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falenas II

Segunda-feira, 19.05.08



naquele tempo

usavas espigas nos cabelos

e nos beijos dois sorrisos

e nos sorrisos anelos

e nos anelos juízos


foi o tempo

de pastorear os sóis

nas tardes das lentidões

nos ocasos dos faróis

nas profundas uniões


nesse tempo tu chegavas e era sempre verão

trazias nos lábios os crepúsculos matutinos

em lembranças florescidos


era certo

que adornavas o caminho com flores

os delicados suspiros

no primeiro fruto maduro

do local onde habitavas


tanto tempo

que o tempo pôs os olhos

no carbono do queixume

no efémero do ciúme

falena que abandonei


tempo outro

quando as árvores num doce suicídio

apodreceram galantes no olvido

da janela onde te expunhas


taparam-te a janela


as quedas testemunhas já sussuram

os silêncios dos amantes

que acabaram

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publicado por Carlos Alberto Correia às 23:25

Porque mentem os Políticos?

Segunda-feira, 12.05.08




Pronto! Já sei que neste momento qualquer político que me leia está a ficar de muito mau humor e a jurar por todos os santinhos que mentiras não é com ele, sempre foi um homem impoluto e um cidadão exemplar e, na sua terra, a palavra dada vale como assinatura reconhecida no notário. Provavelmente, por ofendido, até pensaria levantar-me um processo por difamação, não fora o facto de eu não referenciar ninguém em particular e não ser possível unir toda a classe política numa acção concertada, porquanto todos, considerando-se honestos e acima de qualquer suspeita, aceitam que os adversários, esses sim, mentem e enganam o povinho despudoradamente.


Honra, pois, a uma classe que não sofre de corporativismo militante.


Mas, apesar disso, se perguntarmos a alguém na rua qual a sua opinião sobre os políticos em geral, desencadeamos de certeza um rol de invectivas pouco abonatórias para tais personalidades onde a mentira não é menor pecado nem dos menos citados.


0 senhor político, que acaso me esteja a ler e a discordar de mim, que se arroje a um rápido inquérito de opinião e terá que processar a Vox populis, coisa que, por enquanto, é extraordinariamente difícil de conseguir. Por isso as muitas e ocultas tendências censórias à livre expressão por parte dos corpos políticos democráticos. Que linda seria a democracia sem o direito de opinião do povoléu. Como seria idílico o quadro de uma sociedade em que só os tribunos arregimentados pudessem apresentar as suas opiniões. Não seria um paraíso porque a divergência é natural e desejável, só que seria uma divergência entre pares, com os mesmo grandes interesses em comum e com as situações partidárias e pessoais a permitirem uma discussão motivadora e plural, mas centrada nos objectivos mais nobres que à política competem. Estão a perceber o alcance da coisa, não estão?


Se aceitarmos de bom grado que na política há pessoas de bem porque será que é tão arreigada a opinião de que político é mesmo mentiroso?


Demos então ouvidos à milenária sabedoria do mítico oriente.


Naquilo que definiríamos como um possível céu budista estava Buda, entretido, observando a díspar humanidade nos seus entreténs diários, segurando na mão direita uma lindíssima bola de cristal - era a Verdade - que iluminava, de modo feérico, o céu em referência. Distraído deixou que a bola escapasse para a terra e se desfizesse em mil pedaços. Surpreendidos com tão intensa luz os homens acorreram ao local do impacto e cada um apanhou a parte da esfera que logrou alcançar. No entanto, na sua ignorância e orgulho, convenceram-se de que tinham recolhido a verdade total. Desde esse dia, como todos pensaram de maneira semelhante, instalou-se na terra a discórdia porque, tendo cada um sido contemplado com uma parte da verdade, todos ficaram convencidos de ter alcançado a verdade total. Deste modo, pela verdade, se espalhou a mais acentuada discórdia.


Ora, os nossos políticos são assim a modos como estes ancestrais que viram a luz. Também eles foram contemplados com uma parte da verdade e se comportam como se fossem possuidores da verdade integral. Mas, se há muitas verdades e a Verdade é só uma, algumas terão de ser forçosamente mentiras. É muito confusa esta situação?


Vou tentar esclarecer.


Dizia-me um professor ,de há muito, que a ideologia era os óculos com que se via a vida. Deste modo a realidade - coisa que não será exactamente o mesmo que a verdade - observada por duas pessoas com quadros de referências diferenciados, mereceria, de cada um, interpretações distintas. Assim, não sendo necessariamente mentira, cada um deles, dirá do mesmo objectos coisas opostas e, para nós, dependendo igualmente dos nossos óculos, umas serão verdade e outras mentiras, sendo, no entanto, o mesmo o objecto apresentado.


Lembro-me de uma passagem do Miguel Strogoff de Júlio Verne. Dois jornalistas avançavam, no Transiberiano, através da vasta estepe, la cada um do seu lado do comboio e olhavam, pela janela, para a paisagem, descrevendo-a, em seguida, para
os seus leitores. 0 que ia de um lado via os campos queimados pelo que transmitia a ideia de uma Rússia descampada e desolada. 0 outro, de cujo lado corria um ribeiro que fazia verdejar toda a paisagem, descrevia uma Rússia verdejante e fresca. Como nenhum deles olhou para o lado contrário, ambos ficaram convencidos que tinham sido os fieis relatadores da realidade paisagística e que o outro era um terrível mentiroso, apenas interessado em construir uma realidade fictícia.


Assim são os nossos políticos. Cada um tendo uma parte da verdade arroga-se ao direito de ser testemunha da Verdade total. Cada um, sentado no seu lado do comboio, descreve a paisagem que vê e não admite que, do outro lado, a paisagem possa ser diversa.


Aqui temos uma explicação possível para o facto dos políticos serem considerados mentirosos.


Se, no entanto, fosse só isto poderíamos filosoficamente aceitar a diferença de posições e opiniões. Mas outros factos há "de mor espanto".


Um político é um ser que se arroga o direito de ter opiniões por nós. A partir de um acto fundador, chamado eleições, considera-se mandatado para todos os actos, dessa legislatura, de forma total. Quer-se dizer que não mais precisa de nos consultar e que as suas posições são mais representativas da vontade da população que a própria vontade da população.


Estranho, não é?


Mas é assim que pensam e pouco há a fazer quanto a isto. É como se ao dar-lhe o nosso voto eles recebessem a capacidade de definir, sem erros, a nossa vontade. Usando discricionariamente deste direito afastam-se, cada vez mais, do comum dos mortais. Ascendem a um plano de iluminação superior, ganham um olhar mais penetrante e analítico, recebem uma capacidade acrescida de fabricação do real. Falam-nos de coisas que não vemos, produzem realidades que não sabemos nem conseguimos, por mais que nos obriguem, percepcionar. Para nós, está aí outra mentira e esta nem sequer filosófica. É apenas cenográfica.


Mas há mais. Quando em campanha prometem conseguir tudo quanto os outros disseram que fariam e não fizeram. Assim que eleitos dizem que não podem fazer o que prometeram, e já os outros não fizeram ,porque as circunstância mudaram. Na verdade o que mudou foi o facto de quererem o poder e de, ao tê-lo conseguido, verificarem que as promessas eram apenas isso ou que não seria possível, no mundo real, fazer o que prometeram. Isto para não falar em interesses submersos, cálculos de vida e benesses superiores para a espécie.


Assim se mentem e nos mentem levando ao descrédito das virtualidades da Democracia. Nós percebemos que os políticos são pessoas como as outras, que têm famílias para cuidar, prestações para pagar e carreira a manter. Só que, por estranhas crendices, somos sempre levados a confiar que agora é que sim, com este é que vai ser e a resposta é sempre: - ainda não é desta e com este não vai ser. Por isso se desacreditam e nos vingamos , com ingenuidade, falando das moscas serem outras mas não mudar a substância. Alguns de nós, menos precatados ou mais desesperados, até sonham com regressos salazarentos e coisas semelhantes. 0 melhor nestes casos, é fazer como Fernando Pessoa, que aconselhava a não se comer dobrada fria.


Pensemos entretanto se será possível a quem quer conquistar ou manter o poder evitar a mentira. Por muito que custe, a única resposta que eu tenho é um rotundo Não. A sociedade é o que é e pobre do político que quisesse manter uma relação de verdade com o povo. Não só nunca chegaria ao poder como esse mesmo povo, ao ouvir as duras verdades da existência colectiva, tudo faria para que tal governante, de imediato apodado de mentiroso e incapaz, fosse apeado e cedesse lugar a outro com falas mais convenientes.


Apesar de procurar uma solução eficaz para este dilema, para ser verdadeiro, não a encontro e tenho que terminar, em disforia, pensando que os políticos que mentem não têm outra possibilidade senão continuar a mentir se querem perdurar como políticos. Pelo nosso lado voltaremos a votar em quem, mesmo falando mentira, nos prometer mais cinco alqueires de milho ou um impossível paraíso à mão de semear.


Ai isso é que vamos e esse é que queremos!



Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt/

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publicado por Carlos Alberto Correia às 11:18

Memórias 6 - Noite Menor

Quarta-feira, 07.05.08





- Boa noite Lita, venho dizer-te adeus…

Olhou-me e fechou o livro.

- Estudava a Lógica…não te podes sentar?

Pronto! Lá estava a sua descontracção, a mania irritantemente calma de ver os problemas. Para chegar a este ponto tivera eu de vencer todos os meus românticos e ultrapassados sentimentos. Suponho até que devia ter um ar muito ridículo – ainda hoje me dá raiva pensar nisso – em pé, solene na minha decisão.

- É que vinha dizer-te adeus…
- Sim!? E isso impede que te sentes?
- De maneira nenhuma…somente me parecia… (parecia o quê? Iria dizer-lhe que era solenidade?)
- … te parecia?
-Nada! Nada de importância.
- Afinal porque partes? Tão de repente…

Sempre hão-de existir estas perguntas, estes porquês. Ninguém será capaz de aceitar o movimento dos outros sem perguntar porque se move ele. Que poderia dizer-lhe? Que me ia porque não suportava a luz dos olhos dela, a sua calma doce, a maneira como respirava, o modo como olhava, a sombra que os cabelos lhe faziam na testa? Entenderia ela se lho dissesse? Entenderia eu se me quisesse explicar?

- Porque mais nada é possível entre nós – acabei por dizer.

O coração bum-catrapum a bater, a bater e eu a fixar os olhos dela, aquela luz que abominava e que não queria perder e por isso abandonava.
Nem uma lágrima ou uma crispação. Apenas um borrifo de incredulidade e ela a dizer-me:

- Tão convencional assim?

Como, convencional! Não percebo francamente o valor das palavras. Que queria ela dizer nestas? Pergunto-lhe? Não, isso seria demonstrar-lhe que me interessava.

- Como querias que fosse?
- Não sei, esperava outra coisa de ti.
- Esperavas? Sabias?
- Nós sempre sabemos umas quantas coisas que não queremos saber e as esquecemos voluntariamente.
- Gostaria de dizer-te qualquer coisa de forte, de desolado mas não posso.
- Amanhã tenho ponto de filosofia. Penso tirar uma boa nota.

Uma viravolta brusca na conversa, eu a morder os dedos e ela a morder o lápis.

-É!! (Não sei se disse eu)…

Queria voltar à conversa, mas ela fugia-me. Não podia ser assim tão simples. Como é que acabava tão facilmente algo que não podia acabar? E ela nas banalidades, como se o assunto não merecesse interesse, a falar nas suas dores de dentes.
Pensava que ela iria sofrer, por isso preparei o meu discurso cheio de vantagens no acabar.

- Visto que já não estudo mais queres acompanhar-me um pouco por aí?
- Com certeza Lita.
( Ia acrescentar “dar-me-á muito prazer” e não sei porque não o fiz).

Lá fora, onde eu ia, onde ela ia, onde nós íamos, era Primavera. As minhas mãos iam escrevendo um poema quase solitário, um nocturno sem Chopin, alguma coisa que estava comigo, mas que não era, nem podia ser, porque nunca existiria. Era como se eu pudesse cavalgar estrelas ou oferecer uma rosa ao oceano. A Primavera, ou ela, iam-me dando uma força para criar (alguém diria destruir) o mundo. O meu sorriso era uma negação.

- Tão silencioso vais…
- Não me apetece falar…


De novo não era capaz de sair da mediocridade das palavras. Comunica, gritavam-me as vozes. E eu silencioso…

- Entendi – disse-me ela – E pela primeira vez falou.

Também não encontrei solenidade nas suas palavras .Só vazio.
Deixei de ter para ti o mistério e a novidade. Quando te conheci compreendi-te e sabia o que arriscava. Joguei conscientemente. Nem sei se perdi...
Como retornando de um sonho... Mas tu vais-te mesmo?
Tinha pensado olha-la nos olhos, mas no chão havia uma premência magnética.

- Nós sempre nos vamos...respondi...em algum dia e para alguma parte. Não somos estáticos. A nossa doçura é semeada de lanças e bicos de flechas. Por muito que nos desviemos, algumas nos tocarão.
- Sei que não devo sondar os teus motivos.

Uma pergunta camuflada, a maestria das seduções menores.
Um cheiro mais volátil no ar e a vontade de acariciar-lhe os cabelos. Desejo!

- Que são motivos, Lita? Alguém os sabe? Que me levou a ti, sabes?
- Não. Não sei.
- Foi o mesmo que nos separa.
- Só eu me revelei. Tu és o mesmo enigma. Não, não é uma queixa, é uma verdade.

Tens uma maneira reservada de te dares totalmente. Sei que não me enganarei se disser que foste meu sem reservas. No entanto não te conheço. Será que alguma vez te conheci?

Somente eu não seria capaz de explicar sentimentos com palavras.

- Não será tarde para andarmos na rua?
- Não, não é. É sempre demasiado cedo para deixarmos de resolver os nossos problemas.
- Porque és tu tão friamente analisadora. Às vezes não sei se és uma mulher se um cérebro positivo perscrutando o porque de todos os meus actos.
- Desculpa! Se o fazia, nunca tentei desvendar intencionalmente aquilo que me fechavas.
- Não é isso que me parece...
- Muitas vezes nos enganamos. Pensaste bem na tua decisão?
- Pensei...

Aí estava a tentar dominar novamente. Sentia-me bem a falar com ela, com o meu mundo nos modos dela ser, até que isto sucedia e então...

- Sabes Lita, acontece-nos quando estamos longe, pensarmos muito em tudo o que deixámos. Os dias e as noites sucedem-se e nós não chegamos a acordar. Sempre no sonho mais lindo embarcados.
- ...
- Não, não é poesia o que te digo. A não ser que em mim tudo seja poesia. Isto é a verdade que me habita... quando um dia voltamos, tudo é diferente. Não sei se o tempo fez as coisas mudar, se fomos nós que, sonhando, nos afastamos da realidade. O facto é que, quando voltamos, não encontramos o que esperávamos. Sempre voltamos à procura de algo que não existe.

- Acontece somente que ainda não partiste. Segundo dizes e porque dizes acredito, vais partir. Isso é futuro e falas-me como se já tivesse acontecido. Não entendo a tua segurança.
- Que sabes tu, que sabemos nós, sobre partida? Há muitos dias que parto de ti, que me afasto de uma maneira lenta e segura. Dói-me mas sabe-me bem.

Finalmente falava. As palavras saiam-me saboreadas. Uma sonoridade aberta. Eram livres e cada sílaba vivia. Uma independência que formava um mundo. Vinha de mim esse mundo. Surgia da descoberta de um caminho. Sabia agora que nada era eterno. Todos os amores, todas as lutas eram luzes na demarcação de uma pista.

- Queres então dizer que entre nós não há nada, não houve nada? E o amor, afinal?

Era mais mulher na sua ansiedade descomposta. Não, não chegues a chorar. Serei forte enquanto não souberes isso. Não descubras agora neste momento, não! Por favor! Tenho de chegar ao fim, tenho que me cumprir.

- O amor existe. Vendo bem as coisas eu amo-te…
-…!!
- … mas amar-te não é ficar preso a ti. é viver. Um pássaro numa gaiola, por muito bem que cante, não cumpre as suas asas. Eu sou filho de uma inquietação. Só seguindo o caminho que a cada momento faço e descubro, te poderei amar. Dantes era muito novo para o saber. Tinha os egoísmos duma sociedade implantados no coração. Deixei de ser convencional e abri o espírito. Por isso me vou.
- Não seria mais lógico, se me amas, que ficasses comigo? Repara que não te peço nada. Apresento a defesa da minha causa. Não sou tão segura como pretendo. Por dentro sou toda incerteza e pequenos nadas de complicações. Tu és-me necessário para que também me cumpra. No fim, ambos somos egoístas. Um de nós irá perder.


Quase podia acrescentar que ela pensava não perder. Para não responder, mandei os olhos vaguear na placa iluminada. Um nome de rua, um nome de mulher e uma voz, incorpórea, vinda de todos os sítios, batendo na luz, ficando no escuro, triste canção que me vivia nos versos de uma praia que o Outono tomava nos braços, feitos de marés e brumas.

Lita disse-me:

- Ouves?...

Nada disse, porque dizer seria não sentir. Encostou a cabeça no meu ombro e os cabelos tocaram-me os lábios.

- Para quê?
- Será necessário que todos os actos tenham obrigatoriamente um sentido racional? Não poderemos agir por impulsos? Entende-o assim.
- Desculpa…


e a vontade de dizer-lhe amor, de a estreitar a mim, dizer-lhe que éramos loucos, que só tínhamos uma vida…
… era aí que estava tudo. Só uma vida, uma vida para a qual não tinha uma explicação, uma coerência. Tentara encontrá-la nela, naquele amor que me surgira, julguei-me quase certo e de orgulho cheio. Um dia, igual a tantos outros de ansiedade, quando nos braços de ambos vogávamos, pensei que tudo estava terminado. Ela era aquele corpo que vibrava junto de mim. Nada mais tinha. Sempre, pelos tempos do tempo, seríamos uns desconhecidos na ideia fácil de nos conhecermos. Teríamos filhos, dúvidas, discussões e talvez felicidade. Porém a partir daquele momento sabia que a pergunta andaria de novo dentro de mim – “Foi para isto que vim? É pouco, quero mais”. Deixei cair os braços e quando ela estranhou disse que estava doente. Notei a preocupação nascer-lhe nos olhos e fixar-se-lhe nos rostos. Quando disse:

- Encosta a tua cabeça a mim – senti uma agonia surda e disse-lhe ríspido:
- Preciso de me ir, quero ar. Sinto-me sujo por dentro.

Nesse dia ela sofreu e não sei se compreendeu que me começara a perder, porque, no dia seguinte, mais cedo ainda que o habitual, a fui buscar. Era pouco depois do nascer do Sol. Do arrependimento da brusquidão viera-me uma capacidade de compreensão da felicidade tão grande que não me lembro de outro dia como aquele. Parecia que a manhã fora talhada num canteiro de flores. Nunca mais houve outro dia assim.

Depois dele a noite já não era um tempo físico. Havia-a em mim àquela hora. Uma noite completa, sem tréguas, uma noite que eu reduziria pouco a pouco. A noite de chegar a casa de Lita, vê-la parada no umbral, ainda não acreditando e eu a afastar-me, a afastar-me…

… Carlos…! O grito veio-lhe da alma.

Julgo que deve ter subido as escadas a chorar.






Guiné, Bafatá, Novembro/67

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publicado por Carlos Alberto Correia às 17:08








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