Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



A Propósito da Fralda do Pai

Sábado, 25.03.06
Faiza Hayat escreve, na Revista Xis, de 25 de Março de 2006, uma crónica sobre o abandono da velhice. Diz em destaque, certamente da responsabilidade da Redacção “Choca-me o desprezo e o desrespeito e a ignomínia de quem assim trata os seus mais velhos”.

Á primeira vista qualquer ser humano, com um mínimo de sensibilidade, estará inteiramente de acordo com esta indignação. Então, porque é que eu, que me confesso leitor assíduo e concordante da autora, me sinto compelido a vir a pública controvérsia sobre este assunto?

É simples.

Poderemos considerar que a crónica está dividida em três partes. Na primeira versa-se o discurso oficial – e o seu eco nos média – apoiado em dados colhidos nos hospitais e em opiniões de técnicos de saúde; na segunda, em jeito crítico, apontam-se hipotéticas justificações dadas pelos familiares para não suportarem os fardos dos seus velhos e, finalmente, a autora interroga-se sobre o seu previsível comportamento em circunstâncias semelhantes.

Quanto ao discurso oficial e à sua intenção de por em andamento “um plano de assistência a idosos” só não me faz gargalhar porquanto a situação vivida pelos idosos e suas famílias é, em si, excessivamente trágica. Primeiro porque os idosos já foram jovens, já deram o seu contributo para a manutenção e evolução social e o Governo, ao estabelecer protecções para estes, ainda e sempre cidadãos, mais não fará que cumprir as obrigações que lhe cabe. Depois, olhando as variadas demagogias tecidas por outras falecidas governações e vendo a realidade do quotidiano, “entra em mim fica em mim presa” uma imensa revolta por tanta hipocrisia e menosprezo pela inteligência de cada um.

Mas disto não tem Faiza culpa nenhuma!

Onde eu penso que reside a sua culpa, embora minorada pela angustiada dúvida, é na presumível aceitação do discurso médico. Sei que é verdade que muitos idosos são abandonados nos hospitais. Sei também que é parte fácil a culpabilização das famílias e que, tantas e tantas vezes, familiares que vão até à exaustão no apoio aos seus maiores, ao tentarem obter um internamento por mais nada poder ser feito a nível familiar, deparam com o discursos culpabilizador por parte de quem muito bem sabe estar perante a solução óbvia mas que, por motivos institucionais ou económicos, não está ou não pode acolher a legítima pretensão dos familiares do idoso.

É mais fácil negar o auxílio culpabilizando o outro.

Que esta generalização me seja desculpada pelos muitos médicos e enfermeiros que lutam, todos os dias, contra a desumanização do sistema. Mas que a culpa não seja também generalizada sobre as impotentes famílias.

A mudança dos tempos alterou, como toda a gente sabe ou sente, o conceito de família, a sua organização, logo a sua capacidade de auxílio. Hoje os filhos moram, quantas vezes, em locais diferentes dos pais e distanciados por quilómetros; habitam casas reduzidas – sim isto pode ser um verdadeiro obstáculo – e têm empregos exigentes, a horas diárias de viagem da residência, que, sob pena de sérias dificuldades económicas não podem perder. Acresce ainda que na legislação nacional nada há que proteja, ou sequer permita justificar faltas de quem tenha que dar apoio a idosos. Então, porque é que os governos não legislam nesse sentido e protegem eficazmente quem quiser dedicar-se a cuidar dos seus ascendentes? Ou porque é que sendo o problema tão antigo e premente só agora, depois de terem destruído as possibilidades familiares e as instituições que as substituíam vêm, como se coisa nova fosse, falar em apoios de retaguarda a idosos?

Muita água vai correr debaixo das pontes até que tal se venha a verificar.

Entretanto todos nós vamos envelhecendo nesta sociedade de desemprego para os nossos filhos, pensando como será connosco e sabendo que eles, por mais angustiados que possam ficar, não terão qualquer possibilidade de resolver os problemas que a idade, a doença e a invalidez nos vão colocar.

Sendo as nossas famílias, cada vez mais, compostas por dois pais e um filho, que um qualquer deus nos valha já que o filho terá certamente muitas dificuldades para nos mudar as fraldas e as instituições continuarão firmemente a olhar para o lado e a produzir, apenas, abundantes e inúteis prédicas moralizantes.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por Carlos Alberto Correia às 22:45

A sexta-feira do Comando (Conto)

Sexta-feira, 17.03.06
Pousado o copo sobre o rebordo da lareira olhou o seu interlocutor e sorriu.

A terra, disse, cheira a almíscar, a cio de feras. Para quem chega há um odor agoniativo a bicho, estranho, feito de pó e coisas rastejantes. Situe-se lá o meu amigo, no início dos anos cinquenta, numa aldeia plantada como chaga violenta no espesso verde da mata.

Aí, entre o calor húmido e a secura da terra, pouco entrou ainda dos hábitos vindos de longe. Vive-se de harmonia com velhos costumes. Nem sempre os melhores, reconheço, mas com a leveza que advém de cada um saber o que se espera dele e de conhecer de antemão que ninguém lhe pedirá nada que transcenda essas expectativas. A ansiedade é coisa que por lá apenas tem guarida nas emoções pessoais. Nada com o carácter colectivo que torna totalmente insuportável a vida nestas cidades paranóicas.

Vivia-se uma vida de parcas exigências. Cultivava-se o chão na medida das necessidades; possuíam-se algumas vacas, meio selvagens e que pouco medravam, mais para prestígio e troca que para abate sistemático; meia-dúzia de galinhas entremeadas com um par de cabritos e eis todo o horizonte de ambição material.

Ao contrário do que possa imaginar a vida comunitária era de enorme diversidade. As colheitas, os choros pelos funerais, as festas da puberdade... um sem número de rituais marcava a passagem dos tempos e incutia nas pessoas o compromisso entre o datado e o imprevisto que erradicava a neurastenia e permitia a cada qual ser o animal saudável capaz de, mesmo em terrenos adversos, levar a palma a todos os mamíferos produzidos por esta inventiva natureza.

Pois, por essa época, na aldeia que tão parcamente retratei, nasceu um garoto a quem foi posto o nome de Samba Badji e que virá a ser não sei se o herói, se o malandro desta história.

Espero que as minhas palavras não lhe tenham deixado ficar a impressão de que naquela aldeia se vivia em perfeito ambiente de felicidade e igualdade. Longe disso, que o homem é ser de pôr diferenças e hierarquias por tudo quanto é sítio. Da bondade desta condição falaremos noutra ocasião. Para o momento, o importante é saber que ao nascer já Samba Badji tinha endereço. Quero eu dizer, trazia um destino senão infalível, pelo menos portador de um elevado grau de probabilidades.

Da sua linhagem provinham todos quantos por função possuíam o estatuto de receber, guardar e retransmitir as memórias daquele povo. A ignorância da escrita e o desejo de preservar hábitos e tradições obrigavam, neste caso, a que Samba Badji viesse para ser a memória viva das suas gentes.

Como o meu amigo bem sabe é questão assente, quer nos homens enquanto indivíduos, quer nos povos, deixarem de si recados aos que virão. A espécie tem um vigor de que por vezes mal se suspeita. Apesar de todas as vicissitudes por que passa, sempre lhe sobra tempo e força para deixar testemunho das suas obras. Embora ingénuo, este esforço contra o apagar do tempo, não deixa de comover pelo empenho num futuro sempre incognoscível e numa transmissão que ninguém sabe como virá a ser aceite.

Pois, como já lhe disse, por uma questão de linhagem estava Samba Badji destinado a estas funções entre o seu povo. No entanto esta não era uma batalha ganha de antemão. Repare! Dada a importância de que esta condição se revestia, eram bastantes os candidatos possíveis. Ao escolhido, depois de longos anos de treino, seriam confiadas todas as narrativas profanas e sagradas da tribo. Todas as linhagens lhe seriam transmitidas; igualmente lhe pertenceriam os feitos e os feitiços. Com tudo isso seria alto o seu estatuto e grande a possibilidade de imprimir às coisas a sua marca pessoal. Poderia inclusive enriquecer narrativas e mesmo recriar factos passados.

Uma função desta importância exigia do seu detentor, além de uma memória privilegiada e bem treinada, um porte físico digno e a inexistência de qualquer aleijão. Por isso, quando na casa de brinca Samba Badji e outros designados se absorviam nas aventuras dos seus imaginários, alguém os observava com atenção, na perspectiva de descobrir os mais aptos para o exercício de tão alto ministério social.


Assim foi crescendo Samba Badji no seu mundo, no seu destino, do qual mansamente se ia apercebendo, aprendendo histórias, contando feitos, enfeitando casos, digerindo feitiços. O mundo que habitava era, na maior parte, o mundo dos avós, feito e refeito por inúmeros outros contadores de histórias.

Um dia teve, subitamente, conhecimento do branco. Já ouvira falar. Vinha de vez em quando. Aparecia vindo do interior do mato trazendo estranhos artefactos. Coisas que no seu povo não havia e de tão estranhas associava à magia. Raiava então pelo seu décimo ano de vida. Num crepúsculo, quando o povo descansava do trabalho do dia debaixo do grande mangueiro plantado no centro da
aldeia, um ruído contínuo de trovão perturbou a paz do entardecer espantando as galinhas que depenicavam entre as casas. Assustou-se de verdade quando atrás do ruído viu entrar na povoação, deitando fumo e numa tremenda barulheira, uma coisa grande, verde, só aberta à frente e com um homem, branco, dentro. Essa aparição estacou junto ao mangueiro numa loucura de pó e Samba só não fugiu por ver como os adultos sorriam e por pensar que aquela era uma das máquinas de levar gente de que o mestre lhe falara.

Da furgoneta saiu o homem. Era muito velho e pequenino. Cumprimentou à volta. O régulo saiu-lhe ao caminho e depois de se abraçarem levou-o para a grande construção de barro e colmo onde habitava.

Mais tarde, quando já a noite era completa, começou uma magia que projectava, num pano estendido entre árvores, brancos grandes que falavam, batiam e se matavam de muito longe com coisas pequeninas e de voz grossa que nem sequer pareciam armas.

Desta forma tomou Samba Badji conhecimento, de uma só vez, com o branco, o automóvel, o cinema e o western.

Ia já nas suas quinze ou dezasseis chuvas quando o seu destino foi cortado cerce pelo infortúnio. Aconteceu apenas que na virilha direita de Samba Badji se começou a formar um edema e a enrugar a pele. Para os mais velhos estes sintomas foram, desde início, esclarecedores. Para ele estiveram muito tempo no reino do inacreditável, do não possível em mim. Tão impossível de acreditar que, se não fosse o respeito devido ao homem grande que o ensinava, ousaria contestar com um sorriso de incredulidade.

O aleijão que se iniciava no corpo de Samba era porém definitivo e irreversível quer para ele, quer para o seu estatuto. O meu caro amigo já ouviu falar em elefantíase? É uma doença provocada por uma filária e infelizmente muito comum. Se bem que de fácil tratamento em qualquer país ocidental, era sem esperança para o pobre africano. Essa imparável doença iria fazer inchar-lhe enormemente o membro afectado e enrugar-lhe-ia a pele de tal forma que a sua perna pareceria a de um elefante. Assim, por defeito físico e previsão de vida curta deixou de ser confiada a Samba Badji a missão que lhe coubera e aceitara de ser a memória viva sua tribo.

No dia em que, já com a perna num trambolho, foi decidida e claramente afastado desse afazer, pela nomeação de um substituto, Samba Badji abandonou a aldeia.

Sem dizer nada a ninguém, aproveitando boleia num carro da tropa, que em trabalho de "psico" passara perto do lugarejo, partiu para Bissau, onde, ouvira dizer, os brancos podiam curar a sua doença.

Em duas ou três estiradas chegou a Bissau. Difícil seria fazer sentir-lhe a angústia desse pequeno ser desventurado, habituado à placidez da tabanca, mergulhado entre tantos rostos tão diferentes como indiferentes. Nos primeiros dias ainda tentava, numa sensação mista de espanto e absurdo, encontrar uma cara conhecida por aquelas ruas. Mas qual! Tudo quanto lhe parecia conhecimento era apenas mais um engano. Mais um desejo de não se sentir sozinho.

Bissau regorgitava de movimento e fardas. Nunca pensara que pudessem existir tantos carros e tantos soldados. Na sua aldeia, por vezes, falava-se, com voz dissimulada, de uma guerra que estava a acontecer. Por vezes mesmo, os soldados passavam pela sua aldeia e distribuíam comprimidos como se fossem guloseimas e aplicavam, nos rígidos peitos das "bajudas", fricções "Vic". Mas eram sempre grupos pequenos e divertidos que davam boleias e falavam, por meio de intérpretes de coisas engraçadas como colaboração, camaradagem e a necessidade de denunciar à tropa amiga as actividades dos bandidos armados que vinham do exterior para perturbar a paz de toda a gente.

Conseguiu uma consulta no Hospital Civil. Indicaram-lhe que o melhor era o Militar e ele tentara a sua sorte. Foi corrido com rapidez. O Hospital era mesmo só para militares e estava a abarrotar. A todo o momento chegavam helicópteros com feridos para tratamento urgente. As camas escasseavam e os médicos eram poucos para acorrer às desgraças que lamentosas ou gritantes, do céu, desabavam em contínuo sobre o Hospital.

O tratamento a que foi submetido revelou-se inconsequente. A tristeza ia aumentando ao ritmo de progresso da disformidade na perna. Acrescia a isto um outro problema. Como poderia sobreviver naquela cidade enorme e sem abrigo?

Talvez o amigo se sorria ao ouvir classificar como grande uma cidade como Bissau. Na verdade todas as coisas são aferidas através das nossas dimensões e referências. Ponha-se no lugar do Samba. Com esse novo olhar descobrirá realidades insuspeitadas nessa terra que o senhor tão bem pensa conhecer. Tente e verá. Conseguirá a visão de um outro local e de um outro modo de ser tempo e presença. Descobrirá também um outro lugar de coragem que é o ser a quem chamamos Samba. Repare... aos quinze anos, subitamente roubado de futuro, sozinho numa terra desconhecida procurando uma manhã diferente em que lhe devolvam o que lhes estão a roubar de vida. É grande carga para ainda tão frágeis ombros.


Mas o que agora interessa é saber como conseguiu sobreviver nessa terra de brancos, onde aos naturais, apenas se reserva um lugar na soleira da porta. Pois foi aí que ele fez a sua grande tentativa de sobrevivência. Recorda-se, por certo, que nas casas comerciais era costume, quando ao crepúsculo encerravam, uns nativos estenderem, na platibanda das casas, as esteiras e o cobertor. Depois, instalados, fumavam um cigarro e, passando pelas brasas, faziam desse dormir sobressaltado uma função. Pois sim senhor, eram mesmo eles, os guardas. Uma espécie de superstição do comerciante. Com essa presença sonolenta e alheada pensavam poder exorcizar o roubo e informar, ao mesmo tempo a quem estivesse interessado, que eram seres bondosos e compassivos para com os pobres nativos. Comerciante é mesmo assim. Procura, de formas várias e sobretudo, acautelar os seus haveres. Além do mais, era trabalho barato. Uns cigarros e uma refeição ficavam o trabalho pago e a fazenda assegurada.

Este foi o labor a que se propôs Samba Badji. Mas a sua pouca idade e a por demais visível deformidade afastavam o mínimo de seriedade que, de qualquer modo, convinha atribuir à função. Repare que quanto menos se acredita numa coisa, tanto mais se torna conveniente a preservação dos rituais externos. Por tal conveniência ficou, Samba Badji, impossibilitado de conseguir a sua manutenção.

A segunda tentativa não teve também maior êxito. Foi pedir para as portas dos cafés, dos restaurantes e junto do mercado. Aí a concorrência era enorme. Tinha que competir com outros mais preparados. Qualquer puto com oito anos de idade, além de mendigar, oferecia-se, para a prática de actos sexuais diversos, aos senhores da guerra. Não faça esse ar de espanto. É o mesmo que
faziam as autoridades quando alguém, por moral ou vergonha, apresentava queixa. De facto nem valia a pena. Muitas vezes eram essas mesmas autoridades que beneficiavam de tais práticas. Assim, Samba roçou a indignidade. Descobriu que as meninas eram prostituídas ao preço da chuva e que vinte e cinco tostões chegavam para uma relação com um garoto. Cinco tostões menos que o preço da bica.

Não conseguindo por essa via a sobrevivência, passou alguns dias a vasculhar caixotes de lixo. Não iria muito longe se um dia não fosse visto por uma mulher que todos conheciam por Maria e a quem acrescentavam, por causa do tom da pele, de Cabo Verde. Embora nascida e criada em Bissau, fruto do um encontro de um branco com a sua lavadeira, deixava que pensassem que era caboverdeana. Era bom para o negócio. De prostituição, como não podia deixar de ser. Filha de lavadeira, lavadeira será. No entanto, alguma coisa aprendera e nunca engravidara... Não queria filha sua nesta vida. Talvez, por isso, ao avistar Samba Badji a vasculhar no lixo se apiedou e o levou a sua casa. Matou-lhe a fome e ouviu-lhe a história.

A profissão foi também ela que nesse dia lha definiu. Um antigo cliente, morto numa rixa de vinho, deixara em sua casa uma caixa de engraxar. Tudo completo e em bom estado. Maria ofereceu-a a Samba.

- Pode vocês ficarre com ela. A mim não serve.

Por isso, agarrando a caixa que lhe assegurava o dia seguinte, todas as noites, por gratidão, Samba pegava na sua esteira e manta e, por baixo da alpendurada da casa de Maria velava as horas em que os outros dormiam e ela recebia os homens, cumprindo o seu ofício.

Naquele lugar, por entre gemidos e arfares, no decorrer das conversas que lhe chegavam através das tábuas do chão, Samba fez a sua aprendizagem e começou a amar Maria que, dizia-se, era de Cabo Verde e nunca saíra de Bissau.

Tornado habitual em seu poiso pouco demorou a arranjar amigos. Foi primeiro, entre os chegados e nos afectos António. Negro retinto, baixo e sempre descalço, ostentava com orgulho um rádio de pilhas onde, indistintamente, ouvia todos os programas em crioulo, fossem eles transmitido pela rádio oficial de Bissau ou pelas emissoras afectas ao PAIGC.

Por vezes, quando no cerrado da noite ouviam as vozes das notícias, que vinham instalar na realidade uma estranheza que não se percebia bem como chegava e criava um agradável desconforto no coração, sussurrava a voz de Gazela recomendando maior discrição:

- Vê lá minino, se o tropa ouve tu está mal.

- Está mal porquê ? - Perguntava, ainda ingénuo, Samba.

- Pois tu não vê que o tropa está em guerra com a gente.

- Com a gente não. Eu não estou em guerra com ninguém, Gazela.

- Pois é minimo, a gente não escolhe a guerra. Ela é que escolhe a gente e vem buscar a casa. Tu não ouviu falar de rusga, de operação?

- Já ouviu, sim. Todo dia quando limpa bota de militar ele fala isso. Fala de ronco e de combate. Mas isso é só com bandido da mata.

- Beh!! E gente da mata quem é? É gente com pele suma nossa.

- E tropa? Não tem gente, também, suma nós?

- Tem, sim, tem. Tem gente que ajuda o tuga a matar nossa gente. Isso que tem. E que é criado de branco mais ainda que nós.

- Mas Gazela, militar, mesmo preto, tem comida todos dias...

Então, muito em surdina, sintonizando o rádio para a emissora de Bissau, Gazela contava a Samba e António como era aquela guerra. Contava-lhe como os guerrilheiros capturados eram torturados até à morte para revelarem os locais dos acampamentos, os nomes dos chefes ou dos correios. Como, na lonjura das noites, mata fora, cosidos no negrume e ansiedade, os guerrilheiros esperavam o momento de lançarem a emboscada ou o assalto. Dizia-lhe da confusão e dos riscos dos fogos que traçavam a noite. Dos gritos dos que morriam ou eram feridos, das levas de prisioneiros que desapareciam nas matas ou na Ilha das Galinhas. Sonhava com o dia em que Bissau fosse toda ela do povo que lhe vivia a periferia e só no trabalho e na humilhação lhe franqueava o centro.

Objectava Samba que não era assim. Ele, todos os dias andava por Bissau e por todos os lados. Quando o dia lhe corria melhor e sobrava dinheiro podia passar a noite a ver cinema, no Cine Udib, a recordar não sabia se o milagre que um dia, parecido agora tão distante, vira na sua tabanca, se a sua tabanca mesmo, pensamento que lhe doía e nunca o deixava por completo.

- Pois vai no Cine Udib e fica cá em baixo na plateia, não é? Vai na cidade e no café e engraxa sapato. Vai no restaurante e faz recado...

- Pois é assim, é. Mas se tivesse manga de patacon podia fazer esses coisa todos...

- Podia se tivesse dinheiro. Mas não tem. Nem tu, nem eu, nem António. O que a gente tem é fome e trapos.

E era assim mesmo. Gazela era alto e seco, de braços encordoados. Morava no Cupelon - Pilão, no dizer dos soldados - o maior bairro nativo onde, pela noite, só os mais afoitos se aventuravam. Não tanto pelo que lá tivesse alguma vez acontecido, mas pelo receio do que supunham poder acontecer. A lógica deste posicionamento era simples. Se durante o dia e na nossa zona dominamos impiedosamente, que farão eles na noite e na sua zona se lá nos apanharem. Lógica de dominadores inseguros...

Gazela era estivador. Quando havia barco a descarregar era levado, logo pela manhã, do cais, num rebocador a transbordar de uma horda descalça e rota. Chegados ao navio despejavam-se pelos conveses e demandavam os porões. Cerca do meio-dia vinha da cozinha o bidão dos restos da comida, tudo amalgamado como lavadura para porcos, que deixavam na coberta. Quando passavam, os descarregadores, metiam a mão no recipiente e, de corrida, abocavam o que podiam entre mais uma braçada de corda e o acertar da carga nas barcaças.


Por isso Gazela trespassava com os olhos os soldados recém-chegados que assim o viam comer e que bem fundo guardavam essas imagens de sub-humanidade. Tornavam mais fácil pensar que matar um terrorista é matar apenas um inimigo e um inimigo assim será sempre menos que um homem. Era a sub-gente que vira a devorar os restos misturados da sua comida.

- O que a gente tem é medo da porrada - dizia Gazela. Samba e António ficavam calados ao pressentirem uma verdade que ainda não lhes era acessível.



Foi-se, deste modo, apercebendo Samba do mundo à sua volta. Ao chegar a Bissau apenas a sua angústia existia. Ao seu redor só havia um muro baço onde as pessoas e as coisas se confundiam. Pouco a pouco, as conversas, a experiência e a reflexão foram dando relevo às coisas, tornando mais claras as pessoas, mais próximas umas, mais distanciadas outras.


Descobriu o ódio quando, num café, engraxando os sapatos de um militar, viu passar num carro da tropa, fortemente escoltado, um grupo de homens. No meio deles, com a cara desfigurada e numa pasta de sangue, estava o seu amigo Gazela. Quis correr e gritar por ele mas, do cimo do carro, Gazela lançou-lhe um olhar que ele percebeu. Dizia-lhe que ficasse quieto e que o recordasse. Foi um aviso e um adeus.


Só pela noite conseguiu encontrar António. Na escuridão calada ele chegou-se aos baixos da platibanda e muito devagar, com uma centelha de receio a bulir-lhe nas falas, perguntou-lhe se já sabia da prisão de Gazela.

- Vi-o no carro da tropa...

E a cara ensanguentada e o olhar de Gazela faziam-no sentir, nem sabia porquê, mais pobre e mais doente. Nunca, como nessa noite o incomodaram os mosquitos e o calor, o inchaço da perna e o chão húmido onde se deitava. Pela primeira vez pensou que os brancos da sua idade não dormiam, envoltos numa manta mal-cheirosa, nos desvãos de uma casa. Nem sequer tinham de se preocupar com o que
iriam comer no dia seguinte. Nem que se encerrar, na solidão da noite, na angústia de se saber a enfraquecer cada vez mais depressa, no caminho certo da morte não muito distante. Tudo à sua volta lhe cheirou a podre. Tudo lhe pareceu nitidamente descolorido. Com cor, só mesmo o vermelho vivo na cara de Gazela.


Durante algumas noites calaram o rádio. António tinha medo.

- Podem saber que era amigo. Se vem a tropa prender...

Via-se já ele também preso, sem o rádio, despojado de si, humilhado por maus-tratos a desaparecer no verde de uma mata, no decorrer de qualquer operação fantasma, feita a propósito para abater o prisioneiro que tentara fugir. Por isso, não ouviam rádio.


Mas ouviam, através do sobrado da casa, as vozes dos soldados que esturdiavam em casa de Maria. Eles riam e bebiam. De vez em quando chegavam-se à balaustrada e escarravam para a noite. Para Samba era como se escarrassem sobre ele, como se escarrassem sobre a face de Gazela e a partir deste, como se escarrassem sobre um corpo difuso que ele ainda não percebia bem, mas que no fundo começava a entender como uma entidade vagamente afectiva, com um nome que se começava a perceber.


Por vezes António sublinhava os ditos dos soldados com remoques ácidos. Chegou mesmo a prometer que um desses dias passava para a mata. Teria uma arma e lutaria contra os cabrões dos tugas. Eles que fossem embora e deixassem cada um viver na sua terra à sua maneira.


Samba ouvia. Lamentava não lhe ser possível tal atitude. A doença impedia-lhe ter veleidades. De novo, perante uma possibilidade de dar um sentido à vida sentia-se a falhar e via a impotência insuperável trazida pela sua disformidade limitar-lhe todas as possibilidades de escolha. Teria de ser nada e apagar-se lentamente. Só isto lhe era permitido.


Uma noite António trouxe de novo o rádio. Fez ouvir a Samba a notícia, repetida amiúde pela rádio Bissau, de uma grande vitória das nossas forças. O locutor descrevia com minúcia as circunstâncias e os resultados de um golpe de mão que tinha surpreendido, em pleno abastecimento, uma coluna de terroristas na tabanca de Autacunda. Falava das baixas irrisórias sofridas pelas nossas tropas e contrapunha o elevado número de mortes havidas na guerrilha e entre os habitantes dessa aldeia de traidores. Deus estava, como se via, connosco..


Ao ouvir a notícia Samba Badji sentia uma irreprimível angústia assaltar-lhe a garganta. Era da sua aldeia que falavam.


Outras coisas havia que turbavam o seu coração. Maria era uma delas. Talvez mesmo a maior. Aos seus verdes anos aparecia-lhe como a imagem da perfeição. Inicialmente pensou ser o seu bem-querer consequência da gratidão. Mas o sofrimento que lhe trazia a voz dela na mistura com o gargalhar dos soldados e os desejos, quase sonhos, que acalentava, fizeram-lhe perceber a natureza do sentimento nutrido pela mulher. A sua proximidade perturbava-o demais. Já por algumas vezes, quando os dias lhe corriam de feição, pegara em cinquenta pesos para, como qualquer outro, no mal anoitecer que surpreende, entrar casa dentro e comprar o seu tempo de amor. Nunca ousara chegar mais que à porta. Mesmo uma vez em que avançando mais, sentindo passos ela veio abrir, ele respondeu apenas que lhe apetecera, nesse dia, ficar ali pelo lado de cima. Estava cansado de se enrolar no escuro.


Foi com voz cariciosa que ela lhe perguntou porque não ia viver com o António. Podiam dividir o aluguer do barraco. Era melhor para os dois. Samba não soube dizer mais que qualquer dia sim. Por dentro sentiu um frio muito grande ao pensar-se fora daquela comunhão precária, mas que o prendia à vida. Com a chegada de um soldado que se agarrou a Maria a porta fechou-se e ele voltou a instalar-se na sombra.


Dias depois António trouxe com ele um velho da aldeia de Samba. Chamava-se Sanca João e em melhor oportunidade contar-lhe-ei a sua história. Desta vez apenas lhe digo que vinha como emissário. Trazia a Samba a notícia da morte do pai no assalto que os comandos tinham feito à sua aldeia.


Samba ouviu tudo sem falar. Nada perguntou. Soube apenas que ao amanhecer a aldeia fora cercada. Procuravam um emissor de rádio que um informador dissera estar escondido na aldeia.

- Entraram os militares pelas casas destruindo e roubando. Algumas mulheres assustadas tentaram fugir. Foram fuziladas pelos que de fora, fechavam o cerco. Depois juntaram toda a gente na coberta dos ferreiros. Levaram os mais velhos para interrogar. Não havia rádio nenhum e ninguém poderia dizer, assim, onde ele estava. Então foram buscar as mulheres e os filhos dos homens grandes e em pequenos grupos foram-nos levando para o outro lado da aldeia. Passado tempo ouviram-se tiros e vieram buscar mais. Antes de cada leva perguntavam aos velhos onde estava o rádio e os bandidos. Ninguém sabia. Ninguém respondia. Ouviam-se a seguir mais tiros. As mulheres choravam agarradas aos filhos. Foi quando o teu pai disse à tropa que ali não havia mais nada que trabalho e que se quisessem que os matassem a eles e deixassem as mulheres e as crianças.


- Bem lembrado, - disse o capitão.


- Agarraram no teu pai e mandaram-no, em frente de toda a aldeia, cavar a sua cova. Quando o trabalho terminou o capitão perguntou-lhe:

- Pela última vez, onde está a porra do rádio, onde é a base e quem estabelece os contactos?


- O teu pai continuava calado...

- Tratem do gajo - .


- Primeiro espetaram-lhe lascas de madeira sob as unhas. A seguir, sobre o peito, despejaram pólvora dos cartuchos das balas e puxaram-lhe fogo. Como ele nada dissesse encharcaram um pedaço de desperdício em gasolina e queimaram-lhe todo o corpo. Quando lhe deram o tiro final já não o deve ter sentido. Finalmente puxaram fogo à mata e à tabanca e lançaram granadas sobre todos nós. Nem sei quantos morreram.



Samba continuava a ouvir as palavras sem nada perguntar. Dentro um vulcão acumulava forças. Cresce-se sempre dolorosamente. Dos seus olhos vermelhos e secos nada parecido com lágrimas se soltou. Só o continuado frio de não perceber qual o sentido das coisas lhe veio habitar a noite que o envolvia. Maria, por entre o tabuado tinha ouvido o recado que Sanca trouxera, saiu às escadas e sentada junto a Samba chorou por ele as lágrimas das suas condições. Muito lentamente foi-lhe acariciando a cabeça e diminuindo, entre eles, a distância inexistente. Foi, com esses gestos, traçando um risco luminoso no grande escuro onde Samba estava envolvido. Nessa noite, pela primeira vez, dormiu dentro de casa e na cama de Maria.


Noites passadas chegou um dos clientes certos. Era o Cabo Xico. Talvez este fosse o seu nome verdadeiro, ou talvez não fosse. Na realidade isso não tinha qualquer importância. Todos se chamavam como queriam ou podiam. De qualquer modo ele chegou mais ruidoso e bebido que o costume. À entrada da rua, para se anunciar berrou:

- Maria abre-te toda e prepara a vaselina que o teu cobridor chegou.


Samba tremeu. De todos os homens que frequentavam aquela casa este era o que mais profundamente detestava. Se pudesse levaria Maria para um lugar onde vivessem sem a afronta diária de ganhar a vida a troco de cinquenta pesos, mais o custo das bebidas. Se a intrusão de qualquer homem lhe era penosa a presença do Cabo Xico era o seu maior tormento. Militar dos Comandos comportava-se sempre de modo insolente e tratava os negros como merda. Para ele todos eram turras e não tinham direito a nada além de uma bala bem metida nos cornos. Se havia guerra era porque os pretos queriam. Andavam a matar brancos e esperavam que ficássemos quietos. Ora não. O que era preciso era dar-lhe forte no focinho. Muito se admirava que alguns maricas quisessem que os tratassem como gente. Mandasse ele e resolvia o problema em duas penadas. Só não percebia como era que o Spínola, que era macho a valer, embarcava na cantiga da "psico". Boa "psico" lhes daria ele. Bala para cima até fazer faísca. Só de pensar que por essa merda o proibiram de usar o colar de orelhas dos turras abatidos dava para ficar verde.


Dizia abatidos e sentia-se impante. Primeiro porque abatidos era palavra fina que até ia nos relatórios e era assim que diziam o alferes e o capitão. Depois porque abatidos estava muito correcto. Morrer morrem os homens. Os pretos e os cães, quando muito, são é abatidos.



Samba, ao ouvi-lo, tremeu de raiva. Encolheu-se mais na manta e quando a porta bateu chorou baixinho a sua incapacidade e mais uma vez desejou a mata e invejou o destino de Gazela.


Na casa o Cabo Xico cantava. No seu tom rude ordenou que Maria lhe pusesse um uísque no copo.


- Do melhor ouviste? Hoje é um dia especial. Tira-me da frente essa morraça. Disse-te que era do melhor. Puta de merda! Quero desse que guardas para os oficiaiszecos e furriéis que te vêm lamber a cona... Hoje é dia grande. Porra! Já disse... deita desse...mas que grande traço que tu és! Vê-se mesmo que tens sangue branco. Vá senta-te aqui no meu colo. Vou contar-te um segredo. Vou ser condecorado! Ouviste? CONDECORADO.



- Porra! Vou repetir. Vê lá se percebes. VOU SER CONDECORADO. Ganhei a Cruz de Guerra. E esta, hem??!! Não esperavas por isto, pois não? Mas é verdade. Vou gramar à brava. Ver a cara dos mandões lá da terra quando aparecer com a condecoração. Sempre quero ver como passarão a tratar-me. Mas olha que não fazem favor nenhum ao darem-ma. Se tu me tivesses visto esta tarde. A malta, na parada, toda formada. Apareceu um granjolas e toca de fazer um grande elogio. Porque somos os melhores, porque a Pátria para aqui e a Nação para ali tinham os olhos postos na gente e porque confiavam em nós e mais tretas e tretas. Até que agarrou numa Ordem de Serviço e, para nós vermos como a Pátria sabia reconhecer os seus melhores filhos, iam agraciar o melhor dos melhores.


Bumba, lá veio o meu nome. Ia caindo de cu. Começou a ler um louvor que vinha do Spínola. Tudo a tratar bem o mangas. Ainda por cima vão pagar-me uma viagem de férias à terra. Nada como a guerra para apreciarem um homem com eles no sítio. Também não fazem nada de mais. Ainda não há muito tempo em Antauda...


Samba Badji ficou de pé num instante. Ele era um deles...

...se tu visses o que foi ceifar neles. Pareciam tordos. Eu sempre disse que o que eles querem é porrada...

Maria estremeceu e uma agonia muito antiga subiu-lhe à boca...

...provavelmente até matara o seu pai...

...se procedêssemos todos assim esta guerra de merda acabava que era uma lindeza...,

...e gritou-lhe bem alto a palavra que sempre temera ouvir na sua boca:-

- Assassino, sai já desta casa!

O Xico parou de surpresa. Na rua?! Ele!! Hoje! Condecorado!!

- Puta dum cabrão que te fôdo. Estás feita com eles.


Avançou para Maria agredindo-a com a selvajaria que a incompreensão manifestada pela sua grandeza justificava. Anos de luta, miséria, submissão recompensados pela medalha... e aquela puta de bairro...preta dum caralho...


Enquanto ele lhe batia e gritava, atirando-a para o escuro da rua, Samba tremia de medo e fúria.


...Vais pagá-las todas. Puxou da faca de mato e por três vezes esfaqueou Maria. O seu último som foi um estertor de sangue na garganta cortada.. A luta entre o medo e a fúria que paralisava Samba terminou nesse momento. Enraivecido correu para o local onde o Xico, estupefacto, olhava a mulher morta. Deitou-lhe as mãos à garganta e apertou com todas as suas forças. Tirado da apatia o Xico sacudiu Samba Badji e pontapeou-lhe a perna doente. Olhou em redor para ver se alguém observava e gritou:

- Seus cabrões, a quererem-me lixar a vida!


Ainda se revolvia com dores no chão quando Xico lhe mandou um pontapé na cabeça. Conseguiu, num rápido reflexo, evitar o impacto directo mas ficou completamente atordoado. Rodou o corpo para fugir a nova agressão e sentiu, por baixo de si, a faca que Xico tinha deixado cair. Agarrou-a firme e esperou novo ataque do comando. Como lhe foi possível enlaçou-se ao corpo do militar. Quando este começava a estrangulá-lo, as suas mãos conseguiram unir-se sobre as costas do adversário e com um penetrar horrivelmente fácil enterrou a faca nas costas do comando.


Todo o bairro estava silencioso e de janelas fechadas quando Samba, com a lentidão dos sonhos, se afastou do corpo que agonizava na valeta, arrastando atrás de si a perna doente e o negrume da noite.



O homem que se encontrava sentado levantou-se. Do cimo da lareira retirou um copo meio de bebida, olhou para o seu interlocutor que acabara de falar, pigarreou e disse:

- Pois doutor, como é habitual em si expôs-me esta história com brilhantismo. Tudo isso é muito bonito. Romanesco, mesmo. Não acha, porém, que cheira a lugar comum e a inverosímil? Repare, por um lado temos um comando, jovem e possante, treinado para a luta e a sobrevivência em qualquer situação; por outro, temos uma caboverdeana, que afinal nem o era, sexualmente explorada pelo branco mau e o jovem doente que miraculosamente mata um homem muito mais forte e preparado e se perde, romanticamente na noite. Desculpe-me se insisto, mas tudo isto me faz pensar na imagem gasta do ocidente forte e pujante, mas ética e historicamente condenado a ser vencido por uma África desgastada e aparentemente sem hipóteses, levantada, apesar de tudo, do chão da sua impotência em busca de uma distante alvorada.

O narrador fez uma pausa. Afastou-se um pouco da lareira onde o fogo devorava com avidez as achas de madeira, respondendo com um breve sorriso a marcar a tepidez do ambiente:

- A história que lhe contei parece, sem dúvida, pura ficção e o meu amigo fez, indubitavelmente, jus ao seu espírito cartesiano. Mas como reagiria se eu acrescentasse que, nesse tempo, me chamavam Samba Badji?

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por Carlos Alberto Correia às 19:08








comentários recentes




subscrever feeds