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Olhós amantes do gajo

Quinta-feira, 26.02.09




Se fosse apenas uma questão de cultura o caso, sendo grave, não seria desesperado. Mais uns tempos de escolaridade ou formação e a solução estaria, provavelmente, encontrada. Se fosse tão só a polícia de Braga – invejosa do sucesso universal das “mães de Bragança”- a investir, gloriosamente, contra o valor cultural existente no quadro de Gustave Coubert,”As origens do mundo” seria lamentável, mas não passaria de uma mera excrescência demencial que poderia, com alguma persistência, ser clinicamente expurgada. Só que, meus amigos, os casos sucedem-se e começam a marcar, de modo relevante, o nosso quotidiano. É necessário, portanto, estarmos atentos e, não descurando o lado anedótico dos acontecimentos, não deixarmos, por descuido ou laxismo, que os inimigos das liberdades e dos direitos humanos, serventuários ferozes de um autoritarismo antigo e redutor, venham de novo impor, com prepotências e censuras prévias, o esmagamento dos direitos à livre expressão e às liberdades cívicas.

Se não tivesse já havido sinais inquietantes de intervenção policial, de forma absolutamente ilegal, em várias associações com vista a controlar previamente o conteúdo de comunicados, greves ou manifestações, poderíamos, ligeiramente, abanar a cabeça, com comiseração, deixando de lado a inquietude e murmurando, entre dentes, um comentário mordaz sobre a estupidez policial. Se não viessem sempre as justificações dessas acções como de simples obediência a ordens superiores – tal como nos campos de extermínio nazis – sem que nunca cheguemos a saber de que “superioridade” foram emitidas, talvez pudéssemos minimizar acontecimentos como estes e, despreocupadamente, seguir o ritmo na nossa vida normal.

Se a polícia não estivesse sempre pronta e eficaz para a repressão violenta de acções populares justas mas desagradáveis aos poderes constituídos; se a mesma polícia está ausente quando, nos bairros sociais, por causas profunda, ligadas a questões de sobrevivência não resolvidas, rebentam confrontos que põem a segurança dos moradores em causa e criam climas de terror; se os relatórios anuais de várias instituições de observação mundial de direitos humanos, não apontassem, continuadamente, o deficits democrático, por sucessivas violações dos direitos individuais, desta polícia, poderia rir-me desbragadamente dos actos anedóticos que cometem.

Se a magistratura judicial, tão lenta a julgar qualquer caso de bric-à-brac, não fosse tão célere a censurar um écran de computador com algumas mulheres semidespidas - se não soubéssemos que esse computador era o Magalhães - talvez gargalhássemos com a manifesta caricatura que este procurador deu da “sua justiça”. Se não víssemos como o caso Casa-Pia se arrasta e esvazia perante a influência dos poderosos; se não soubéssemos que as vítimas são crianças desvalidas; se não nos entrasse, todos os dias, pela casa dentro o aumento oportunístico do desemprego; se não soubéssemos que quase metade dos desempregados não recebem qualquer subsídio de desemprego e que os bancos mal geridos são premiados com lautos subsídios a galardoar a sua cupidez e inoperância, talvez achássemos que é carnaval, logo, nada se devendo levar a mal!

Se não soubéssemos que a DREN tem sido obreira, através de acções e posições da sua directora, de algumas perseguições e prepotências exemplares, poderíamos ficar estupefactos com o autoritarismo com que desmandou uma posição legal e oficial do Conselho Pedagógico de uma escola sobre a sua tutela. Poderíamos, então, pensar tratar-se de mera falta de inteligência ou perspicácia pessoal o ter obrigado os professores dessa escola a desfilar num corso carnavalesco - o que eles fizeram, vestidos de negro e de fita-cola na boca - contra sua vontade, obrigados por uma nota oficial de estilo e obediência tão duvidosos que, mal cumprida a ameaça, logo foi explicada de modo atabalhoado – tal como todas as situações anteriormente citadas o foram – revelando a incomensurável arbitrariedade desses actores, tão ofensiva de direitos, liberdades e garantias.

E nunca, nada, nem ninguém, foi, por tais actos, alguma vez, responsabilizado.

Estas coisas começam sempre assim. Levemente. De mansinho. É um acontecimento aqui, uma pequena repressão ali, um “gag” que pela sua imbecilidade até dá vontade de rir e, pouco a pouco, quase sem darmos por isso, vemos o nosso campo de acção a restringir-se e as capacidades de resistência geral a diminuir por aceitação de habitualidades que, maldosamente, se instilam e instalam.

É ver, senhores, o concomitante exercício de reabilitação do pai de todas as iniquidades de que forças obscurantistas tentam forçar a memória. Ora é sério e o maior português, ora, como actualmente é um desenfreado Casanova a tripudiar sobre a moral que, férrea, era imposta, por sua vontade, ao povo português. Ele há-o para todos os gostos. Forma imprecisa mas persistente do inconsciente nacional, ei-lo que vai florescendo, aqui a ali, nas instituições mais retrógradas. Como o carnaval já passou, tirem-se as máscaras e chamem-se os nomes correctos ao bois. Não deixemos que a coberto da Crise os fascistas ocultos e inscritos nos corpos das instituições tomem de novo o comando. Os amantes do gajo são de aproximação doce e subtil, mas escondem o chicote e os instrumentos de tortura por baixo do roupão caseiro.


Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt

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publicado por Carlos Alberto Correia às 16:33

Memórias 13 - sw2

Domingo, 22.02.09




não sei se cheguei depois
mas as minhas mãos vieram antes
acariciar-te o sorriso

no teu rosto
rosto de marés
o encantamento das palavras murmuradas

tal como uma distância
vives dentro de mim
talvez de ressonância em ressonância
seja o teu nome
um monumento barroco

é no suave fascínio de mulher
que te cumpres ao longe
que eu te espero e não queres vir

esta foi a canção que ouvi em ondas curtas
em sw2 para ser mais exacto


Guiné, Teixeira Pinto, 21 de Novembro de 1967

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publicado por Carlos Alberto Correia às 01:23

O Tejo em todas as suas dimensões

Sexta-feira, 13.02.09





A proximidade de Lisboa tem feito mal ao Barreiro. Tornou-o provinciano e parente pobre dos luzeiros da grande urbe. Olhando para dentro e miopemente foi deixando que a grande vizinha lhe levasse tudo e todos quantos da mediania pretendiam sair. E foi-se sociologicamente empobrecendo num deixa andar mole e entorpecente. É certo que motivos políticos e outros foram-se, para mal dos nossos pecados, muitas vezes conjugando. Mas se isso é verdade, não desculpa a torpe aceitação da menoridade a que alguns quiseram condenar-nos. Faltou, em muitas ocasiões, foi a vontade de partir a loiça e de dizer a mandadores de mandadores, que já bastava o que bastava, e que quem geria os nossos destinos era a nossa vontade. Seria difícil, porventura, mas era necessário.

Por isso fomos andando, perdendo peso e população, vendo a juventude procurar o futuro do outro lado do rio.

No entanto, nos longes do tempo, quando quis e olhou para além do seu umbigo, o Barreiro soube ser grande e deixar a sua marca na História. Bastou-lhe olhar para fora, não deixar que Lisboa se interpusesse no seu caminho e gritar as suas competências e possibilidades. Fê-lo na Idade Clássica por entre os rios, na Renascença com os descobrimentos, no Iluminismo com os vidros, na época do vapor com as fábricas de cortiça e caminhos-de-ferro e, já mais perto, com o marco químico da CUF.

Em todos os momentos de grandeza existiu sempre uma constante: a premente presença do Tejo e a suave insinuação do Coina!

Um rio pode ser um obstáculo ou um traço de união entre as duas margens. Depende apenas das pontes que se lancem. Neste momento, parece ser a segunda hipótese a prevalecer com a previsível construção da Terceira Travessia. É uma oportunidade que não poderemos perder e que terá de concitar todas as boas vontades no mesmo sentido. Que, como é triste hábito, querelas antigas tantas vezes sem sentido, não venham a atravessar-se, por duvidosas contabilidades sectárias, na possibilidade de realização desta obra. Podemos estar num momento fulcral para abater a apagada e vil tristeza do nosso viver. A construção do Aeroporto, a plataforma logística do Poceirão, agregada à já referida ponte, pode ser o impulso que faltava para acordar o velho urso da sua hibernação.

De qualquer modo isto só será uma parte do a fazer. Por muita utensilagem material de que disponha, nenhum homem, nenhuma sociedade, se afirmará e tornará credível sem o substrato cultural que confira significado a esses meios. Caso o não possuam poderão parecer tão risíveis como as ridículas ostentações de novos-ricos destituídos das medidas das proporções, logo excessivos nas demonstrações públicas de riqueza.

Por isso, tendo em conta as modificações estruturantes que estão a caminho, e que irão deixar livre todo o espaço da antiga estação de comboios e da actual estação fluvial, mais as ferrovias adjacentes, espera-se, com profunda esperança, que para as mesmas não esteja reservado o triste destino de serem alienada a interesses de construtoras e similares semeadoras, a esmo, de toscos betões e possam ser reservados para instituições que melhor projecção confiram ao Barreiro.

Sem querer fazer deste objectivo monopólio da qualquer força política – até porque a sua consecução dependerá de todas e de mais boas vontades da sociedade civil - não posso deixar de referir que, no momento, na Concelhia do Bloco de Esquerda do Barreiro, se trava, com especialistas de várias disciplinas, um debate sobre o aproveitamento desses espaços para estabelecimento de um Centro Cultural e Científico do Tejo, com ambições de instituto nacional.

Fundamenta esta ideia o facto, já anotado, de ter sido o Barreiro, em várias épocas histórica, o fulcro do desenvolvimento senão do país, pelo menos do sul, sempre centrado na auto-estrada para o mundo que o Tejo é. A notável percepção do arco ribeirinho, como pólo de desenvolvimento, acrescenta estas possibilidades e fá-las mesmo sentirem-se como inadiáveis para a consecução de um projecto de vertentes materiais, sociais e culturais que a cidade merece.

O conceito que estudamos engloba toda a região banhada pelo Tejo bem como a concentração temática de zonas de visionamento, estudo, pesquisa e acção dos períodos em que toda esta região influenciou positivamente os destinos pátrios. Núcleos museológicas sobre os descobrimentos, as cortiças, as ferrovias, o sal, os moinhos, o bacalhau, o vidro, etc. coexistiriam com bases de dados, para investigações, ligadas a estas matérias. As artes performativas e plásticas deveriam ter ali, também, poiso adequado. Assim seria possível que as necessidades de estudos, ao mais alto nível, e os olhares interessados de quantos fazem do conhecimento o seu mister, descobrissem o Barreiro como ilha de saberes do passado e do futuro sobre este Tejo de inenarráveis possibilidades e dimensões.

E as questões económicas??!!

Façam-me o favor de perguntar a Madrid, Barcelona, Paris, ou a cidades mais ao nosso nível como Verona ou Bolonha, qual é a rentabilidade das suas instituições científico-culturais.

São capazes de vir a ter uma surpresa!



Publicado in "Rostos on line" - http://rostos.pt

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publicado por Carlos Alberto Correia às 15:28

as rotas

Terça-feira, 03.02.09



I

eis o ano da demora e do encontro
as tardes vegetais
o rigor absoluto
de esperas outonais

de apagadas vozes corre o vento
e o mar nas mãos pequenas
é um barco trabalhando
o tempo

II

nas longas alvoradas das partidas
trama plena de encontros adiados
cantavas a distância

a vaga reduzia oblíquo olhar
teu deserto leito
e recolhias no coração
dos nascimentos os rios
de regressar

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publicado por Carlos Alberto Correia às 13:12








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