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tema da solidão VII

Quinta-feira, 31.01.08
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invisto as madrugadas
o frio esmorecer do tempo
utilizado
entre o rumo da alva e
o do não ser

em mim me fundo
e só partindo
desvendo o caminho
por onde chego

mal o caminho infinito
se acaba
reencontro a estrada
o esperado sinal
a fonte de água

sou mestre na espera
aguardo até o que acabar não sabe
e dentro deste peito que se abre
fomento inteiro o dia por nascer

quem sabe de mim
quem me constrói
em que rua em que ave
em que rio
encontro a cidade que me aguarda

que lábios de mulher posso esperar
para além da poeira do já visto
a transcendência pouca
que procuro
absorve-me o tempo
e se insisto
é porque sinto vias vejo atalhos
onde podem frutificar os meus trabalhos

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publicado por Carlos Alberto Correia às 16:02

Duas ou três lagartas

Quinta-feira, 24.01.08
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A humilde crónica que Vexas podem neste momento apreciar anunciava-se colérica e apocalíptica. Olhava eu para os acontecimentos que na Pátria se vem a tornar constantes e memoráveis, irritava-me com eles até ao tutano, preparava-me para endireitar o mundo com o poderoso verbo justiceiro, quando, confessando estas intenções ao Belegário, ele sorriu e pacata e sensatamente recomendou-me um pouco de paciência para com as imperfeições dos outros.

Na imensa serenidade do seu estar foi derrubando as ponderosas razões da minha fúria.

Falei-lhe da saúde, do calamitoso estado da mesma, nas diabruras do ministro da dita, na sua falta de jeito para implementar reformas, se calhar necessárias e inadiáveis, mas sempre feitas apressadamente, meio coxas, a descambar para o desastrado. Então cabe lá na cabeça de alguém fechar urgências e SAPes, sem primeiro ter arranjado alternativas e quando porventura as tinha não as sabia explicar?

Pois, dizia-me ele, se calhar isso até é um benefício. Vê o meu caso. Estou na Segurança Social há mais de trinta anos e ainda não tenho médico de família. Houve tempos em que me aborreci e chateei o pessoal do centro, fiz esperas ao Director, mandei cartas, mails e demais formas de pressão para o centro, para os ministérios, para as ordens e népias. Se de início me aborreci, depois até fiquei contente com as vantagens da coisa. Na verdade, não tendo médico nenhum, tinha todos os médicos disponíveis. Bastava apenas que fosse para a fila de espera às quatro horas da manhã e tinha o assunto resolvido. Para além disso fiz conhecimentos e amizades com outros esperantes, os quais, de outra forma, nunca teria tido a oportunidade de conhecer. Foi isso que me valeu quando me divorciei. Nunca tive, por mor destas permanências, um só dia de solidão. Havia sempre um conhecido das filas de espera com que trocar uma palavra, beber um copo, jogar uma bisca lambida. Como vês, tem as suas vantagens. Por outro lado também não percebo a diferença de morrer num hospital sem condições e pessoal, ou numa ambulância, lançada a alta velocidade, na expectativa de chegar a uma urgência, distante mas bem equipada, onde a espera para atendimento, por sobrelotação, te matará na mesma.

Não conseguindo destruir esta barreira de impecável lógica repliquei, com uma nota vitoriosa na voz: -e a Educação, que me dizes da educação?

- Vai de vento em popa! Sorriu.

Lembras-te de quando éramos miúdos o medo que tínhamos dos professores? É pá, a escola era mesmo um regime marcial. Mas saíamos de lá direitinhos, prontos para a vida e para o exército. Vê agora a rebaldaria. Ninguém respeita ninguém, os putos são uns malcriados e é preciso dar-lhes nas orelhas. Os professores são uns baldas que só inventam palermices para atafulhar o cérebro dos ganapos. È preciso que alguém meta ordem nesta confusão. Venham os Directores, venham ministros como esta e ponham no seu sítio estes professores sem nervo que se deixam dominar pelos putos. Cá para mim voltava à lei da régua.

- Eh! Belegário, nunca te vi tão reaça. O que é que andas a comer para ficares tão farpado?

- Nada, se calhar estou um bocadinho azedo.. Tenho andado a meditar no que vai acontecendo mas como a minha ex é professora, votei no Sócrates e tenho um fraquinho pela ministra, sinto-me obrigado a apoiar a sua política…

Aproveitei a brecha e disparei: - E o que me dizes do BCP?

- O que querias tu que eu dissesse. És cliente desse banco? És por acaso accionistas? Então o que te preocupa. O Jardim Gonçalves, o Teixeira Pinto? Ora deixa-te de tretas, tu não queres saber, a sério, de nada disto. Que te importa que o Jardim tenha vindo a demonstrar na prática o síndrome do fundador. Não sabes o que é? Eu digo-te. Quando o fundador de uma determinada empresa excede o seu período de validade e não se retira a tempo, começa a inverter o seu papel na organização levando-a, se não forem tomadas as necessárias precauções, à derrocada. Como viste, apesar do barulho as decisões foram tomadas e o homem acabou por ser afastado. Esta gente do dinheiro não deixa os seus créditos por mãos alheias. O Teixeira Pinto? Estavas com medo que ao perder o emprego não tivesse direito a subsídio de desemprego e arranjasse um problema de subsistência para a família? Como vês, podes estar descansado. Com a indemnização que levou e a “reformita” vitalícia que lhe foi concedida, é capaz de não ter grandes angústias existenciais. Além disso, foi uma lição bem dada as pequenos accionistas que se pensam donos do banco. Não queriam mais nada? Capitalismo popular? Nem na China! Agora já ficaram a perceber que o seu papel é só deixar o dinheirinho nas mãos dos grandões que eles saberão muito bem como aplicá-lo ao serviço dos seus interesses. Sabes que mais, dá tempo ao tempo, que tudo isto não passa das duas ou três lagartas necessárias para conhecermos as borboletas. Dá tempo ao tempo rapaz e descontrai.

Certo, Belegário, vou descontrair acreditando que tens razão e que um destes dias as borboletas aí estarão a dar cor ao depressivo cinzento dominante. Mas também te digo, se as lagartas continuarem a comer as nossas couves e as borboletas não surgirem, forem débeis ou tardias, não deixará, por certo, de haver já, em algum lugar e tempo, uma bota cardada pronta não só a esmagar as lagartas como as couves também.




Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt

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publicado por Carlos Alberto Correia às 23:27

tema da solidão VI

Quarta-feira, 16.01.08


perverso
o recontro das virtudes
a busca do campo
onde a luta longamente sublimada
retorna luminosa
de tempo e de água

no líquido da lira me dissolvo
e abandono
no lento marginar
deste remoto lenho
onde de longe em longe
em armistício breve
me contenho

prolongo o teu olhar

então escrevo
a verdade dos campos
onde me atrevo
além do amarelo que
o verão
irá trazer

é porque sei
que em vão me perco
que não aceito o breve
do prazer
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publicado por Carlos Alberto Correia às 12:17

Um euro por dia

Sexta-feira, 11.01.08
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Depois de uma infância e meia adolescência vividas nos cânones da Santa Madre Igreja apercebi-me de ter o meu zelo arrefecido, não me sendo a ideia de Deus necessária, nem para a vida, nem para a explicação do mundo. Por isso abandonei totalmente a prática religiosa.

Não me interessavam, igualmente, discussões sobre a existência ou não da divindade. Os argumentos, a favor e contra, pareciam todos inteiramente pertinentes e por mais voltas que déssemos, a uma prova outra contrária sucedia, num movimento de empate permanente. Tornei-me agnóstico e pensei, para mim, que se Deus existisse o problema seria dele. Assim passei adiante com toda a leveza de espírito.

Mas se em relação à existência de Deus resolvi, de uma penada e sem azedumes, o diferendo, já o mesmo não se passou em relação à sua Igreja Militante, isto é, aos seus representantes na Terra.

Aí, a coisa piava mais fino. Primeiramente porque a Igreja, desde Constantino, abandonando a mensagem de fé e esperança para os oprimidos, assumiu a quota-parte de religião de estado, comportando-se como um apêndice do mesmo, utilizando a sua influência para gerar o conformismo nas massas despossuídas. Depois, e em Portugal nos anos cinquenta, pelo seu claro enfeudamento ao fascismo nacional, estendendo os seus ouropéis para colorir o cinzentismo institucional, assentando a sua prática na negação da doutrina propalada. Acrescente-se ainda o percurso histórico da Igreja, o qual nada abona a seu favor.

Entre as muitas coisas que me foram arrepiando estava a figura do Papa, a sua omnisciência em questões religiosas, bem como o espectáculo litúrgico de que é causa e efeito. É bem verdade que as igrejas monoteístas são por natureza espectaculares, totalitárias, centralizadoras e monopolistas. O seu deus é único, a sua fé é a verdadeira, todos os que não pensam do mesmo modo deverão ser convertidos ou, no limite, exterminados.

Inquisição dixit!

O pensamento e actuação comuns às religiões monoteístas - o princípio de exclusão das restantes - têm levado, ao longo dos séculos, a cruentas guerras em nome da verdadeira religião e, pasme-se, da manutenção da paz. Também, em nome do Céu, se diferia a felicidade humana para um mundo posterior e perfeito de forma a manter, com esta esperança, miseráveis e dominadas as populações. Sob o jugo de uma classe minoritária e rica, vivendo o paraíso possível na terra, a pregação da igreja era o esteio ideológico que permitia a alienação das populações, trocando o bem possível, por um pretenso lugar na mansão do Senhor. A garantia desse lugar era assegurada pela palavra sacrossanta da Igreja e do maior dos representantes de Deus na Terra.

É claro que a Igreja vendendo, a outros, o paraíso para depois, na realidade comungava integralmente dos bens terrenos sem problemas de consciência. Para ela o Céu podia esperar.

Vêm estas diatribes a propósito do discurso do Papa no início do ano. Com justeza zurziu a organização capitalista da sociedade, apontando o dedo, com certeza cirúrgica, para o capitalismo selvagem, no seu corolário da globalização e na indesmentível ausência de justiça na distribuição dos bens terrenos. Sábias as palavras, certo o objectivo.

Então porque é que eu reagi com tanto desagrado à bondade desta intervenção?

Bem, olhei para o monsenhor Ratzinger e lembrei-me que ele, ainda não há muitos anos, era o responsável pela manutenção da ortodoxia mais restrita no corpo da Igreja. Nesse papel, perseguiu a Teologia da Libertação e o seu apóstolo, Padre Leonardo Boff, tendo-o compelido a abandonar a Igreja para não ter de renunciar ao seu apostolado.

O que pregava a teoria da libertação? Por ironia, tudo aquilo que o Monsenhor Ratzinger perseguiu e que agora, transubstanciado em Bento XVI, no discurso proferido para o mundo, ao raiar de um novo ano, vem defender. É caso para dizer “tarde piaste” e para não se levar a sério estes desígnios, antes os incluindo no estendal de hipocrisias discursivas a que a Cúria Romana nos habituou.

Se o Santo Padre quiser ser levado a sério, peça perdão a Leonardo Boff e a todos quantos perseguiu, ponha de lado o estatuto privilegiado e ostentatório em que vive, encerre de vez esse estado artificial de que é chefe, calce as sandálias do Pescador e retorne à humildade dos fundadores do movimento religioso que diz seguir; faça penitência e viva com os pobres e para os pobres.

Enquanto tal não fizer e não se libertar das riquezas, continuadas a acumular pelo Vaticano através da globalização e do capitalismo selvagem, essa figura que se diz veneranda, mais não será que o protótipo de alguém que, como São Tomás, segue a lei do “faz como ele diz, não como ele faz”.

Para mim, que não sendo já católico, não tenho de esquecer quem fala e de que lugar fala; não temo as penas eternas pela minha heresia e, por viver numa sociedade que a Igreja já não pode dominar inteiramente, não receio igualmente a perseguição nem a fogueira, afirmo que tal discurso é hipócrita, ridículo e até patético.

Falar de pobreza, envolto em púrpuras e arminhos, é gozar com os milhões que, no mundo, sobrevivem em desespero, apenas com um euro por dia.



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publicado por Carlos Alberto Correia às 12:33

tema da solidão V

Sexta-feira, 04.01.08
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em évora meu amor
entre os sonhos das lúcidas
arcadas
persigo o mês dos laranjais
evoluindo lentamente
nas rosas da percepção

em évora a solidão
é percurso onde me encontro
em cada sombra de rua
em cada ponto de luz
nas curtas imensidões
das translúcidas noites
quando

em évora as estrelas
estão mais perto do gesto
e mansas murmuram
a sua inquietação
na permanência luminosa
dos odores

em évora meu amor
e meus amores

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publicado por Carlos Alberto Correia às 11:47








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