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Barreiro – A centralidade periférica

Sábado, 21.01.06
Trace-se um círculo ao redor da Grande Lisboa. No centro, no âmago dessa massa de gentes e construções, situa-se o Barreiro. No entanto, é mais excêntrico, mais periférico, que as periferias geográficas. A que se deve tão estranha contradição?

Delineemos uma brevíssima incursão sob a história moderna do Barreiro. Criado por gentes marinheiras que se foram radicando junto ao rio foi, mais tarde, acrescentado por ferroviários e operários das indústrias químicas. Nasceu assim uma urbe diversificada nos pólos de desenvolvimento mas unida na vida associativa e política.

O seu acentuado querer de esquerda não lhe granjeou simpatias nem benefícios na ditadura. Apesar disso e mercê da força do seu colectivo sobreviveu e a industrialização, acompanhada de fenómenos de imigração, desenvolveram, embora de forma algo caótica, a urbe.

Era de esperar que com os alvores da Liberdade um surto de progresso e modernização rebentasse na então vila da pertinaz resistência. Contudo, por fenómenos que podemos enumerar mas que só os sociólogos poderão analisar em profundidade, o Barreiro começou a ser lentamente estrangulado.

Porque é que sendo, durante tantos anos, um centro Ferroviário se viu despossuído do seu terminal e o comboio que liga a Margem Sul a Lisboa parou primeiro no Fogueteiro e depois avançou para Coina, evitando o Barreiro?

Porque é que a Ponte Vasco da Gama, envolta na polémica do seu posicionamento, foi desviada do Barreiro, local de mais forte densidade populacional, e a colocaram em zona desviada onde menor serviço poderia fornecer a esta população?

Porque é que o Metropolitano, em perspectiva, continua em cortes e plantas com miríficas datas marcadas e nenhuma solução à vista.

Se a estas interrogações acrescentarmos os efeitos do encerramento das fábricas da Quimigal, sem que outras unidades produtivas mais modernas e eficientes a tenham substituído, começamos a vislumbrar os motivos, induzidos por estranhos interesses, que estão a levar o Barreiro a uma dolorosa estagnação.

O comércio tradicional agoniza cercado pelos grandes Centros Comerciais implantados nos arredores distantes da Metrópole. A população começa a envelhecer e a diminuir, incapaz de fixar os seus jovens que procuram vida em zonas menos afectadas pelas crises nacionais ou locais, assim se entardecendo uma cidade!


No entanto, com um pouco mais de atenção dos Poderes, poder-se-ia dar prontamente um rejuvenescimento do tecido sociocultural e económico desta urbe. Esperamos pelo Polis; pela reclassificação urbana; pela devolução do rio à paisagem e lazeres da população; pela possibilidade de alargamentos do pólo de estudos superiores; pelo desenvolvimento de uma indústria forte, não poluente e actualizada; quem sabe por companhia residente de teatro, orquestra, bandas e outras actividades de religação social e, talvez, da nunca construída ponte ferro-rodoviária aproximando de vez esta centralidade periférica do centro a que realmente pertence.

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publicado por Carlos Alberto Correia às 13:15








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