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Lágrimas -(um conto a despropósito...)

Quarta-feira, 28.09.05
Agora sei que nada é fixo. Há sempre um por fazer
há sempre outro partir depois de cada chegar.
Agora sei que para saber
é preciso rasgar as mãos. E procurar.

Episódio I, Na ilha de Calipso, Um barco para Ítaca, Manuel Alegre

-------o------


Pretensiosamente pretendi chamar a esta história o meu barbeiro. Meditando um pouco perante o ecrã vazio - onde vai o desespero da folha de papel branco à espera da escrita e dos furiosos riscos que inutilizavam início e papel - tive de chegar à conclusão que:

a) não tinha, nem nunca tive um barbeiro fixo, coisa que passarei a explicar mais para diante (se me apetecer ou se o decorrer do conto não me levar por outros caminhos) e,

b) era demasiada pretensão chamar de minha a qualquer pessoa, ainda que fosse um barbeiro pobre, de revolta suave e a atingir o raiar das lágrimas.

Assim, vai a estória chamar-se lágrimas, não porque as houvesse na conversa, mas porque, de forma vária, estavam subentendidas numa vida de esforço sem glória nem perspectivas. Há, no entanto, para ajuntar que a culpa desta conversa é da Câmara Municipal, que por acaso é socialista, partido onde votou o meu barbeiro e que agora, com desespero, se arrenega dizendo que nunca mais votará em ninguém.

É claro que esta prosa corre o risco de se transformar numa lamúria fora de moda, tipo fado do desgraçadinho, coisa muito em voga nas escrevinhações que por cá fazemos. Desenganadamente o portuga escrevente – e será só ele? - desforra-se na escrita da sua consciência infeliz, enforma-a de confissão e procura nela ultrapassar problemas que, por inépcia ou falta de oportunidade, não consegue resolver de outro modo.

Dizia o barbeiro, dentro de e voltado para um amplo estaleiro de obras em funcionamento pleno, que a Câmara lhe estava a rebentar com a vida. E ao seu patrão também. Estranha esta preocupação do servente com o dono do estabelecimento. Marx não havia de gostar desta aproximação de classes, embora, se passasse pela barbearia e ao cortar o desgrenhado cabelo, ou a aparar a furiosa barba, ouvindo a estória que eu ouvi, pudesse pensar em alterar qualquer coisita na sua obra monumental. Ou quem sabe, talvez não mudasse nada porque uma coisa é a mudança encarada do ponto de vista sociológico, outra bem diferente é o drama do indivíduo apanhado nas teias dos volte-faces sociais.

Pois é verdade, o patrão da barbearia ficou estarrecido quando numa Segunda-feira vai para abrir o seu estabelecimento e verifica que todo o largo tinha sido, durante o fim-de-semana, cercado por imponente paliçada, cheia de anúncios de empresas de construção pedindo desculpas pelo incómodo, clamando que iriam ser breves, que trabalhavam para o bem-estar de todos e ali, do seu esforço e engenho, iria nascer um magnífico parque subterrâneo para automóveis para, de vez, resolver todos os problemas de trânsito daquela muito importante zona da cidade. No entanto, o problema para o dono da barbearia é que não só não tinha qualquer acesso à sua loja, como nem sequer a avistava, tapada que estava com protecções e andaimes e, sobretudo como em desespero dizia:

- ... mas nunca me disseram nada...

e ao pretender entrar teve que dar uma enorme volta para descobrir uma porta, onde foi esbarrar num serventuário negro, interposto à sua frente, mal falante do português, o qual, obstrutivo e repetidor, dizia: -sinhor non. Empresa e Câmara não querer ninguém dentro...

Estupefacção transformada em raiva. O sentimento de impotência a subir pelo corpo todo, começando nas mãos, estendendo-se pelos braços, ocupando o peito e um berro a sair e a explodir dentro do coração. Tudo vermelho por fora e por dentro como a ambulância onde o transportaram para o hospital, com um ataque cardíaco, conquistado naquele preciso momento e local.

Dizia-me o barbeiro que ao tomar conhecimento deste triste evento a Câmara fora companheira e impecável. Acorreu em peso em visita ao hospital, acompanhada dos órgãos de informação, para pedir desculpas ao patrão, que por acaso não tinha morrido, apenas ficando tolhido dos braços - o que não é de somenos para um barbeiro - e prometendo-lhe passagem livre, quando quisesse, para a sua loja, desde que, evidentemente, o estaleiro estivesse aberto, porque como sabe, por causa do ruído não se pode trabalhar à noite, e as máquinas existentes, de valiosas, não poderem ficar abandonadas ao sabor das malquerenças de algum energúmeno, além do perigo acrescido que representa atravessar um local de obras para alguém que não esteja habituado a tais andanças. O senhor bem sabe como são estas coisas dos acidentes na Construção Civil…

…O que se tinha passado é que todos os Bancos e Empresas da zona tinham sido avisadas com tempo e a Câmara, que não é descuidada, tivera mesmo reuniões com representantes dessas firmas e quantos problemas -meu Deus!! - não foram resolvidos. Só a questão da garagem do Banco Enfisema fora uma dor de cabeça...mas felizmente tudo se resolvera. Agora, a questão é que no meio de tanto afã, passou despercebida a questão da barbearia. Também o senhor sabe é só você e o seu empregado, aquilo está para ali esquecido a um canto, tem pouco movimento, vocês não se actualizaram e assim, não é que sirva de desculpa, ninguém se lembrou de vos avisar desta coisa...

Mas como é que eu vou viver? tartamudeou em espanto o patrão.

Pois é, é complicado, disse o Sr. Presidente. Agora não temos solução nenhuma. As coisas estão muito em cima do acontecimento. Teremos que estudar o caso. Mas não se preocupe, dê tempo ao tempo,...alguma coisa se há-de conseguir...

E conseguiu mesmo. Logo ali o patrão teve uma recaída - também quem é que espera que um patrão tenha um tão delicado coração - o que obrigou à rápida evacuação dos meios de comunicação social, para não perturbar o doente. Uma câmara de uma televisão independente, que cirandava atrás do presidente e que se tinha dado ao desplante de filmar despudoradamente todo o incidente, teve o azar de chocar de frente com um homem da segurança que ia a correr chamar o médico - que já estava à cabeceira do doente - e ficou toda partidinha no chão. No entanto, como o segurança era homem de boa índole, parou de imediato para ajudar o operador a levantar-se e a recuperar a câmara. O que o desgraçado nunca recuperou foi a cassete que se sumiu ninguém sabe para onde. Coisas....

Assim o meu barbeiro reflectia em voz alta, dando curso à sua mansa indignação e utilizando-me para a sua psicoterapia.

Pois é - dizia ele - por causa destas obras vou agora de férias. O senhor já viu o que é ir de férias no pico do Inverno?

Tentando amenizar as coisas lá lhe fui dizendo que férias de Inverno têm os seus encantos e méritos. Por exemplo, não se perdia tempo a esperar por um lugar nos restaurantes, era-se mais bem tratado nos hotéis e, para quem gostasse de neve, umas férias na montanha era o que era.

Pois sim, ripostou-me. Para mim férias são sempre no mesmo local. Em casa! Como é que quer que eu passe férias noutro lado? Repare, ganho menos de sessenta contos líquidos, fora as gorjetas, evidentemente,

-Já te percebi meu marau.- pensei eu! Está-te a fazer ao piso...

e com isso tenho que pagar a renda do barraco, os remédios da mulher que é doente como o caraças, os transportes, a alimentação e a pouca roupa que vestimos.

A raiva desta situação infeliz fez-se sentir na minha nuca. Zás! A navalha a entrar fina e dolorosamente na minha carne.

-Cuidado homem! Ainda me tira um bife do pescoço.

- Peço-lhe desculpas...mas quando penso na minha vida dá-me cá uma raiva!

Não é que eu não percebesse a razão da sua fúria. Com sessenta anos, sem dinheiro, sem nunca ter sabido o que era um gozo real de férias, dava para rebentar com todo. No entanto eu não tinha, objectivamente culpa nenhuma desta situação e a navalha, quase tão velha como ele, já tinha com certeza cortado centenas de pescoços (à superfície, é claro) e, valha-me Deus, se algum pertencesse a alguém contaminado com sida? Estremeci e, solícito, pergunta-me o barbeiro:

- Tem frio? Eu fecho já a porta. Como isto está nem se tem ganho para comprar uma garrafa de gás para o esquentador, quanto mais para o aquecedor.

Isso já tinha notado. Levara um duche de água fria ao lavar da cabeça. Como sou pacato e não gosto de levantar questões nem disse nada. Pensei que o esquentador não tivesse ainda aquecido, no entanto disse-lhe:

-Podia ter-me avisado antes. Assim evitaria o frio que passei.

Pois é, objectou, o serviço já é tão pouco! Se eu avisar o cliente ele não lava a cabeça. E é uma quinhentola que se vai à vida. A verdade fica muito cara. Não me posso dar ao luxo de ser verdadeiro. Se agora lhe falo nisto é porque já lavou a cabeça e é o meu último cliente. Quando acabar este cabelo vou fechar as portas, entro de férias e já não volto. Não tenho dinheiro para ser patrão, o dono da barbearia nunca voltará ao ofício e eu consegui uma reforma por causa da artrite. O dinheiro não é muito. Mas com as economias em transportes e roupas, mais umas cabeças que arranje lá pelo bairro, cá me hei-de governar.

Chegado o serviço ao fim escovou-me as costas, recebeu o dinheiro e a gorjeta, fez-me um sorriso e mal eu saí, fechou, para sempre, as portas da barbearia.


Vivia-se ao tempo a euforia construtiva do Sr. Presidente. Pelo sorriso permanente, de alvos dentes em riste, pela mania de mandar azulejar de branco tudo quanto fosse de retretes a estações de metro ou comboios tinha sido Sua Excelência apodado - claro, pela oposição - de Brancolejo.

Dizia-se que as sessões na Câmara eram tumultuosas e inúteis. Discutisse-se o que quer se discutisse, tomassem-se quais decisões fossem, era certo e sabido que apenas vingariam aquelas que o Sr. Presidente já trouxesse encasquetadas no bestunto. Era um homem de grande inteireza - diziam os apoiantes - era um burro teimoso - contestavam os outros. O certo porém é que o seu mandato lá ia de vento em popa, assim, como de vento e pompa foi o dia da inauguração do parqueamento.

O que parecia não ter remédio era a desgraçada barbearia. Para além da disfunção obtida pelo patrão, da compelida reforma do empregado, erguera-se agora, comemorativamente, mesmo em frente da sua portada, um imponente monumento, que a ocultava completamente, destruindo qualquer possibilidade do patrão obter algum trespasse que merecesse a pena. Saído do hospital e confrontada a Câmara com a possibilidade de um processo em tribunal, a cair mesmo em cheio no período eleitoral, foram convocados sábios consultantes.

Que arranjassem uma solução – clamou o Sr. Presidente.

E foi assim que no dia da inauguração, entre bombeiros de retoque e desfile, meninas de flor e beijinho, fitas cortadas, discursos como o deveriam ser, todo ao jeito do antigo regime só que com mais populares na corrida, o patrão - agora tetraplégico, de cadeirinha de rodas empurrada por zeloso funcionário da Câmara -, engrossava a fila de convidados importantes e, pasmem, ele que nunca tivera carro, nem poderia agora pretender conduzir, receberia, de modo estatutário, o direito a um lugar de parqueamento vitalício e não endossável…

Mas, dir-me-ão que foi feito do empregado?

E perguntam bem porquanto, como todos somos iguais e detentores dos mesmos direitos, não poderemos cometer o feio pecado de falar de presidentes, de bancos e mesmo de barbearias e deixar, como coisa que não interessa, o destino desse anónimo fazedor das coisas reais.

Pois bem, não deixem de ter em conta que falamos de um município, de presidência consabidamente democrática e socialista, onde o povo miúdo é sempre tido na devida conta. Foi assim que no dia da inauguração, impante, garbosamente fardado, dentro de um cubículo de vidro, o meu barbeiro recebera a importante missão de cobrar os pagamentos e passar talões aos utentes do novíssimo parque.

E a estória poderia por aqui ficar, com honra, glória e proveito para todos se, no meio da felicidade do meu barbeiro, não caísse a dúvida cruel de um futuro ameaçado. É que, não nos podemos esquecer, vivemos numa época de grandes e progressivas mudanças e o nosso presidente é dinâmico, homem de larga visão do futuro e sobretudo muito viajado. Assim, dissertando sobre melhorias e desenvolvimento, por mero descuido próximo ao recém reciclado barbeiro, comentou, para a sua comitiva, que um parque assim tão moderno, dentro de todas as convenções das normas europeias, não ficaria completo sem um actualizado sistema de cobranças e controlos automáticos. Era assim que se fazia lá fora...

Vocês bem vêem, isto de ter uns velhotes caquécticos nas portagens de instalações tão modernas não dá lá muito bom aspecto...

Por isto ter ouvido é que o meu barbeiro, quando lhe fui dar os parabéns pela resolução dos seus problemas de emprego, esboçou um esforçado sorriso e disse:

Não sei bem... não sei bem...

...deixando que duas pequeninas lágrimas ensombrassem a luz daquele grande dia.

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publicado por Carlos Alberto Correia às 16:00

À mulher de César

Quarta-feira, 28.09.05
Ponderação me pedem. Exigem que me cale
mas bebem do meu vinho meus campos devastam
à resignação chamam virtude juventude à indignação
com seus conselhos me enfastiam com seus prémios me castigam
Se digo não me dizem sim se digo sim me dizem não
calar-me é doloroso mais ainda me é falar
pois o silêncio é uma traição….

Episódio II, Em Ítaca: Telémaco e os seus jovens companheiros, Um barco para Ítaca, Manuel Alegre




Publica hoje o Público um interessante dossier de três páginas sobre o caso da inefável dama de Felgueiras.

Na página 2, quase ao fim do artigo, referindo-se ao acréscimo de 75% sobre o preço inicial de adjudicação, da obra de um aterro sanitário, e perante reticências do Tribunal de Contas em aceitar tal aumento, diz a Redacção citando um responsável da empresa adjudicatária: “”A reformulação da proposta só foi possível com autorização ministerial”, mas “a aceitação dessa situação e a dispensa de novo concurso suscitou reservas ao Tribunal de Contas, tendo esta sido sanada com a intervenção do Ministério do Ambiente (através do Secretário de Estado José Sócrates), que justificou o novo valor dos trabalhos com a necessidade de aplicação da nova legislação em matéria ambiental””.

Voltamos à mulher de César…

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publicado por Carlos Alberto Correia às 15:14

Eu venho incomodar

Segunda-feira, 26.09.05
Eu venho incomodar.
Trago palavras como bofetadas
E é inútil mandarem-me calar
Porque a minha canção não fica no papel.

Apresentação, O Canto e as Armas, Manuel Alegre



1 – O nome do Blog


Se eu for com o meu primo ao laranjal e só, no mais alto da mais alta árvore, houver uma laranja e se sozinho a não a puder alcançar, pedirei ao meu primo que me ajude.

Feito o esforço, porque o meu primo me coadjuvou, é meu familiar, lhe estou agradecido e sou sentimental, dar-lhe-ei metade da laranja. Mas como sou sacana, dou-lhe a parte mais pequena.

Assim me vejo e nos vejo como colectivo. Não sou fundamentalista neste raciocínio e penso que poderemos chegar ao dia em que a laranja possa ser equitativamente dividida.


2 – Esclarecimento a Henrique Jorge

Não sei se terá muito interesse aprofundar as circunstâncias em que o poema foi escrito. No início do "post" refiro-me à data dos acontecimentos (1977), tempo ainda muito quente em termos de ideologia, em que as posições se extremavam e tudo se vivia em cima do momento e da emoção.

Aquilo que me parece mais interessante será esclarecer, porque numa página que se quer de apoio, publico um texto que parece ser o seu contrário.

Ora bem, se apoio algo ou alguém terei de ter motivos para o fazer. No entanto, sendo do conhecimento dos meus amigos qual a minha posição sobre o Manuel Alegre, quem me não conhecesse e acedesse a este Blog, teria o direito de pensar “aqui está mais um a promover-se à conta do Manuel Alegre e das presidenciais”, ou pensar que estava perante obra encomendada, ficando deste modo deturpada a minha posição e fragilizada a mensagem que se quer transmitir.

Ao mostrar o profundo desacordo em que estive, contrastando com posição que agora tomo, deixo claro que para tudo há um tempo e um percurso. A grande coerência é transformar-se quando as situações exigem que a mudança se faça e o objectivo seja moralmente pertinente.

Que não se confunda tal posição com abandono de valores ou excessivo pragmatismo (mal este de que sofrem alguns partidos), mas sim com a natural mutação dos tempos e das circunstâncias, bem como das respostas que tais factos requerem.

O meu apoio ao Manuel Alegre significa que, em relação à coisa política actual, cheguei ao ponto da náusea. As posições e o discurso que o Manuel Alegre tem vindo a produzir, tão politicamente incorrectos, sugerem a possibilidade de algumas alterações neste panorama.

Por isso o aplaudo e me apetece estar com ele nesta caminhada tão política, como ética e onde cada acto surge dimensionado pela rudeza das palavras necessárias.




3 – Posição da Petição do Movimento Cívico

Pelas 16,45 horas existiam 2.063 assinaturas na Petição. De ontem para hoje o incremento foi de cerca de 500 assinaturas.

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publicado por Carlos Alberto Correia às 17:49

Manuel Alegre - Reconciliação...

Domingo, 25.09.05
Escrever para depois não sei escrever.
Meu tempo é hoje. Tudo o mais é não ser.
Correio - O Canto e as Armas (1967) Manuel Alegre
1 - Lembrar
Nos idos anos sessenta Portugal era um país carregado de tristeza. Por essa altura, em Évora, um pequeno mas heterogeneo grupo reunia-se, pelas caladas noites, em casa da Guida. Falávamos, pondo o rádio junto à janela não fosse um bufo da PIDE estar de esculca armada, e sonhávamos, em conjunto, com um país onde o sol brilhasse na efectiva liberdade de todos.
Com fundado receio aproveitávamos esses encontros para conseguir alguma esperança. Era o tempo de se ouvir, clandestinamente,as vozes que a transportavam: Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira e sobretudo o Manuel Alegre e a sua Praça da Canção e O Canto e as Armas.
Assim fomos estando, resistindo e acordámos, subitamente, numa manhã de Abril.
A liberdade chegou e nós esfomeados e ingénuos utilizámo-la da maneira que sabíamos e podíamos. Cometemos erros e excessos. Pensámos ser inimigos quem apenas discordava. Era o insconciente fascista a trabalhar dentro de nós, mesmo daqueles que mais se pretendiam da libertários.
Assim chegámos a 1977 com a luta acérrima pelo domínio da sociedade e da comunicação social.
Aí separei-me do meu ídolo Manuel Alegre e amargamente publiquei o poema que abaixo trancrevo:
carta a manel


I
houve um tempo em que estavas longe
e mesmo ao pé da mão cantavas
eis senão
quando trocas a canção da cotovia
pelo ondular do pássaro secretário

é uma pena e um fadário
dos políticos desta terra quem desterra
é desterrado e desta feita
quando roda a roda da fortuna
é possível que o poeta venha a ser
contemplado com um ministério
ou um secretariado

no entanto houvera a praça da canção
um desembarque no rossio há muito prometido
o correio
e a maria do brás sempre menina em ti
houvera o sena e um bairro clandestino
e guitarras a tocar nas aldeias com amigos dentro

mas houve nambuangongos que tu não viste
quando da poesia te serviste usurário
para chegares a poeta secretário ourives da
palavra e construtor de frases preciosas

mas daquela triste e leda madrugada
já nem resta uma mão a acenar
nem o comboio que em frança te deixou
tão longe da partida

II

pobre manel-poeta-secretário com modos de ministro
pobre poeta-doente-marcial
com a poesia embrulhada como um quisto
em papel de jornal
estás feito em oito ouvistes
estás feito em vinte
estás feito em mil
mas já não és o cantor da nossa terra
alegre-secretário
nem deves ler os poemas do manel-poeta
o manel-otário

o que dava a voz pela justiça
e tinha uma arma carregada de poemas
sendo a seu modo próprio guerrilheiro

senão como seria ao encontrares
à esquina das palavras
o rosto velho velho desse desconhecido

talvez lhe instaurasses um processo
por ser subversivo ou melhor
através de subsídio comprovado
o levasses a poeta-oficial

pois é a vida custa caro
e comer em restaurantes conhecidos
não está ao alcance de qualquer poesia

mas do magistral soneto
de torneada frase
de sempre belo efeito
saída dum poeta
que faça a preceito
rima ministerial

como estás mudado alegre
que se fez triste e tão triste não resiste e é
manel-contente manel-parente
manel sempre presente
à recepção na embaixada americana
num requintado gosto socialeiro
já foste manel sério manel pantomineiro


III

é uma desgraça que as mulheres
do teu país te hajam conhecido
assim enfatuado
como peru para a matança
desesperado por não entrar na dança
que agitava a populaça
e ameaçava os teus louros no alto da carcaça
que o tempo há-de comer
e a estátua conservar
se não manel
onde é que os pombos da
edilidade irão cagar

IV

ai esta carta já vai tão longa
como a desilusão que nos deixaste
quando repentinamente te mudaste

não foi por mal a gente sabe
só querias ser governo
não eras oposição mas desespero
de te não deixarem subir
para o poleiro

por isso manel não perdoo
teres traído a praça da canção
e nos cavalos do vento que perdeste
voarei ao coração de cada português
a implantar a semente da bandeira
que camões de todo cego tu não vês

é o fim manel a minha despedida
só para te lembrar que não há ministério
que dure toda a vida
2 - E hoje?

Não sei se serei um português, como tantos outros, desiludido. O mundo sócio-politico apodreceu. São as felgueiras, os "majores", os avelinos, esta sociedade que se perde em mentiras e descrenças e me deixa de novo com a necessidade de arejar os trapos da casa.

Não sendo já nenhum crédulo na bondade intrínseca das pessoas ou dos sistemas, revoltou-me tudo quanto venho a ver sobre as movimentações políticas, autárquicas e presidenciais, sobretudo nas designações, activas ou previsíveis, para as candidaturas à presidência da República.

Confesso que não levei, de inicío, muito a sério a candidatura de Manuel Alegre. Mas depois do que vi, desejo ardentemente que essa candidatura avance. No mínimo para arejar o pântano.

Manuel Alegre disse estar preparado para avançar e confessou que não tinha aparelho que o apoiasse. E de facto não o terá se nós não decidirmos o contrário.

Podemos organizar-nos em comissões de rua, bairro ou cidade. Podemos contactar uns com os outros e promover acções de apoio, propaganda e recolha de fundos. Podemos dizer assim que o país também é nosso e que estamos a ficar fartos da sopa que nos dão a comer.

Isto é connosco. Ou ficamos quietos e merecemos tudo o que venha a acontecer, ou dizemos basta e metemos mão à obra.

Eu estou pronto! Apareçam por cá!

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publicado por Carlos Alberto Correia às 14:47

Manuel Alegre - Lista de Apoio

Domingo, 25.09.05
Sobre o título "Movimento Cívico de Apoio à Candidatura de Manuel Alegre" corre na Internet uma listagem que procura atingir as 15.ooo assinaturas.
O endereço é http://www.thepetitionsite.com/takeaction/299873327?ltl=1127651815
Companheiros/as saiam da inactividade e vamos dizer que o país não pertence à minoria que o dirige, mas a todos nós.

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publicado por Carlos Alberto Correia às 12:40

Eu Apoio Manuel Alegre

Domingo, 25.09.05
Criei este Blog para apoiar a candidatura de Manuel Alegre à Presidência da Républica. Este texto é um mero ensaio.

Voltarei brevemente.

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publicado por Carlos Alberto Correia às 11:51








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