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O dado e o enunciado

Quinta-feira, 13.12.07
Posted by Picasa



Reconheço! Embirro completamente com a ministra Maria de Lurdes. Detesto o seu ar lânguido, melancólico e crispado, o discurso de melífluo autoritarismo, o manifestar de intenções para as escolas a que corresponde, maioritariamente, uma prática absurda e contrária ao enunciado.

Se bem se lembram, quando a pessoa se sentou na mula do poder, afirmou o seu propósito de melhorar a imagem dos professores, reforçar o poder disciplinador e de, assumindo ser a educação o ponto fulcral para o desenvolvimento do País, vir animada da vontade de transformá-la no instrumento essencial para o salto qualitativo da Nação.

E se bem o enunciou, mal o fez.

Os principais problemas da educação estão desde há muito levantados: falta ou inadequação de equipamentos, sobrepopulação das escolas e das turmas, inexistência de locais de trabalho adequados, desinteresse e indisciplina de uma boa porção dos alunos.

Grande parte destas situações é devida à massificação do ensino, sem a outorga de meios suficientes para fazer face a tal mudança e sem terem sido traçadas perspectivas adequadas às realidades e às funções renovadas da escola. Também assistimos a um vendaval de reformas iniciadas por um governo e abortadas pelo seguinte.

Presenciámos, de bancada, o desmoronamento do edifício escolar por excesso de carga e incompetências governamentais.

Com a entrada desta ministra para o pelouro, veio um discurso de rigor no ensino e na aprendizagem, exigência de qualidade e dignificação do papel do professor. Dado o caos em que as coisas estavam não parecia difícil cumprir o enunciado. Bastaria um trabalho sério de organização, distribuindo os recursos de forma eficaz, agrupando os professores em torno de objectivos claros e atribuindo os meios para se alcançar os fins.

Fácil, não é?

O que fez a ministra?

Olhou para a escola e viu um enorme custo financeiro. Coitada, não percebe a diferença entre custo e investimento! Considerou que os maus resultados escolares eram exclusivamente culpa dos professores e abriu, contra eles, uma guerra que conduziu ao resultado inverso da enunciada política de dignificação dos docentes. Tentou, e durante algum tempo conseguiu, virar a população contra os professores, apontando-os como uma classe incompetente e de madraços, gozando privilégios excessivos. Com o pretexto de igualizar esta classe com o regime geral quebrou, de forma leonina e unilateral, o contrato de trabalho até aí existente, sem ter em conta a especificidade do acto pedagógico. Introduziu de maneira artificial a divisão entre professores concebendo, de modo arbitrário, a categoria de professor titular, inserindo no sistema uma divisão em que a qualidade pedagógica quase não foi tida em conta e onde os cargos burocrato-administrativos, desempenhados nos últimos sete anos, tinham peso determinante, alimentando, assim, uma atmosfera de mal-estar e um sentimento de injustiça generalizados.

Mas fez mais. Atafulhou os professores de trabalhos administrativos, retirado ao tempo de preparação de aulas, elaboração e correcção de trabalhos, tempo de maturação e avaliação, induzindo a deterioração da qualidade pedagógica e a fabricação de dossiês demonstradores de uma qualidade meramente documental.

O ensino que devia ser criativo e interessante transforma-se, assim, num vórtice de tarefas onde a qualidade do mesmo e a atenção ao aluno são preteridas a favor de representações escriturais e de permanências alongadas e, por falta de estruturas de apoio, improdutivas.

A cerejinha no cume do bolo é, porém, a nova legislação sobre as faltas dos alunos. O seu objectivo declarado é o de “salvar” o aluno absentista e desinteressado. Como se faz? É simplérrimo, se o aluno não se interessa e não vai às aulas não chumbará por faltas. Não senhor! Qual quê? Ser-lhe-ão feitos teste de recuperação até que o discente venha a “demonstrar” um saber que não quis adquirir e não se percebe onde o irá obter.

O pensamento profundo que subjaz nestes princípios continua a ser o da guerra da ministra contra os professores. Se o aluno falta não é por sua culpa ou desinteresse, é porque o professor o não sabe cativar. Logo, castigue-se o professor!

Deste modo, de uma só penada, a querida ministra consegue destruir a possibilidade dos professores manterem alguma disciplina em turmas de trinta alunos - onde nem todos pretendem aprender - e, obrigando a passagens estatísticas compromete o futuro do País e dos educandos que parece proteger. Lá teremos de novo, como nos tempos salazarentos, um nível estatístico de literacia mais elevado que o real, lançando na vida uma quantidade de novos iletrados funcionais.

O custo desta política cega pagá-lo-á o País em termos de desenvolvimento.

Uma outra medida ministerial é a da permanência dos professores, durante três anos, na escola onde foram colocados. Se em termos de estabilidade dos estudantes podemos aceitar esta obrigação, já a forma como a mesma foi estabelecida produz, mais uma vez, resultados antagónicos aos previstos.

Senão, vejamos.


Quando qualquer empresa privada pretende deslocar um seu colaborador para local diferente daquele para onde foi contratado é, legalmente, obrigada a pagar-lhe as viagens, despesas de alimentação e alojamento e a atribuir-lhe ainda uma ajuda de custo que minore os incómodos e os acréscimos de despesas tidos com essa deslocação. Isto é normal e justo, mas não é o que se passa com os professores. Se dois professores, casados e com filhos, forem colocados em escolas distantes terão que ter, no mínimo por três anos, duas casas em locais diferentes, divisão de filhos ou entrega a avós, e despesas de manutenção acumuladas, não recebendo, em troca, nada mais que o seu salário normal.

Esta situação é injusta e inumana mas é assim que a ministra vê a aceita as coisas. Tudo em nome da dignificação dos professores, do benefício do ensino, do fortalecimento da família.

Tantas e mais malvadezas, que não cabem neste escrito, só podem resultar de uma inépcia inaudita, de um ódio cego ou de uma estratégia de desvalorização do ensino oficial.

Quanto a mim, é aqui que bate o ponto.

Criada a instabilidade emocional e profissional dos professores, relaxadas as regras de obtenção de conhecimentos e civilidade, comprometida a competência adquirida no ensino oficial, quais serão os pais que, fazendo das tripas coração, não hipotecarão as suas vidas para pagarem aos seus filhos um ensino que possibilite uma garantia de futuro? E onde o poderão fazer? No ensino particular, evidentemente!

Não é pois por pura maldade ou incompetência que a ministra age. Norteia-a o pensamento economicista e neoliberal de que não é ao Estado que cabe garantir a educação dos seus cidadãos, de modo tendencialmente gratuito, mas que tudo se mede pelo lucro imediato ou pela supressão de despesas. É a absurda noção de que a escola deverá ser gerida como uma empresa. Daí resulta que, o mesmo que um ministro de direita disse a respeito da saúde, pensa esta ministra sobre a educação:

- Quem a quiser que a pague!



Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt



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publicado por Carlos Alberto Correia às 21:51


5 comentários

De António Gama a 14.12.2007 às 07:22

Sócrates é muito distraído. Quando mandou a senhora para a escola (foi isso que ele disse) a senhora foi para o Ministério ! Assoberbado pela Europa o Senhor Primeiro não deu pela ousadia da hoje Ministra; mas segundo consta, esta vai, em breve, no bico da gaivota.
A mula da educação ( a educação é que é a mula não a ministra) tem que ser montada por um cavalo e não por um burro. Entendamo-nos.
Abraço.
kira

De Pézinhos n' Areia a 20.12.2007 às 18:41

ó meu Caro Amigo Dr. Carlos Correia, que "injustiça" de discurso !!! (risos ...)
Deixe-me que lhe diga que eu até percebo a lógica da "mula" da educação.

Ou não tivesse sido esta "mula" minha prof. de sociologia das organizações, no ISCTE, quando o Caríssimo Dr., foi meu colega, no 1º ano, em tronco comum, no grupo dos doidos de "antro". Sim, porque os de "socio" não são doidos ... são lá ... agora (mais risos...).

en passant ...

Eu até gostava da "pikena". Aprendi umas coisas com ela. Sobretudo, na área da cultura das organizações.

Só que, meu querido amigo, quando as pessoas entram para o "sistema" (com aspas ... note !), ou seja, quando chegam a ministros, senão levaram a vacina contra a arrogância, a prepotência e o autismo, antes de entrarem, dá nisto !
Quero, posso e mando ... e mai nada !!!
pois ...:-(

Mas em bom rigor, algumas medidas tomadas pela "pikena" fazem todo o sentido. Fede na educação, em termos de qualidade profissional. Em consciência, diga lá o amigo se não há professores que precisam de ir de bico, para não comprometerem mais gerações do que aquelas que já comprometeram, em termos de transmissão de Valores e Saber ?

Vá lá seja sincero...
Tenho razão, não tenho ?

Eu sei que o Caro Amigo me compreende. Sempre me compreendeu ...

Quem sou eu ??? olha, olha ... descubra ! ehehehehe ...ai que mázinha que eu sou.


... um Feliz Natal (fernanda e pedro incluídos), e muito dinheirinho para prendas. Coisa que por aqui, nos meus bolsos não abunda...É a vida ...

E fique bem, 'tá ?

PS - há uns tempos tb deixei aqui um comentário assim meio tonto, como este.

:-)))))))

De prof.essa a 23.01.2008 às 00:18

Olá Carlos,
obrigada por ser o paladino dos professores. Enquanto nós nos amortalhamos na nossa natural inércia, enquanto classe, e pouco fazemos enquanto indivíduos, que não seja obedecer, ainda bem que há quem possa falar livremente. Vá lá um de nós , neste momento de quase ditadura, dizer o que pensa abertamente que se levanta imediatamente uma qualquer voz da oposição. As escolas passaram a ser o espaço da escuta e do vai dizer/ leva o recadinho à chefe. Por este andar, entramos mudos e saímos calados, ou não... não me interessa, a indiferença contaminou a nossa classe moribunda. Os mais velhos querem abandonar o barco urgentemente e já aceitam a ideia de ver a sua mensalidade bastante reduzida, só para não aturar um sistema que nos vai destruir. Nunca as nossas classes, a dos titulares e a dos outros, que são meros e humildes professores, sentiram a indiferença recíproca. a separação inevitável. Parabéns à Ministra e sua comitiva que bem souberam analisar as nossas almas mesquinhas.
Assinado:Professora incógnita e amedrontada? Hum???Carolina

De Carlos Correia a 24.01.2008 às 16:34

Viva Carolina. Ainda bem que não passaste à clandestinidade. É preciso dar luta aos vampiros. Para que não te sintas só, retirei da Wikki esta entrada sobre o "burnout" dos professores:


"A burnout de professores é conhecida como uma exaustão física e emocional que começa com um sentimento de desconforto e pouco a pouco aumenta à medida que a vontade de leccionar gradualmente diminui. Sintomaticamente, a burnout geralmente se reconhece pela ausência de alguns factores motivacionais: energia, alegria, entusiasmo, satisfação, interesse, vontade, sonhos para a vida, ideias, concentração, autoconfiança e humor.
Um estudo feito entre professores que decidiram não retomar os postos nas salas de aula no início do ano escolar na Virgínia, Estados Unidos, revelou que entre as grandes causas de stresse estava a falta de recursos, a falta de tempo, reuniões em excesso, número muito grande de alunos por sala de aula, falta de assistência, falta de apoio e pais hostis. Em uma outra pesquisa, 244 professores de alunos com comportamento irregular ou indisciplinado foram instanciados a determinar como o stresse no trabalho afectava as suas vidas. Estas são, em ordem decrescente, as causas de stresses nesses professores:
• Políticas inadequadas da escola para casos de indisciplina;
• Atitude e comportamento dos administradores;
• Avaliação dos administradores/supervisores;
• Atitude e comportamento de outros professores/profissionais;
• Carga de trabalho excessiva;
• Oportunidades de carreira pouco interessantes;
• Baixo status da profissão de professor;
• Falta de reconhecimento por uma boa aula/por estar ensinado bem;
• Alunos barulhentos;
• Lidar com os pais.
Os efeitos do stresse são identificados, na pesquisa, como:
• Sentimento de exaustão;
• Sentimento de frustração;
• Sentimento de incapacidade;
• Carregar o stresse para casa;
• Sentir-se culpado por não fazer o bastante;
• Irritabilidade.
As estratégias utilizadas pelos professores, segundo a pesquisa, para lidar com o stresse são:
• Realizar actividades de relaxamento;
• Organizar o tempo e decidir quais são as prioridades;
• Manter uma dieta balanceada e fazer exercícios;
• Discutir os problemas com colegas de profissão;
• Tirar o dia de folga;
• Procurar ajuda profissional na medicina convencional ou terapias alternativas.
Quando perguntados sobre o que poderia ser feito para ajudar a diminuir o stresse, as estratégias mais mencionadas foram:
• Dar tempo aos professores para que eles colaborem/conversem;
• Prover os professores com cursos e workshops;
• Fazer mais elogios aos professores, reforçar suas práticas e respeitar seu trabalho;
• Dar mais assistência;
• Prover os professores com mais oportunidades para saber mais sobre alunos com comportamentos irregulares e também sobre as opções de programa para o curso;
• Envolver os professores nas tomadas de decisão da escola/melhor comunicação com a escola.
Como se pode ver, o burnout de professores relaciona-se estreitamente com as condições desmotivadoras no trabalho, o que afecta, na maioria dos casos, o desempenho do profissional. A ausência de factores motivacionais acarreta o stresse profissional, fazendo com que o profissional largue seu emprego, ou, quando nele se mantém, trabalhe sem muito esmero."

De prof.essa a 24.01.2008 às 23:16

Olá Carlos,
Então estou completamente «burned out»! A sério, o que me vale é a amizade que existe no nosso pequeno grupo (ora bem, cinco dedos chegam para contar...), mas temo pelo dia em que o grupo possa sentir o peso da repressão e comece a afastar-se do principal: trabalho em conjunto, partilha, ombros fofinhos para verter algumas lágrimas. Acredita que é o que me move, saber que posso contar com ele, e claro, os alunos! Coitados, a gente até se esquece, no meio de tanta trapalhada, que é para e por eles que andamos neste vida. E os pobres tb precisam de nós, pois, frequentemente somos mais pais do que professores. Eu, pelo menos, como não consigo ser mãe a tempo inteiro (por ex. ainda não tenho a ficha informativa do meu mais velho, pois terei de faltar às aulas para poder deslocar-me à escola dele e, por acaso, nem convém faltar...), por isso, enquanto mãe, espero que ele tenha professoras simpáticas, com paciência para o ouvir e aconselhar (como eu normalmente faço)e que, principalmente, ainda não sofram com o fenómeno do «burnout».
É sempre um prazer dialogar consigo.Prometo voltar! (Descobri que ler os blogs favoritos constitui uma terapia ocupacional e bastante destressante, por isso, voltarei!).
Carolina

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