destituídos das medidas das proporções, logo excessivos nas demonstrações públicas de riqueza.

Por isso, tendo em conta as modificações estruturantes que estão a caminho, e que irão deixar livre todo o espaço da antiga estação de comboios e da actual estação fluvial, mais as ferrovias adjacentes, espera-se, com profunda esperança, que para as mesmas não esteja reservado o triste destino de serem alienada a interesses de construtoras e similares semeadoras, a esmo, de toscos betões e possam ser reservados para instituições que melhor projecção confiram ao Barreiro.

Sem querer fazer deste objectivo monopólio da qualquer força política – até porque a sua consecução dependerá de todas e de mais boas vontades da sociedade civil - não posso deixar de referir que, no momento, na Concelhia do Bloco de Esquerda do Barreiro, se trava, com especialistas de várias disciplinas, um debate sobre o aproveitamento desses espaços para estabelecimento de um Centro Cultural e Científico do Tejo, com ambições de instituto nacional.

Fundamenta esta ideia o facto, já anotado, de ter sido o Barreiro, em várias épocas histórica, o fulcro do desenvolvimento senão do país, pelo menos do sul, sempre centrado na auto-estrada para o mundo que o Tejo é. A notável percepção do arco ribeirinho, como pólo de desenvolvimento, acrescenta estas possibilidades e fá-las mesmo sentirem-se como inadiáveis para a consecução de um projecto de vertentes materiais, sociais e culturais que a cidade merece.

O conceito que estudamos engloba toda a região banhada pelo Tejo bem como a concentração temática de zonas de visionamento, estudo, pesquisa e acção dos períodos em que toda esta região influenciou positivamente os destinos pátrios. Núcleos museológicas sobre os descobrimentos, as cortiças, as ferrovias, o sal, os moinhos, o bacalhau, o vidro, etc. coexistiriam com bases de dados, para investigações, ligadas a estas matérias. As artes performativas e plásticas deveriam ter ali, também, poiso adequado. Assim seria possível que as necessidades de estudos, ao mais alto nível, e os olhares interessados de quantos fazem do conhecimento o seu mister, descobrissem o Barreiro como ilha de saberes do passado e do futuro sobre este Tejo de inenarráveis possibilidades e dimensões.

E as questões económicas??!!

Façam-me o favor de perguntar a Madrid, Barcelona, Paris, ou a cidades mais ao nosso nível como Verona ou Bolonha, qual é a rentabilidade das suas instituições científico-culturais.

São capazes de vir a ter uma surpresa!



Publicado in "Rostos on line" - http://rostos.pt

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publicado por Carlos Alberto Correia às 15:28








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