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luís volta a casa com ar meditabundo

Quarta-feira, 28.12.05
Não sei se alguém consegue voltar de um longo exílio. Não sei se alguma vez se volta verdadeiramente a casa.

Alma, Arte de Marear, Manuel Alegre





I

longos tédios de gelo sobre os campos
cristais inelutáveis de fontes
por pensar

a cinza
interior de águas entre ruas
disfarces de boas intenções

já não são eternos
os deuses
sobrevivem empregados
a baixas cotações

II

trazes a lembrança de um rio
por dentro da cidade
a estranheza de um nome plantado
ao fundo da sesta

não há interdições às tardes da infância

a propósito
a intersecção de duas linhas
produz na esquina do infinito
um ângulo vagamente proibitivo

III

que tal te foi a vida
a mim também
aos poucos me morria
ora que tem

falando de amor
pois a mim
por favor
acho que sim

IV

regressas meu amigo
nesse choutado passo
de receber a tença antiga
no paço

derrogas delongas de fado
canela que te coube
neste país dormido por diferença

onde rogas
por pobre devagar
a tença

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publicado por Carlos Alberto Correia às 19:33

Na volta dos dias

Domingo, 18.12.05
Eis que de novo chega um tempo de batalhas.
Chega um tempo de povo…


Ser ou não ser, O canto e as Armas, Manuel Alegre




Foi interessante a semana que findou. Desde quase o seu início se adivinhava um rumor profundo, qualquer coisa que se não dizia mas em silêncio se preparava e não se conseguia conter sem que algo se vislumbrasse.

Foi primeiro, salvo erro, Jorge Coelho quem, no Programa Quadratura do Circulo, disse, ou insinuou, que uma nova sondagem do nada se levantava e que, alimentada pelos debates televisivos, fizera arrancar a candidatura do Dr. Mário Soares. Mais António Costa, posterior, e Vitorino, secundaram o murmúrio com a consequência lógica de aconselharem os restantes candidatos de esquerda a desistirem a favor do seu candidato.

Perversa lógica esta. Assente num conhecimento de dados não divulgados, mas pré-anunciados, mais parecia táctica de marketing que acção de correcta política, além disso nada sustentada na bondade dos seus efeitos se, por um extraordinário acaso, as restantes candidaturas viessem a aceitar o repto.

Por outro lado vem o Candidato Mário Soares dessolidarizar-se da posição desses importantes dirigentes do partido que apoia a sua campanha.

Que se passa então, senhores?

Parece que apesar das sondagens, do País inundado de cartazes, dos giga-jantares, alguma incomodidade ou incerteza dolorosa reina no binómio Soares/Partido Socialista.

Na verdade, aparecida a sondagem, verifica-se que, apesar de dar um crescimento a Mário Soares, esta candidatura aparece muito abaixo da linha desejável e, a crer nela, consubstanciando uma vitória na primeira volta para Cavaco Silva. Aquilo que faria bater o coração dos dirigentes socialistas era a passagem de Mário Soares para a segunda posição, até então ocupada por Manuel Alegre. Então, como se frisou, a consequência lógica, e primária, seria a entrega dos votos de Manuel Alegre a Mário Soares.

Pensamento obnubilado de quem julga mandar nos votos dos outros. Quem lhes afiançou que, desistindo Manuel Alegre, Mário Soares aumentaria a sua votação? Quem lhes disse que os cidadãos que com o seu esforço alimentam a candidatura de Manuel Alegre estavam dispostos a transferirem o seu voto livre e republicano para a manutenção de uma aristocracia que se quer impor ao País? Já agora, porque não declarar Mário Soares como candidato experiente e vitalício e assumir uma dinastia Soarista a governar, por direito próprio ou divino, prolongadamente os destinos deste rectângulo?

Um pouco de contenção não faria mal aos dirigentes, em pânico, do Partido Socialista. Postos perante o colossal erro de escolha que fizeram para as presidenciais, fazem apelos que não valem pelo que é pedido, mas sim por aquilo que revelam: Sabem que o seu candidato não está em posição de fazer o pleno de esquerda – mesmo numa segunda volta - sabem que não agindo eticamente dividiram os votos da esquerda e sabem que terão de prestar contas sobre o desperdício de uma maioria recente, naufragada numa escolha infeliz. Para não terem de abandonar o barco procuram bodes expiatórios. Mais nada.

Para mim é isto que vale o empenhamento desta semana de dirigentes e comentaristas afectos. A sondagem não me afecta nada, como não me afectariam se os resultados fossem, como repetidamente têm sido, mais favoráveis ao meu candidato. Porque eu sei coisas que as sondagens não dizem, porque nem sabem nem podem medir. Sei das pessoas que nos contactam e oferecem, voluntárias, as suas horas de descanso e os seus merecidos fins-de-semana. Sei de quem tendo pouco dinheiro aparece para contribuir, com o que pode, para uma causa que consideram justa e onde se revêem; sei também de quem, por motivos vários, prefere não ser conhecido e nos vem afiançar que o seu candidato é Manuel Alegre e sei, finalmente que, preparados para vencer, mesmo que não conquistando a Presidência da República, só pelo movimento gerado e pela esperança renascida nas pessoas, nós já ganhámos.

Lembrem-se de Humberto Delgado.

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publicado por Carlos Alberto Correia às 13:10

Malhas que o sistema de saúde tece ou a trágica história de José

Domingo, 11.12.05
Pretende atingir a porta longínqua da saída do hospital. Porém, as pernas recusam-lhe o movimento, as dores tolhem-lhe o passo, amortalham-lhe a alma e a visão turva diz-lhe a distância longa - ainda há meses percorrida em largas passadas – a que se encontra a porta por onde passará curvado, qual hera em torno da canadiana que lhe suporta o corpo.
A história de José é breve e simples. Na verdade, todos conhecemos “Josés” que caíram na rede tecida por este sistema a que se dá o nome de serviço nacional de saúde e onde pontifica a figura do médico de família, o qual, só por ironia, tem semelhante epíteto, tantas são as famílias desamparadas que por esse país vivem sem médico que as assista Porventura não serão famílias! Efectivamente, nos centros médicos os funcionários designam-nos sem qualquer hesitação. São «os sem médico». Esqueçamos este aparte até porque José foi um felizardo já que contou sempre com médico de família, com alguns hiatos, é certo. Mas, por Deus, que qualquer cidadão “normal” o perceberá. Não há médicos que cheguem para tantos doentes e maleitas. Importa suportar o sofrimento tanto tempo quanto o necessário - o estoicismo é um valor a preservar, estou mesmo a ver! Não há como retomar os bons velhos valores da Antiguidade clássica. E os doentes aprendem. Ai, se aprendem…. Coisas do sistema que devemos entender!
Aproximemo-nos de José que atravessa lentamente o umbral que o levará ao exterior do hospital. Sempre foi um homem simples. Amava a copa das árvores de fruto, o seu quintal de hortícolas, o vinho sonhado nas videiras enfezadas, amava a ordem da sebe aparada, suspirava feliz perante a relva simétrica e verde. Além disso, tinha a sábia arte da reciclagem e, frequentemente, num velho ferro, ou num pedaço de madeira entrevia o que os outros não viam. A sua utilidade. E das mãos de José – carpinteiro como o da sagrada família – nascia algo um novo objecto. Era raro este seu dom. Com 70 e tantos anos, recusando a imobilidade de bancos de jardim, ocupava energicamente os dias. O que eu mais lhe admirava era esse modo enérgico como envelhecia. E falo no passado para o descrever porque José perdeu todo o seu vigor em quatro meses, porque em quatro meses deixou de aparar a relva, entregou o quintal à caruma, as flores aos gatos vadios, as alfaces às lagartas …
Agora é a hera que se encosta suplicante à palmeira nobre do seu jardim e lhe suplica que a deixe enroscar-se nela (a palmeira tem a idade do neto. Plantou-a ele. A trepadeira também…, tal como a nespereira que marca o nascimento da neta).
As mãos fortes, o tronco firme que domavam o jardim e o harmonizavam deram lugar a um frágil caule …! E não estaria assim se tivesse sido convenientemente tratado numa perspectiva médica de prevenção.
De facto é simples a história de José. Respeitoso para com os senhores doutores cumpriu sempre escrupulosamente as suas indicações para controlar a sua diabetes, o seu colesterol, a tensão arterial etc. Nunca lhe passou pela cabeça colocar alguma dúvida sobre prescrições ou solicitar qualquer exame pois não só depositava inteira confiança no médico, como não dispunha de saber ou capacidade expositivo-argumentativa. José era o doente ideal: «Sim, Sr. Doutor!». E lá seguia, fazendo os exames de rotina, e lá continuava acreditando piamente que tudo estava bem, desde que tomasse os medicamentos, às vezes prescritos sem que tivesse sido sequer observado. E neste passo é bom lembrar que José é um senhor idoso, e com baixa literacia, dado importante para se perceber ainda que não estranhasse tomar há quase uma vintena de anos os mesmos medicamentos, quando a ciência médica tem dado passos gigantescos.
Um dia, há cerca de dez anos, dores fortes nas pernas impediram-no de andar. Após tentativas goradas de consulta, lá foi assistido. Fez um RX e um outro exame e logo vaticinou a autoridade médica: «Reumatismo, trata-se de reumatismo». Por isso, nada mais natural que medicamentos reumatismais. José tomou-os Sempre! Ainda falou, como era habitual, da má circulação, dos pés frios … Mas se tinha reumatismo, havia que engolir as cápsulas. E de novo voltou às matutinas horas, e ainda madrugada lá estava na fila para não perder a consulta. Às vezes perdia-a. Mas regressava sempre. Aliás como se sabe, “erguer cedo” “ dá saúde e faz crescer”, desde que o indivíduo cedo se deite. Assim o fazia José como homem regrado que era, tanto mais que os ritmos agrários ainda lhe pulsavam no coração.
Contudo, maugrado os reumatismais, as dores nas pernas persistiam, levando o antigo andarilho a tornar os passeios mais curtos, mas nada confessando à família. Todavia, disse-o aos médicos, sem que estes achassem necessário investigar fosse o que fosse (o velhote estava era mal das articulações!) e avançavam - «Sabe são coisas da idade. Ande a pé e tenha paciência! E José acreditou, obedeceu sem questionar. Quanto à paciência teve em dose elevada. E o pés diabéticos? E a má circulação? Da frequência inicial com que os observavam, restava agora um leve olhar ou até um não olhar. O que, como sabemos bem, não tem importância nenhuma!.
Um dia (creio que em 2004), mais envelhecidos, ele e a mulher mudam de centro médico, buscando uma maior proximidade de casa. Tiveram muito poucas consultas, pois a médica adoeceu e, naturalmente, deixou de comparecer. E quem assegurou a observação de José e sua mulher? Ninguém!
Supor-se-ia que, identificado como diabético, tivesse José acesso facilitado a uma consulta. Ingenuidades! Espera igual para todos é o lema dos centros médicos. E não é que se afigura algo de tom igualitário? Pois é… mas a diabetes é uma doença crónica com evolução muito grave para o doente e isso foi esquecido como se ninguém num centro de saúde o soubesse. A prova disto é claramente vista na regularidade quase diária das idas de José ao seu centro na mira da almejada consulta. E o resultado? Nulo, restringindo-se às vozes desabridas ou inexpressivas dizendo o mesmo de sempre, ou seja: «Não há médico! Volte amanhã, para a semana. Para o mês que vem talvez… Que quer que lhe faça?» Por essa altura os pés enegreciam, a palidez aumentava e as dores nas pernas agudizavam. José já pouco andava … e um dia parou.
Uma unha encravada num dedo cianosado levou-o aos serviços de enfermagem do Centro de saúde uma, duas, vezes sem conta. - «Hoje não temos S.ra enfermeira, nem médica! – Venha amanhã pode ser que a doutora o veja». E nada mais! Depois veio o grito de apelo de um casal de velhinhos, aparando-se um ao outro. Este dado foi irrelevante. Mais tarde numa outra “visita” médica obtém um pouco de algodão sob a unha a desprender-se e um despachado «Volte amanhã! Essa unha é para arrancar!». Tout court!
Quanto aos encaminhamentos médicos necessários? Nenhuns. E consulta? Nenhuma.
Finalmente José percebeu que ninguém o ajudaria, o trataria no centro médico. E rendeu-se, abatido e perplexo com o facto de tal acontecer. Importa lembrar que ele sempre achou que o tratariam, mesmo que demorasse um pouquinho. Os senhores doutores lá sabiam, mas vê-lo-iam … (Pois não viram José!)
Passaram-se quatro meses de suplício, apesar de tudo medicado porque se recorreu à clínica privada. E muito se correu. E muito sofreu José pois a gangrena instalava-se a olhos vistos, a par das dores lancinantes. E muito choro correu naquela casa. José não comia já, perante o desespero da família, vomitava comida e medicamentos. Para além disto havia que fazer o penso. Nova corrida ao centro e surgiu uma enfermeira que sabia o que eram pés diabéticos. Fez mover os médicos. Encaminharam José para uma consulta de podologia, sendo visto cerca de um mês depois. Trouxe uma pomada, uns conselhos para tratar dos ferimentos e nada mais, a não ser consulta para daí a um outro mês.
E de consulta em consulta (clínica privada – geral, especialista em cirurgia vascular), de exame em exame andou José arrastando-se, até que desembocou num hospital de referência da área de Lisboa. Por lá andou em três consultas, com a indicação de que faria uma arterioscopia no dia X pois as veias não estavam assim tão más.
Em José cresceu a esperança e no seio da família também. Efémero momento! Chegado o dia, e após observação pelos cirurgiões, é a família informada de que não poderia fazer jamais tal intervenção devido ao elevado nível da sua creatinina. O que fazer? Resposta sábia do médico: «consultar um nefrologista para impedir a paragem renal e a diálise». Nova corrida em busca de um médico com reputação nesta área.
Mais tarde, saber-se-á, através de cirurgiões de dois hospitais, que a creatinina não era o problema. A microcirculação estava muito comprometida. Não havia cirurgia que salvasse as artérias de José. Ninguém lhe tiraria as dores a não ser pela amputação de membros. Isto saber-se-á muito tempo depois, já José estava internado no hospital da sua área de residência, como deveria ter sido logo feito. E por pura sorte, meus senhores!
Eu conto: acorreram José e a mulher num dia de desespero aos serviços de enfermagem do seu centro de saúde que os encaminhou para a urgência de um outro centro onde foi observado por uma médica que lhe receitou um cicatrizante ( para dedo em gangrena!!!? – estranho, mas confesso a minha ignorância …. O certo é que poucos dias depois o cirurgião vascular retirou-o). Sofreu José, sem qualquer anestésico, dores dilacerantes ao fazer o penso. De lá saiu, não para o hospital, mas para casa, com a indicação de que deveria mudar o dito penso na segunda-feira no seu centro de saúde. Assim fez. Arrastando-se lá chegou e, desta feita, a enfermeira, perante o estado do dedo, recusou-se a tratá-lo pois ultrapassava a sua esfera de competência e tratou de o enviar para o hospital. ( Houve alguém a pensar e a ser humano neste processo! Será? Até custa a crer!).
Mas não entrem, caros amigos, em euforia e nalgum sossego. É que José teve de lá chegar por meios próprios. Parece que as ambulâncias não são chamadas para “palha tão pequena”. E assim José – depois de esperar das 11 h da manhã à 01 hora do dia seguinte – foi internado e finalmente tratado com cuidado. Mas como afirmou logo um dos cirurgiões, e depois outro, e outro: «Já chegou muito tarde». E todos avançavam com a sacro-santa pergunta: «Sr. José diga lá não tem dores nas pernas? E não as tinha já antes? A primeira vez…? Aí há uns dez anos, ou menos?» - «Há dez anos senhor doutor!» balbuciou em resposta, enquanto o Doppler do momento anunciava o destino trágico de José, meu pai.
«- Pois é chegam-nos neste estado … quando já pouco há a fazer …!», comentou o cirurgião.
Eu ouvi este veredicto e soube que o meu pai perdera a sua vida, a única que existe, a que nós temos enquanto somos íntegros. Soube também que a via-crucis pela qual passa actualmente foi causada pela negligência de quem, com responsabilidades médicas, não coloca todos os cenários clínicos inerentes a um doente diabético, com agravantes, e dá o mesmo a todos pois desconhece o significado da palavra prevenção! E segundo a observação dos últimos cirurgiões vasculares (em meio hospitalar), este problema de insuficiência na circulação já era antigo e deveria ter sido tratado há muito!!

José, meu pai, grita com dores, chora como um bebé, está ligado a um aparelho a partir da coluna para ter menos dores. Mas elas não passam, apesar do empenho destes médicos que só encontrámos em «dead line». José, meu pai, morre lentamente a cada grito lancinante, a cada penso, a cada cateter, a cada droga nova que toma e não faz efeito…! E nós morremos com ele todos os dias.
É isto saúde familiar? É isto saber técnico-científico, humanidade, reconhecimento do outro enquanto pessoa? Não! Isto acontece a quem não tem dinheiro para pagar a saúde, a quem não pode recorrer a especialidades várias no domínio da medicina privada, a quem acredita no seu médico de família, esperando dele o melhor encaminhamento tanto para essas consultas, como para uma ajustada medicação. E, por fim, isto acontece porque o médico nem sequer disse, nesses tais tantos anos do passado, que exames e a que consultas o meu pai deveria fazer/ir, mesmo que o seu crédito (o médico) para requisições de exames/encaminhamentos para especialidade não o permitisse, por razões economicistas que este país segue na saúde. Esta razão eu entenderia, ou, por outra, aceitaria melhor. O meu pai tratar-se-ia em clínica privada, mas tratava-se e o alerta tinha sido dado. Seria o mínimo de ética, não? O que eu não aceito é que um profissional de saúde saiba o que deve fazer e não o faça, preferindo omitir, fingir que o problema não existe. E não quero sequer colocar a hipótese de que um clínico geral não saiba o que envolve um doente diabético em termos de sinais a detectar e a ler, em termos de especialidades pelas quais deve ser seguido.
Sei de quem é a culpa. Mas como sempre morrerá virgem e arquivada. Afinal que importa um José marido, pai, avô de ….? É apenas um velhote! Há muitos, não é?
Um grito impotente de revolta ecoa continuadamente dentro de mim, sublinhada por «e nada podes fazer…» a que se sobrepõe: «Pena, chegou aqui tarde demais …»


PS: recado a meu pai, José …

Boa-noite pai. Estamos aqui. Que os céus (e as drogas) sejam balsâmicos e te deixem dormir sossegado. Ao menos esta noite. Ao menos a outra. Sabes na consulta da dor, a médica põe-te outro cateter, mais medicamento… já falta pouco… tá?


( ele criança, eu mãe, ao lado da minha mãe soluçante mas forte, muito forte)



Um beijo da tua filha,

F.
10/12/05

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publicado por Carlos Alberto Correia às 13:16

Exames...

Quinta-feira, 08.12.05
E vem com tuas mãos com teu lamento.
E vem com tua dor. Despenteia-
-me assim por dentro
do canto onde tu passas como um vento…

Pátria Expatriada, O Canto e as Armas, Manuel Alegre





De mim não se poderá dizer que seja um grande adepto da avaliação de conhecimentos por meio de exames. Admito a necessidade de apreciação do saber adquirido mas penso que centrá-la toda num único momento é mais lotaria que demonstração de ciência.

No entanto, sendo o sistema de ensino em Portugal baseado em exames nacionais, até que outro surja, há que aceitá-lo e tentar retirar dele o máximo de virtualidades.

Também me parece que os exames de 12º ano serão em demasia e que, de facto, como aparece em proposta ministerial, se poderia ficar pelos exames de disciplinas nucleares. Faria sentido, uma vez que até ao nono ano se dariam as matérias de cultura geral e, no secundário, se começaria a enveredar pelos saberes mais específicos de cada escolha.

Portanto tudo parece levar-me a concordar com as intenções da Ministra da Educação.

Mas a verdade é que não só não concordo, como a acho um tremendíssimo disparate.

Eu explico!

Em primeiro lugar parece-me que o instrumento, por excelência, de recepção e transmissão de saber é a língua pátria. Não haverá desenvolvimento social ou tecnológico se o utensílio base de divulgação não for convenientemente dominado. Infelizmente, como sabemos, mesmo em meio universitário, tal está longe de ser uma realidade no nosso País.

Em segundo lugar a língua faz parte integrante do sentimento de pertença nacional. Uma língua menosprezada representa uma baixa auto-estima nacional. Disso já temos que baste! Não precisamos que este Governo/Ministério venha pôr mais sal na ferida.

Ficamos, no entanto, a pensar por que razão virá alguém propor uma situação tão sem nexo. Pareceria pois que os proponentes ou eram parvos ou se guiavam por razões tão misteriosas e escondidas como, por exemplo, estarem-se nas tintas para os problemas que a medida venha a suscitar desde que - cortando um grande número de examinandos, de correctores de provas, de júris de exame - tal medida redunde num diminuir de custos , coisa sagrada acima de todas os outros considerandos.

Finalmente, em terceiro lugar, bastando ouvir as entrevistas feitas a alunos do secundário, num sistema de exames, disciplina que a eles não venha a ser submetida será matéria a não levar demasiada a sério.

Assim, visivelmente por questões aparentemente de âmbito financeiro, o Ministério está disposto a empenhar um dos garantes da expansão da cultura portuguesa e mesmo do desenvolvimento global do País.

Pedir que uma só medida comportasse tantos malefícios era coisa que eu não me atreveria a pedir a este Governo. Sou obrigado a reconhecer que o subestimei e que aqui ele se ultrapassa no grã talento de mal-fazer.

Só me resta, portanto, dizer-lhe: bem haja benemérito da Nação.

P.S. (não confundir) Lembram-se de Manuel Alegre ter apresentado, no seu programa, nomeadamente através do fortalecimento da CPLP, a dignificação da Língua Portuguesa?

Será que a mesquinhez vai tão longe?

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publicado por Carlos Alberto Correia às 15:50

Presidente da República - Poderes Constitucionais

Segunda-feira, 05.12.05
Só para recordar, sem pretensões de conhecimentos constitucionais, tendo em vista as confusões que por aí vão quanto ao papel do Presidente da República, penso que haverá algum interesse em respigar alguns elementos na nossa Constituição.

Assim, o “Presidente da República representa a República Portuguesa, garante a independência nacional, a unidade do Estado e o regular funcionamento das instituições democráticas e é, por inerência, Comandante Supremo das Forças Armadas”, sendo elegíveis os eleitores, portugueses de origem, maiores de 35 anos.

Para alguém ser oficialmente candidatos terá que ser proposto por um mínimo de 7.500 eleitores e o máximo de 15.000. As candidaturas serão apresentadas, perante o Tribunal Constitucional, até trinta dias antes da data marcada para a eleição será eleito, na primeira volta,” o candidato que obtiver mais de metade dos votos validamente expressos, não se considerando como tal os votos em branco”.

Não obtendo nenhum dos candidatos a maioria absoluta disputar-se-á, entre os dois candidatos mais votados, uma segunda volta que de correrá ”até ao vigésimo dia subsequente à primeira votação”.

O mandato terá a duração de cinco anos.

As competências do Presidente da Republica são, genericamente, as seguintes:

- Preside ao Conselho de Estado;
- marca as datas dos actos eleitorais;
- convoca extraordinariamente a Assembleia da Republica;
-dirige mensagens às Assembleias da República e Regiões Autónomas;
- dissolve a Assembleia da Republica;
- nomeia o Primeiro-Ministro;
- demite o Governo, ou, por proposta do Primeiro-Ministro, os seus membros;
- exonera o Primeiro-Ministro;
- pode presidir ao Conselho de Ministros a solicitação do Primeiro-Ministro;
- dissolve as Assembleias Legislativas das Regiões Autónomas;
- nomeia e exonera os representantes da República para as Regiões Autónomas;
- nomeia e exonera o Presidente do Tribunal de Contas e o Procurador-Geral da República;
- nomeia cinco membros do Conselho de Estado e dois vogais do Conselho Superior de Magistratura;
- preside ao Conselho Superior de Defesa Nacional;
- nomeia e exonera os chefes de Estado-maior dos vários ramos das Forças Armadas;
- é o Comandante Supremo das Forças Armadas;
- promulga e manda publicar leis, acordos etc.…;
- submete a referendo questões de interesse nacional;
- declara o estado de sítio ou de emergência:
- pronuncia-se sobre todas as emergências graves;
- indulta e comuta penas:
-requer ao Tribunal Constitucional a apreciação preventiva de constitucionalidade, a declaração de inconstitucionalidade;
- confere condecorações;
- nomeia embaixadores e enviados extraordinários;
- ratifica tratados internacionais;
- declara a guerra e faz a paz.


Com o inevitável simplismo aqui deixo o meu contributo para que a discussão sobre poderes e programas dos vários candidatos possa ficar melhor situada e não venha alguém prometer mais do que pode.

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publicado por Carlos Alberto Correia às 15:06

Carta Aberta do Movimento JÁ

Sexta-feira, 02.12.05
Com a devida vénia damos aqui publicidade à Carta Aberta remetida pelo Movimento JÁ



"NAS TUAS MÃOS COMEÇA A LIBERDADE!"

Somos um grupo de jovens que pretende dar o seu contributo para a caminhada presidencial de Manuel Alegre. Nele vemos um passado de lutas sociais, um passado de resistência. Nele encontramos uma referência política actual, distinta pela frontalidade, pela verticalidade, pelo arrojo.

Candidatar-se à Presidência da República, mesmo sem o apoio de nenhuma máquina partidária, é preferir a Liberdade ao espartilho, o Humanismo ao fatalismo, a Consciência à apatia.

A sua candidatura é uma pedrada no charco, um abanar de consciências e de poderes instituídos, um não ao seguidismo. Vive exclusivamente da iniciativa e participação daqueles que sentiram e aceitaram o desafio por ele lançado, para que, sem preconceitos nem embaraços, se lhe juntassem na defesa de um Portugal social onde os números não valham mais do que as pessoas. É por isso que as mulheres e os homens que dão corpo a esta candidatura não servem outros interesses que não os da mobilização cívica e da participação democrática.

É urgente quebrar com a onda de abstenção entre os jovens, é necessário
estabelecer compromissos que conduzam à construção de uma nova cidadania.

Por isso reclamamos novos projectos, novas lutas, novos incentivos à dinâmica do país. Que ele cresça connosco, com traçados firmes, com novas cores que a todos representem. Portugal depende da ruptura com o cinzentismo e com o marasmo em que hoje nos encontramos.

Na política, como na vida, não devemos ficar à espera de super heróis. Apoiamos Manuel Alegre, cidadão como nós. As suas qualidades humanas, intelectuais e políticas são garantia dum desempenho do cargoao serviço da democracia e de todos os portugueses, que tanto a desejam fortalecida e regenerada.

Ser jovem é ser futuro, mas também reivindicar o presente. Por isso nos juntámos a esta candidatura. Por isso queremos ajudar na sua construção. Por isso apoiamos Manuel Alegre!

Os Subscritores

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publicado por Carlos Alberto Correia às 17:53

O Bife (conto)

Quinta-feira, 01.12.05
….Porque o mais
é já sombra de sombra e o breve traço
de quem passamos para nunca mais


Quem somos nós, O Canto e as Armas, Manuel Alegre













Quis-me o autor católico e tímido. Por esses factos, aqui estou, hoje como sempre, sentado na terceira mesa da Segunda fila desta esplanada, olhando o pipilar da fonte e os miúdos desnudados, em banhos mais de sol que na contida água.

Serei, também, no decorrer do conto, o quanto baste de ingénuo e sonhador. Adequa-se-me a ingenuidade porque, com ela, poderei correr certos riscos e aceitar alguns jogos que de outro modo poderiam passar por estultícia. Calha-me o sonhador por comple­mento desse atributo. Quem se navega pelos fumos da lógica dos sonhos e os antepõe ao que a maioria denomina de real, terá toda a conveniência na estruturação de um universo à medida do romântico, que se pretende herói e não consegue, no seu ser, força bastante.

Volto à água. Tomba, por enquanto, entre salpicos de relva. Logo mais, quando a noite quase de surpresa chegar, as luzes do lago acender-se-ão e tornarão mais distantes e imprecisas as árvores do outro lado. Equidistantes do meu ponto de observação ficam as duas esquinas, estas sem nenhumas árvores. Só casas, em esses breves prenúncios de floresta que resistem no largo, do outro lado. Aquele onde nunca estou.

Nas casas das esquinas habitam pessoas e sei de histórias de outras que gostariam de habitar em casas e não o podem fazer. Mas isso são outros contos e, neste, o autor não me deixa entrar por esses caminhos. Aliás, como se sabe, é de boa norma delimitar os assuntos e esta é uma narrativa mais ou menos romântica pelo que não deverá perder-se em desinteressantes críticas sociais.

Retomemos o rumo certo. A poucos metros, do meu lado direito, fica a Primeira Esquina. Ao centro, comigo dentro, está a esplanada. Alguns metros para além do meu braço esquerdo, queda-se a Segunda Esquina.

Para além das esquinas nada conheço. Todos quantos as ultrapassam saem do meu ângulo de visão e deixam de ter história. Inexistem. Quem vem da Primeira Esquina aparece sem aviso. A sua presença é impensável até que dobre a esquina e se corporize no súbito de um bico de pé, num passo inacabado obrigando a presumir o anterior, numa sequência posterior de outros que se dirigem ao presente do café, ou na inexistência, por dobragem da outra esquina. Tudo isto resumindo-se num nada de corpo, numa existência precária, mais movimento ou fulguração que realidade.

Eu, estou aqui à espera. No meu estar existe certamente um objectivo, uma necessidade. Aguardo que ela dobre a Primeira Esquina, surja a emoção e se cumpra o determinado.

Por isso aqui me encontro, instalado no Verão, sentado na terceira mesa da segunda fila da esplanada.

Pelo ardor do corpo e pelo amarfanhado da pele suponho ter voltado da praia. Saboreio um imperial que poderia ter sido mais bem tirada se estivesse colocado na cervejaria. Mas a cervejaria fica lá mais em cima, a meio da avenida, enorme e plana, estendida sem surpresas e sem possibilidade de duas esquinas suficientemente distanciadas para permitir o espaço do cenário e suficientemente próximas para a passagem dela poder ser o campo entre a esperança e aquilo que não sendo desespero nem frustração, fica no magoado da alma como música melancólica.

Não me desagrada, na verdade, ter vindo da praia. Se me fosse possível passaria a maior parte do meu tempo nessa fusão de sal e luz. Que tardes! Quando o saboroso cansaço nos leva a rumar para casa na busca do duche, deixar a salmoura e, antes que o sol se ponha, correr para a esplanada, procurar a mesa conveniente, sentar-me e, beberricando a cerveja, esperar, sem falta, a partir da Primeira Esquina, pedaço a pedaço, o cumprimento da promessa da sua presença.

Aparecerá, primeiro, uma das suas pernas, seguida de um braço. Depois a saia leve tendida pelo passo e pela brisa. Num repente solar surgirá de corpo inteiro. As mãos, os cabelos, o peito num balanço cálido de ondas dentro de ondas.

Muitas vezes pergunto-me o que será ela para além da esquina. Que fará na vida fora deste caminho onde cruza o meu olhar? Como nada sei espero o seu avanço até à esplanada e tento adivinhar. Por momentos parece-me saber tudo e desejo que venha sentar-se à minha mesa. Reparo depois que nem sequer sei o seu nome, embora lhe adivinhe os passos e saiba que nunca, por si só, virá sentar-se aqui. Talvez nem sequer pare no café para tomar uma bebida ou fazer um telefonema. Seguir sempre em frente, até à Segunda Esquina, parece ser, imperiosamente, o seu destino.

Enquanto os seus passos a afastam tento confortar as esperanças caídas. Pergunto-me quantas vezes esperaste por ela e a viste passar, sem um desvio, por pequeno que fosse, entre uma esquina e outra? Esperavas, insensato, que ela viesse ter contigo e sem mais começasse a falar dizendo-te todas as palavras que tu calas? Grande besta sou! Porque raio deveria tal coisa acontecer? Sou católico, mas não espero milagres. Olho para mim e desconforta-me o que vejo. Como esperar então que ela possa ter alguma vez sequer reparado em mim. Ela nem me conhece e não sou tão irresistível que possa tornar-me notado aos olhos de qualquer mulher, apenas por me ter entreolhado. Sou uma boa anedota. Isso é que sou!

Além disto, basta olhá-la para sentir a diferença. É perfeita! Nela nada há de destoante. É, verdadeira e meteoricamente, perfeita. O caminho que percorre, só porque o trilha, é mais altar que percurso. Como pensar compartilhar o meu espaço com ela? Tão anódino que sou! Insensatez, meu caro, insensatez. Querias, se calhar, a estrela polar fora da sua rota, mortinha por se instalar ao teu lado!? Não é a mesma coisa? Ai não, não é!! Estás tolinho se não percebes. Então a estrela polar não passa também‚ todos os dias, entre dois limites? Sensivelmente à mesma hora e no mesmo local? E não é bela? E não é presente e inacessível? Os olhos não a seguem, porventura desejando-a? A outra é uma mulher!? Isso que tem? Não são ambas criaturas e igualmente perfeitas?

Peço o impossível? Não é esse, porventura, o meu direito? O que está à mão? Qual o merecimento?...

Voos.. Voos inconsequentes é o que fazes. Estás para aí com toda essa filosofia e nem sequer consegues convidá-la para a tua mesa. Aproveita agora. Daqui a pouco ultrapassará a tua mesa e atingirá a Segunda Esquina. Força. Um pouco mais e perderás a tua oportunidade. Mais acção. Menos filosofia.

Isso queria eu. Ter força para que ela fique. Para que o meu desejo fosse o dela. Pois é! Mas eu sou tímido. Nem me serão permitidas certas actuações. Por exemplo, neste momento, apesar da minha vontade e turbação, devo verificar se algum dos circundantes se apercebeu das minhas intenções; se os meus pensamentos se tornaram visíveis, se tomaram voz e gritaram, subitamente, o meu amor, na praça.

Olho em volta. Tudo continua como se não tivesse havido tempo. O meu vizinho mais próximo que, quando ela apareceu, começara a levar o copo aos lábios, nem sequer terminou o movimento. Toma agora o primeiro trago. Ela dá outro passo. Na praça o meu olhar é uma súplica. Eu, um desassossego.

Antes que outro passo se inicie e o bebedor desça, leve e lento, o copo sobre a mesa, procuro em mim aqueles olhos interiores de tudo sentir e perceber. Os mais completos e clarividentes olhos que ninguém reconhece fora de si e em si ninguém contesta. Iluminado por eles volto-me na direcção da Primeira Esquina. Preocupo-me. Se os fechar continuará a haver esquina? Se os fechar continuará a existir o que não sei se existe, do outro lado da esquina? Se os fechar é possível que a esquina desapareça ou não mas quem garante que essa anulação a não arrastará a ela também?

De olhos bem abertos sei que nada sabendo dela terei de continuar, até tudo acontecer, aqui sentado, entre duas esquinas, à espera, no, concedo, aprazível local onde situaram a esplanada, desconcertado por me sentir pedaço de coisa nenhuma, títere de um ciclo de existência onde, um dia, acredito, ela terá que vir sentar-se na minha mesa.

Se me fosse permitido resolveria este caso rapidamente. Faria com que ela, finalmente, reparasse em mim. Que me olhasse e, nesse olhar, ficasse a saber da minha longa e repetida espera, suspendendo, só por isso a progressão para a Segunda Esquina. Eu avançaria para ela de molde a tolher-lhe o passo. Contar-lhe-ia a minha espera e um sorriso de compreensão posar-lhe-ia nos lábios. Ver-lhe-ia despontar a emoção por se saber aguardada e despertar-lhe-ia a reflexão sobre o inexorável de todos os dias passar, à mesma hora, de semelhante modo, no mesmo local, entre duas esquinas, perdendo-se sempre um pouco mais de outro lado, sem a certeza de que no dia seguinte a catástrofe não acontecesse e a Primeira Esquina se toldasse pela sua ausência.

Por mim sei. Estarei aqui todos os amanhãs deste Verão esperando o seu aparecimento. Dia após dia verei morrer o sol incapaz de a chamar, incapaz de deixar de esperar. Continuarei parado tentando perceber o seu mistério. Além da esquina há possibilidades que me angustiam e a desconfiança de que tudo seja possível e tudo isto tenha um sentido, possua uma coerência. Porque eu sei. Estarei aqui, cada dia mais bronzeado, bebendo a minha cerveja, convicto que, lá mais acima, na cervejaria, seria melhor tirada, mas, compreendendo que só neste lugar cumpro o meu papel e me será possível vê-la passar indiferente e significativa.

Como antevia foi o Verão passando. O Sol declinava. Ela aparecia na Primeira Esquina. Eu esperava que os seus passos a conduzissem até mim. Ela passava ignorando-me. Eu, desesperado, ansiava o novo dia para que, declinando o Sol ela de novo aparecesse e eu continuasse a aguardar...

Um dia ela apareceu. Na Esquina. Na Primeira. Trazia qualquer coisa de novo. Seria o ângulo do avanço ou uma subtil transparência de intenções reflectidas na biqueira do sapato? Não sei. Apenas me foi perceptível, de golpe, a diferença. O dia de hoje não seria como nenhum outro. Era este o dia total, por excelência.. Sobressaltei-me. Algo vai acontecer e não estou preparado. Não sei o que é nem se o desejo. É certo. A minha mansa rebelião tem ensombrado o desempenho do papel que me foi atribuído. É certo. Por vezes sonhei-me outro e quis-me diferente. Mas, por acaso não me esforcei? Não me adaptei e tentei cumprir como quiseram que cumprisse? Não me mantive pacientemente sentado, todo o Verão, nesta esplanada, sempre ao fim da tarde? Esperando sempre a mulher que nunca abordarei e me destinaram que aguardasse?

Neste momento limite todas as questões são igualmente irrespondíveis. Não há tempo nem vontade. Porque pela última vez ela irá iluminar esta última tarde. Sei que, majestosa, inflectirá a costumada marcha no sentido do café. Inicialmente indecisa avançará depois, seguida de olhares e de mim, para o interior. Sei ainda que, agora que posso queimar-me no fogo do seu sol, a tão desejada, a eternamente aguardada, a suma, a inatingível se sentará ao balcão do bar e, ai de mim, com estes ouvidos onde ainda ressoam os roçagares do seu hálito na atmosfera, a irei ouvir, naquela voz que se adivinha de pétalas, pedir ao empregado:


- Dê-me um bife... em SANGUE, se faz favor

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publicado por Carlos Alberto Correia às 11:19








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