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“Me Too”, Assédio e oportunismo

Domingo, 11.02.18

 

 

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Quanto me recordo foi assediado, em toda a vida, duas vezes. Bem, não fiquem com esse ar espantado - como deve ter ficado o Deputado Morgado quando ouviu, de Natália Correia, o poema do Truca-truca - porquanto uma coisa é ser requestado (o que é ótimo) outra, bem diferente, é assediar ou ser assediado.

 

Voltemos, porém, à afirmação inicial desta crónica.  A primeira vez foi, quantos e quantos anos já passaram, quando no Metro, uma atriszeca, ao tempo em auge de fama, pequena de corpo como, mais tarde revelou, também o ser de espírito (e não esperem que divulgue o nome pois não tenho vontade nenhuma de, além de vítima de assédio sê-lo ainda de processo judicial) tentou, entre o Saldanha e a Avenida, uma visível aproximação com o ego. Começou por uns sorrisos, os quais creio considerava sedutores e a mim só pareciam repugnantes, a que não correspondi, desviando, inclusive, o meu olhar da pessoa. Se tivesse o conhecimento, que hoje tenho, de tal ser, perceberia ser essa atitude incompreensível para ela. No íntimo, talvez convencida pela fugaz notabilidade obtida, pensaria só poder ficar agradecidíssimo pela sua atenção. Por isso abandonou o lugar onde se sentava, deslocou-se para o varão onde procurava equilibrar-me, dirigiu-me uns piropos (para mim situação inédita) a deixarem-me incomodado não pelo inédito da situação, sim pela falta de hábito. Perante o meu assombro, aproveitando o tombolear da carruagem, uma das suas mãos, acompanhada de palavras pretensamente sugestivas, colocou-se sobre a minha e, para afastar quaisquer dúvidas, a outra veio, em sugestivo apertão, enclavinhar-se-me nos glúteos – forma airosa para não escrever, na crónica, rabo. Nunca, em nenhuma das situações lhe dei assentimento às manobras, sempre lhe demonstrei, com evasões e semblante, o quanto estaria desagradado. A nada ligou até que, em desespero de causa, olhando-a de cima para baixo, lhe sussurrei, cresça e vote na CDE (ao tempo estávamos em campanha eleitoral), abandonando o Metro nessa mesma estação.

 

A segunda vez passa-se no escurinho do cinema. Embrenhado no filme fui retirado do fascínio por uma leve pressão do braço por alguém que compartilhava comigo o amparo lateral direito da cadeira. Olhei! Um homem de meia-idade, fixado no ecrã fazia parecer casual o ligeiro toque. Descontraí! Pouco depois o braço chegava-se mais e a mão descaía ligeiramente para a minha perna. Aí, já sem dúvidas, murmurei-lhe ter pago um bilhete para uma cadeira inteira e que se não se apercebesse da fronteira que tal representava e estava a ser violada, se arriscava a ter de ir ao hospital para reparação do intrusivo braço. Pouco depois desandou e foi sentar-se umas filas atrás.

 

E pronto! Por aqui ficaram as cenas de assédio, de que me dei conta, a que fui submetido e garanto não me acusar a consciência de alguma vez o ter feito a alguém.

Considero que a escolha mútua de dois parceiros são o que de mais belo, grácil, poético, enformador de vida pode acontecer-nos. É um momento mágico aquele em que a escolha e o assentimento são produzidos. Enriquecem-nos enquanto seres humanos, enquanto portadores/dadores de afetos, enquanto gente que se escolhe e acolhe. Estamos entendidos?

 

Direi também que qualquer pessoa, violentada nos seus quereres e aceitações, tem o absoluto direito de denúncia e reposição. Já me “encaganita” o bestunto o facto de, na esteira de gente corajosa e de iniciativa, uns quantos oportunistas tentarem cavalgar a onda, procurando créditos imerecidos para os mais esconsos fins.

 

Quando apareceram as primeiras denúncias, no caso Weinstein, o mundo, hipocritamente, abriu a boca de admiração e escândalo, como se não soubesse, há décadas, como as carreiras se faziam na Meca do cinema – e não só aí - mas em toda a parte onde os percursos se constroem e dependem de gente (homens ou mulheres, embora em proporções diferentes) com poderes para tal.

 

Admito mesmo que alguém, sentindo-se violentado, por míngua de escolhas, possa ter encolhido a dignidade, aceitado com repulsa a imposição e, só muitos anos depois, livres do poder que o submeteu, tomasse a coragem necessária à denúncia tardia, mas vigorosa. Penso, também, que em certas coisas mais vale tarde que nunca. O que não aceito é a torrente oportunista que daí decorre. O exagero! Só para me referir a Hollywood, saliento a caterva de estrelas em perigeu e ansiosas candidatas a acorrerem ao movimento, na busca de um pouco de holofote sobre elas. É agoniativo e conduz, no limite, às barbaridades de quebras de espontaneidades e romance, em troca de contrato revisto por advogados a atestarem o que, como e quando, cada casal pode comportar-se ao efetivar as suas relações.

 

Igualmente degradante é quando outras estrelas – na maior parte europeias – relembradas da dura e longa luta de libertação sexual apontam outros caminhos, serem ofendidas por algumas furiosas dramáticas, de um feminismo de sinal semelhante ao machismo dominador –acusando-as de serem perpetuadoras da submissão feminina. É triste! É fundamentalista e todos os fundamentalismos são perigosos e autoritários. Entre eles aqueles que, vindos da Igreja, apelam ao consentimento de não se consentir sexo entre casais de segundas núpcias.

 

Tanta estupidez e oportunismo provocam-me um nó no estômago deixando-me em acentuado risco de incivilizado vómito.

 

 

Publicado em www.rostosondline 

 

 

 

 

 

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 00:09

Momentos para inventar o amor -1

Sábado, 10.02.18

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Para aguçar a curiosidade, pré-publicação de “Momentos para inventar o amor”, e-book a sair brevemente. Editora Simplissimo, Brasil

 

 

Sentir-me-ei meio embriagado de espaço. Verei o sol a baixar no horizonte, o rio a marulhar calmo nas pedras da escadaria. Estarei sentado no murete no lado da coluna da direita do cais, pensar-me-ei lá mais abaixo, no local onde a água beija a pedra, olhando, como sempre o longo do rio. Na ponte passará o tráfego semelhante a manchas deslizantes. Tu chegarás e juro, dar-se-á uma mudança no ar. Coisa subtil, no vértice da perceção. Obrigatoriamente olhar-te-ei. Os sóis de verão ter-te-ão passado pelo corpo, morada de perfeição. Vestirás de branco, em contraste com o moreno da pele, da cor da madeixa, estreitando da frente para trás, ao correr dos cabelos pretos, apanhados no local onde o calor te perlará, de leve transpiração, a nuca. Saberei de imediato. Em ti o destino. Repararás distraidamente em mim. Ao ondular da brisa juntarei a tua mão a resguardar o leve movimento da saia. Virás porém, acompanhada e desatenta. Não poderás adivinhar as consequências deste encontro. Após o primeiro instante desviar-te-ás para os amigos, para conversas onde não estou. O teu nome será Valéria. Poderei compor a antecipação.

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 12:40

Desculpem lá!

Domingo, 31.12.17

 

 

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Este não será o mais apropriado tema para a noite de ano novo, porém, alguma preguiça e vários afazeres, têm-me feito procrastinar o alívio verbal de um incómodo a aguilhoar-me com persistência. No entanto, o artigo do Expresso, de ontem, de autoria de Ricardo Costa, “O caso em que Angola tem razão sem a ter”, obrigou-me a sair do casulo e a debitar palavra.

 

Em tom cauteloso de balanço, o articulista foi mostrando os prós e contras das posições de Angola e Portugal, sobre o caso no qual o ex-vice-presidente de Angola, Manuel Vicente, é arguido de corromper um magistrado do Ministério Público.  No seu todo o artigo expandia razões a favor de Portugal – a independência do Ministério público – e de Angola, nascida do putativo direito de cada país independente ser livre de habilitar qualquer dos seus representantes, com imunidade diplomática. Indiscutível qualquer um destes direitos! No entanto…

 

No entanto nem tudo o aceitável, nos campos políticos e diplomáticos, o é, em termos de ética e direitos humanos.

 

Sejamos mais explícitos!  Recordam-se do caso do embaixador do Iraque? Pois, os jovens energúmenos, habituados à cultura do posso, quero e mando, provenientes de sociedade onde os direitos humanos são uma treta e a diferença e submissão cultural campeiam, talvez tenham levado um ralhete do pai – obrigado a indemnizar, por acordo, o agredido – mas, imunes como eram, lá ficaram livres para fazer coisa semelhante em qualquer outra república das bananas, que aceite o crime civil a troco de qualquer suposta boa relação entre nações. É claro que isto, que parece ser do mais trivial bom senso, não passa de má ficção. Se bem me lembro de algumas noções básicas de ciência política, as nações não têm amigos. Negoceiam interesses e fazem alianças conformes as suas conveniências. Pode, por isso, o amigo de hoje ser o adversário amanhã, independentemente de se respeitar ou estar nas tintas para as imunidades políticas, as quais foram criadas para servir situações bem diversas de malfeitorias individuais.

 

Se levarmos ao extremo o valor imunitário de postos de mando e diplomacia, teremos de condenar os Tribunais de Nuremberga e de Haia, por desrespeito a tais prerrogativas. Soa um bocadinho absurdo, não é verdade?

 

Claro que, no caso da corrupção do magistrado, não está em jogo um crime contra a humanidade. Mas, com imunidade ou sem ela, corrupção é sempre corrupção e são somente interesses particulares que estão em jogo, independentemente da qualidade dos intervenientes. Ou por outra. Quanto maior a qualidade de representação de cada um, maior deverá ser o ónus a suportar pelo cometimento de qualquer crime.

 

E a provar-se ser verdade o suborno anunciado, estamos perante dois criminosos a tripudiarem sobre a lei por interesses particulares! Daqui ninguém me tira!

 

Portanto, sabendo ser a política a arte do possível, mas defendendo nem tudo ser aceitável, não consigo perceber porque não poderá o Estado Português, lesado no negócio entre os acima citados, perder o direito de levar a juízo quem contra a sua lei prevaricou. Ah! Dizem-me! Mas ele foi governante de Angola e nenhum país soberano gosta de ver os seus representantes alvo de arguições judiciais de qualquer outro país. Para além disso temos muitos emigrantes em Angola e um enorme montante de negócios, contratos e tratados. Isso que tem? Perguntam o Direito e a Ética. Perde-se muito dinheiro, relações e influência. Podemos mesmo ser substituídos, nos negócios, pela França ou por Espanha, respondem políticos e financeiros. Bem, bem, bem! Não sou ingénuo e conheço razoavelmente o mundo da finança. No entanto reparo que estes últimos, fazendo orelhas moucas ao Direito e à Ética, conduziram e estão a conduzir, o mundo para um futuro desgraçado. É num mundo assim que querem viver? Um negócio vale mais que um direito?

 

Então em que ficamos? Para mim é muito simples. O presumível corrompido é português e o facto ocorreu em Portugal. Ambos devem ser julgados aqui, ainda que algum à revelia. Provado o facto, condenado o homem, se Angola persistir na sua posição – e sabemos que também lá a classe dirigente não se obriga às mesmas leis dos mortais comuns – resta sempre a possibilidade de emitir um pedido de captura internacional. Desde modo, o importante senhor -  que não pode ser julgado pelos maus atos cometidos – poderá andar livre em Angola, mas, se sair para qualquer outro país, correrá o risco de passar pelo que Pinochet passou.

 

É que, meus senhores, mesmo neste tempo conturbado em que vivemos, não poderá valer tudo… mesmo tudo.

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publicado por Carlos Alberto Correia às 19:17

Falar de mim

Quinta-feira, 09.11.17

 

 

 

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Não se importam de parar um pouco o coro de protestos? Certo! Parece muito desplante de qualquer meco utilizar o espaço do jornal e a paciência dos leitores, com a arrogância de um discurso sobre si próprio, isto como se cada escrito, cada crónica, por muito que aparente distância do autor não fosse, de outra forma, o seu reflexo no espelho. Que mais não seja porque, escrevendo-se sobre coisa diversa, continuamente se estará a escrever nos moldes em que pensa o mundo, a partir de si, das suas experiências, gostos e decisões. Já lá dizia Barthes, “quem fala, fala-se”, ou, traduzindo para o assunto em causa, quem escreve, sempre se escreve.

 

Se aguentaram até aqui a discursata em que me envolvi, terão o direito absoluto a exigirem-me as razões da mesma. E o anterior pedido de acalmia nos protestos nasce do reconhecimento de que têm esse poder. Vou, pois, por ínvios caminhos, ao assunto.

 

Pertenço ainda à geração do livro! Neste momento, certamente, o coro de protestos recrudescerá em bastos, também eu, também eu! Sei muito bem ser isso verdade. Para ser sincero a maior parte de nós faz parte dela. Lembro-me de quando, em início de adolescência, conseguia uns cobres para comprar algum livro cobiçado desde há muito, correr para casa, agarrar num corta-papéis e entre emoção e nervosismo, abrir as páginas, deixando sobre a mesa as raspas de papel sobrantes ao sacrifício da abertura original. Nesse tempo o livro era assim! Comportava um ritual desvirginador garantindo, a quem o comprava, ser o seu único e primeiro possuidor. Estão a ver a semelhança com os rituais núbeis? Pois, em sociedade as coisas não só se tocam como vão mudando com os tempos. A tradição é uma grande mentira securizante!

 

O que foi de gritos e destemperos (estou a exagerar) quando os livros começaram a aparecer aparadinhos, folhinhas abertas a todos e certinhas no corte, nunca sabendo o comprador quantos mais teriam passado os dedos molhados na língua e os olhos ávidos pelas suas páginas. Os brados lancinantes, os anátemas garantidos, não mudaram o produto industrial e, vejam lá, estenderam-se às relações amorosas. A virgindade deixou de ter sentido absoluto tornando-se o objeto livro, ou a pessoa feminina, valores por si próprios, independentemente de terem, ou não, sido primordialmente tocados por outras mãos. É o efeito do tempo, a mudança de valores, a acompanhar e a produzir serventias técnicas e sociais diferenciadas. Os conservadores bramiram por muito tempo o descontentamento, mas a tradição foi-se tornando outra, fortificando, ganhando raízes, obrigando pela omnipresença à diminuição paulatina dos bramadores do antes é que estava bem.

 

Perguntar-me-ão de novo, para que serve tudo isto? Porque estou a perder o meu tempo a ler este tipo? Pois, a curiosidadezinha, o querer saber para onde os quero, docemente, conduzir. A desagradável e fria resposta é a enunciada no título: a mim!

 

Então porque fala de livros, de virgindades e absurdos congéneres? Porque, meus amigos, lhes vou dar uma notícia em primeira mão. Claro, ela importa sobretudo ao próprio, mas, para além do egoísmo demonstrado, pode ser que, por algum modo, vos venha também a interessar. Sabem, o escritor é um autocentrado megalómano. Parte do princípio que o escrito não só tem quem o procure e espere, como poderá alterar comportamentos, modos de pensar, estilos de vida. Esteja embora por provar, não deixa o escriba de, mesmo não o confessando abertamente, ter lá, muito no fundo, este bichinho de esperança a roer-lhe a expectativa.

 

Pois a notícia, estão a ver como eu estendo o mistério buscando que a curiosidade do leitor supere o tédio do discurso, é que vou mudar de paradigma!

 

Pressinto os vossos olhos a abrirem-se de admirados, na boca um sopro irónico, a pergunta desencantada: que quer ele dizer e o que tenho a ver com isto? Com mais um pouco de paciência, lá chegaremos.

 

No tempo dos livros abertos com espátula eram eles objetos caros, raros, valiosos. Não existiriam no país muitos editores. Conseguir a publicação “do Livro” exigia um percurso de artigos em revista, jornais, referências académicas e mais um rol de coisas de aborrecida enumeração. Chegados lá, porém, seria a consagração. Era assim como erigir um farol ou um altar. Haveria dissidentes? Certamente! Mas o feito estava firme nas montras das livrarias, nas estantes das bibliotecas, nos suplementos da imprensa, nos ensaios a respeito. Com o livro aparadinho chegou maior facilidade de publicação. A técnica passou da tipografia ao “offset”, as chapas podiam guardar-se para novas edições, os preços diminuíam. Muito mais gente começou a publicar e livros e autores dominaram a praça publica. Nessa altura o Editor era ainda uma figura respeitada e interessada que, escolhida a obra, a acompanhava desde a releitura e correção, passando pela impressão, divulgação e distribuição do livro. Este era o seu trabalho! A ele se dedicava a tempo inteiro, pugnando pelo êxito da obra.

 

Os tempos e as técnicas continuaram a mudar. Tornou-se fácil editar fosse lá o que fosse. O Editor dedicado transformou-se num funcionário, muitas das vezes a recibos verdes e pelo tempo de duração de um estágio, que, na ótica do patrão, procura menos, ou quase nada, a qualidade do texto, visando meramente o cálculo de quanto pode render. Tais empresas de serviços, arvoradas em editoras, fazem livros como poderiam fazer tijolos ou ensacar feijões, caso tais atividades se revelassem mais remuneratórias. Assim, em grande parte, exigem ao autor o pagamento de edição, contra a aposição de uma chancela que liberte o livro da menoridade de edição de autor, e, recebido o dinheiro, produzem meramente o número de exemplares requeridos pelo consumo imediato e declarado, deixando o autor sozinho, não distribuindo nem divulgando o livro. A edição deixou de ser sinónimo de gosto, de bem escrever e passou a estar disponível para quantos, tendo o necessário poder de compra, entreguem os originais nesses mercadores de folhas agrupadas. Por isso nunca se publicou tanto, tão mau e cada vez mais se rarefaz o mercado dos livros. Claro que outros factos haverá – tudo é mais complexo do que aparenta – mas estas são as principais razões a apontarem para a revelação que, desde inicio, vos prometo.

 

Farto de consultar e discutir com os novéis editores as condições de aparição de cada uma das obras, obrigando-me embora a perder o contacto com o objeto físico, deixando de parte a sensualidade de sentir o ruge-ruge do passar das folhas, aceitando o caminho de desmaterialização a impor-se a muitas atividades, com alguma mágoa, confesso, decidi partir para nova experiência. Retirei da Editora o meu romance “Momentos para inventar o amor” e entreguei-o, para ser publicado como ”e-book”, a uma parceria de grande credibilidade – “escritores online” – entre a Associação Portuguesa de Escritores e a CLEPUL, organização da Faculdade de Letras de Lisboa.

 

Esta era a mudança que vos queria comunicar. Lutando contra o hábito de ter o escrito corporizado em objeto físico vou entrar pelo caminho, que prevejo como o futuro, do livro a existir numa nuvem informática sabendo que, para os amantes dos livros será decisão desilusória, mas, por outro lado, fundado em organizações credíveis, saber da possibilidade de chegar a outro público, interessado, informado e, acrescendo, pelo preço que custará (2,95 euros) a possibilidade de alargar a fruição do texto a quantos não podem esportular a dezena de euros de uma publicação impressa.

 

Falei de mim, confessei aderir ao futuro, espero não me desiludir, nem desiludir os putativos leitores. Façam um esforço! Alterem hábitos! Não o podendo garantir reconheço que pode valer a pena.

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publicado por Carlos Alberto Correia às 18:00

Sobre maiorias e nem tanto

Quinta-feira, 12.10.17

 

 

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Eu, que fui candidato, na segunda posição, à Câmara do Barreiro, pelo Bloco, deveria, neste momento, estar em triste reflexão sobre a falência do intento. Não fui eleito, o que não seria expetável, nem sequer o cabeça de lista, considerado com boas probabilidades. Mas eleições são o que são e, nelas, o Povo é quem mais ordena. Isto por definição, porque a coisa é de muito maior complexidade. Tão grande que seria fastidioso estar aqui a fazer um levantamento das imensas variáveis.

 

Também não irei dizer que fiquei alegre com os acontecimentos. Antes surpreendido e observante da embrulhada que poderá vir a ser a nossa Câmara. Vejamos: O PS ganha as eleições, tem direito à presidência e guarda quatro mandatos. A CDU, perdendo a presidência, arrecada igualmente outros quatro mandatos, e, pese embora o voto de qualidade do Presidente, estamos empatados. Ou não! Porque o PSD, ao contrário da dominante eleitoral do seu partido, subiu em votos e mantém o seu vereador, o que pode bem (des)equilibrar o sistema de desempate por voto de qualidade. Temos assim o PSD na invejável posição de, sendo absolutamente minoritário, poder ser determinante.

 

No gozo frio e intelectual do momento interrogo-me. Que fará ele? Unir-se-á ao PS dando-lhe maioria e governabilidade? Assim uma geringonça mais virada para a direita? Ou, fiel aos muitos anos de aliança camarária com a CDU, manterá a “fidelidade “, juntando o seu voto a esta coligação, criando, quiçá, a inoperância da Câmara? Ou ainda, num sentido de maior liberdade ou oportunidade, vogará, em geometria variável, segundo interesses mais partidários que comunitários? Estão a ver as cogitações em que me enlevo?

 

Não é que me queixe! Muitos anos antes do meu partido erguer a bandeira do impedimento de maiorias absolutas, já eu, nestas colunas, refletia sobre o assunto. Tinha para mim que democracia representativa seria aquela que representasse a maioria da população, o que dificilmente se passará com um único vencedor, embora maioritário, a representar, tão somente, uma parte dos cidadãos. E isto, sem levar em conta a abstenção a qual, só por si, nos valores em que se encontra, faz da representação, dita maioritária, a de uma muito pequena minoria.

 

Por isso defendia, e defendo, tal como é objetivo do método de Hondt, a inexistência de maiorias absolutas e a necessidade de coordenação, coligações, geringonças, ou seja, lá o que for, entre vários partidos. Assegurar-se-á deste modo mais alargada representatividade, nenhum partido poderá arrogar-se ao direito de instituir uma ditadura democrática, onde a sua voz, de maioria sempre relativa, imperará anulando todos os quereres alheios, porque será obrigado a contínuas negociações. Isto claro, pugnado pelos partidos enquanto oposição, torna-se rapidamente no seu contrário quando se pressupõem a caminho da vitória. Então, ao princípio timidamente, aumentando o volume e exigência quando se aproximam do final da campanha e as sondagens confirmam o desejado posicionamento, passam a pedir aos eleitores o cheque em branco da maioria absoluta. A tendência do “poder” é para se auto engravidar, crescer, reproduzir, ganhar espaço. Por tal é necessário, quanto a mim, a sua limitação e contínua fiscalização por órgãos apropriados. Que me desminta quem possa!

 

Aqui chegados e voltando ao nosso território, a serem seguidas as palavras emocionadas de Jerónimo de Sousa, ainda no inesperado da vitória rosa, a CDU estaria impedida de estabelecer acordos de governação com o PS. Isto deixaria o caminho livre ao PSD que poderia, teoricamente, exigir o que quisesse para manter a operacionalidade da Câmara PS. É uma possibilidade, no entanto, com demasiados risco. Tenho para mim, no entanto, que a capacidade política e racional do PCP (partido com maior experiência organizativa no nosso país), nunca permitiria deixar o PS refém do PSD, pelo que, mesmo “engolindo sapos”, - já não seria a primeira vez - ultrapassando emoções e desilusões, perceberá que “congelar” a Câmara é mau negócio. Poderia, muito eventualmente, conduzir à sua queda e levar-nos a eleições antecipadas, onde, pese embora a volatilidade dos votos, creio que o PS teria a hipótese de ganhar com maioria absoluta. E isso é que, nem para o PS, a CDU e, no campo das miragens, o meu partido, eu quero ver acontecer.

 

Aguardo, pois, com muito interesse, aquilo que os próximos dias nos poderão revelar.

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 14:55

Da tristeza em Passos Coelho

Terça-feira, 26.09.17

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Tudo parte de um princípio!

 

 Por exemplo, para mim, o simples nascimento de um ser humano, neste mundo de homens/mulheres, deveria, só por si, ser o suficiente para que a sua vida, o seu bem-estar, estivessem, tanto quanto é humanamente possível fazê-lo, completamente assegurados. Isto porque cada ser é único e como tal insubstituível. Na realidade, dir-me-ão muitos, tal não passará de impossível utopia, dada a diversidade de recursos e ideologias imperantes no mundo. Terão a sua razão e, volto a dizê-lo, tudo parte de um princípio.

 

Para Passos Coelho, presumo, o ser humano valerá na medida daquilo que dele se possa haver. Isto é, vales o que tens, respeito-te na razão de quanto possas ser útil ao meu plano. Fora disso és perfeitamente descartável, inútil. Possuis apenas o valor que o sapiente mercado te conceder.

 

Ele terá como despiciendo o que para mim é fundamental.

 

Aquele conjunto de genes, desejos, dores, afeições, desesperos e por aí adiante que é o ser-se gente, pouco significará para o meu referido. Terá de acrescentar-lhe o peso social, a possibilidade visível, imediata, de modificar ou arregimentar coisas e pessoas à  sua volta para adquirir peso especifico, importância. Talvez só muito subliminarmente se recorde de que também ele está na tômbola, também ele poderá passar a irrelevante. Mas, pelo menos nos seus sonhos, tal perpassará e, aqui, teremos o primeiro momento da sua tristeza.

 

Por outro lado, chegou demasiado cedo aos cumes de um certo poder. Não estava, nem podia estar preparado. Pouco tinha feito na vida. A experiência era escassa. Talvez, à parte as facilidades do cartão e amigos do partido, se submetido a entrevista para cargo médio numa empresa bem organizada, para maior tristeza e desilusão, tivesse sido a sua candidatura preterida por alguém mais experiente, ou com maiores capacidades. Isto poder-lhe-ia ter dado outra visão sobre o querido modo de olhar o Estado, a Sociedade, como macro empresas, a serem geridas por estritos princípios técnicos, suscetíveis de serem colocados, de forma simples, em relatórios sucintos com regras de execução imediata e posterior avaliação contabilística.

 Poderá, eventualmente, tal ideia perpassar-lhe no pensamento, criando, na dúvida, meteórica a penugem de tristeza.

 

Com alegria enorme, confiança total nas capacidades próprias, subiu ao poder que pretendeu, que lutou para obter, sabendo bem o que se passava no Paíse aproveitando o sabê-lo como alimento da "sede ao pote". Mal se sentou na cadeira do poder, quase de imediato, descobriu os alfinetes escondidos na almofada. Que sim, senhor! Ora essa! Tão pequena dor valeria bem os altos feitos a cometer e aceitou da troika todos os dislates. Contra a maioria do seu Povo foi conivente e majorador das iniquidades propostas. De moto próprio ultrapasso-as. Isso com maior tristeza nossa que dele. Alegria breve lhe assistiu. Sem perceber bem porquê, tudo começou a resistir-lhe. Os sindicatos? Sim! Esperava por tal. Os partidos de esquerda? A oposição  que fizessem seria benção! Mas, os seus correligionários mais experimentados principiando a, surdamente, criticá-lo; abandonando-o posteriormente e logo a seguir juntarem-se às vozes da desesperante oposição? Isso, confundia-o e, secretamente, permeava-o de sombria tristeza. Até o Constitucional lhe dava desgostos, a ele, que assentado no poder, não concebia vontades além da sua (ou que Bruxelas ou outro centro difusor autorizado ordenasse)! A disforia passava a raiva e mordia qualquer mão que se lhe estendesse em moldes de moderação. Foi juntado à  tristeza, solidão. Trocou camaradas por seguidores, membros respeitados por apaniguados. Não o sabia, mas estava a construir a senda da mais profunda tristeza.

 

Venceu as eleições, não conseguiu formar governo. Estupefacto viu a maldita esquerda tomar-lhe o lugar. Rugiu ao ver desfazer-se, passo a passo, a teia de miséria lançada sobre o povo irrelevante. Não encontrou na banca estimável a retribuição do afeto e benesses concedidos. Tristeza relevante lhe toldou a alma. Falou, oráculo vazio, em quantos desastres esperava tal governação. Abriu-se-lhe a boca, em descrédito, ao reparar que quem lhe encomendara as tristes açõespraticadas contra o seu povo, dava agora encómios aos inversos do que fizera; via as mais negras profecias transmudarem-se no contrário. Sentiu-se traído e mais tristeza se lhe colou na alma. Esperava a qualquer momento um descalabro a justificar-lhe as anteriores decisões, as atuais previsões. Tudo lhe saiu mal. O País prosperava sem si e contra as medidas que tomara. Uma qualquer injustiça, alguns escondidos inimigos, teceriam intrigas, moviam interesses, para o fazer cair em desgraça. O sentimento viscoso de inauditas traições plantara-se no âmago da tristeza, a envolvê-lo. O Sol haveria de brilhar. Seria redimido, reconduzido Éà  capacidade de ação, aos cortes salvadores e preferidos. Teria ainda o seu dia.

 

Então caiu-lhe na tristeza a Presidência da República. Quem ele queria não havia. Havia quem ele nunca quisera e ousara, imprudente, dizê-lo. Deve ter passados horas bem amargas, plenas de raivosa tristeza em desolação de desertos interiores, nunca poupado pelos Fados, que continuavam a ser faustos para o inimigo, o qual lhe roubara o que só a ele, por direito, pertencia. Claro, na sua inexperiência nunca prestara grande atenção àquela coisa esquisita chamada Constituição e ela, vindicativa, pregara-lhe várias partidas. Alguns próximos bem o tinham avisado: Cuidado com a Constituição! Não é menina com quem se brinque! Como poderia ligar-lhes? Ele era o poder! Ele sabia! Tínhamos um País de velhos! Era preciso reverter isto com ferocidade. Ataquem-se os velhos! Passagem para os novos (desde que fossem para as privadas). Esses amigos torceram o nariz! Pois que o mantenham assim! E foram afastados! Alguns com tristeza, outros lamentando, antecipadamente, o futuro do chefe.

 

Agora, autárquicas à porta, vai de comício em comício, jantar em jantar, desdizendo tudo quanto se pode inteligentemente ver ou perceber sobre os efeitos da nova governação. Nuns locais diz o contrário sobre o mesmo assunto, noutros, talvez esquecido do anteriormente propalado, reivindicando para si o resultado de medidas opostas às suas.  Assim o vemos e   entendemos "numa apagada e vil tristeza" onde, nem ele já se deve reconhecer e muito menos aos desmandos que permitiu e praticou. É uma tristeza!

 

Vê-lo, bufão de si mesmo - apesar de reconhecer ter o castigo que merece - perceber-lhe o terror de maus resultados eleitorais a ameaçarem-lhe o emprego - tal como o fez a milhares de concidadãos - não deixa de influenciar o meu estado de alma a seu respeito. Porque, a seu contrário, lhe reconheço, como ser humano, o direito a esperanças e aflições, ponho-me no seu lugar, sinto a tristeza que emana e, muito sinceramente - por ele no momento, pelo ele no a vir - aperta-se-me o coração e, com a tristeza dele me enfeito.

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publicado por Carlos Alberto Correia às 10:40

Demita-se a “Providência”

Domingo, 02.07.17

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A palavra providência é um tanto ou quanto ambígua. Tanto pode referir-se a previsão de situações futuras, como a não antever evento nenhum, não tomar qualquer precaução e confiar que o sagrado conduza, sem nossa inquietação e mínimo de esforço, coisas e seres a fins benéficos. Embora se possa confundir e seja muitas vezes considerada sinónimo, convém diferenciar de “Previdência”, nome primitivo atribuído ao que hoje chamamos de Segurança Social e que, no espírito da época e na nossa especial relação com as divindades, estava muito bem-posto. É que no que toca a prevenção, o tuga sente-se dispensado de tal esforço.

 

E tem razão!

 

Primeiro somos uma cultura de desenrasca, de guarda para o último momento, do alguma coisa há de aparecer. Isto porque somos muito mimados. Somos o povo de Nossa Senhora de Fátima e dos três pastorinhos (agora reduzidos a dois, por eclipse de Lúcia, que deve ter cometido o feio pecado de viver demais e, se calhar, deixar-se tomar por algumas pecaminosas dúvidas, ou talvez os segredos fossem menos valiosos ou menos segredos do que o esperado). De qualquer modo, quem dispõe de semelhantes proteções, pode bem passar sem prestar culto a algo tão pragmático e rasteirinho como dar-se ao trabalho de prevenir acontecimentos desagradáveis, os quais podem bem nunca ocorrer. Estão a ver o desperdício, a subida do deficit, o nervoso miudinho dos mercados!

 

Por isso confiamos e deixamos ao céu a obrigação de nos proteger. Compreende-se assim as surpresas, os gritos estridentes de quantos, desinvestindo fortemente em quanto é social, apenas apoquentados pela subida do PIB e a descida do deficit, esperam que os nossos santos protetores façam o seu trabalho, nos livrem de maleitas, furacões, tremores de terra e outras coisas mais, enquanto nós, no ripanço, vivemos o dia-a-dia sem preocupações de acontecimentos futuros, além dos citados indicadores económicos.

 

Depois, quando o céu não nos responde ou se distrai e deixa cair-nos em cima qualquer calamidade é o aqui d’el-rei. Pedem-se cabeças de ministros, castigos dos responsáveis, tomadas enérgicas de medidas e políticas corretivas. Durante dias, talvez semanas, não se fala, não se ouve, nem se vê mais nada. O País foca-se na desgraça, arrepela-se, entra de luto e depois… esquece.

 

Devo esclarecer que o papel do luto é precisamente o de atenuar a lembrança, permitindo ao vivente, estabelecer nova identidade onde o já acontecido vá perdendo força e permita reestruturar a vida, ajeitando o sistema, à existência com tal falta. Por isso não nos escandalizamos com os sucessivos esquecimentos e nos admiramos que anteriores responsáveis, com bastas culpas no cartório, venham a terreiro feitos virgens inocentes, a clamar pelas cabeças de quem apenas deu continuidade aos seus feitos.

 

De repente, talvez haja excesso de trabalho no céu, estejam as tarefas a ser executadas por estagiários – os nossos pastorinhos (dois) só agora obtiveram contrato definitivo – Nossa Senhora de Fátima esteja absorvida por tarefas domésticas ou ensinando os novéis santos a milagrar – caíram em cima duas faíscas de alto lá com elas. O fogo de Pedrógão, com as mortes a lamentar, e o caso vexatório do rato ir comer ao prato do gato, em Tancos. E pronto! Foi a exclamação geral, os enérgicos protestos dirigidos a todos e ninguém, o afasta-te que a culpa é tua, eu fiz tudo bem, a gargalhada de assumir responsabilidades políticas sem que aconteça coisa alguma (a propósito e antes que alguém venha fazer mais ruído não se esqueçam que a primeira vez – que me lembre – que tal aconteceu foi com a então ministra da justiça Paula Teixeira da Cruz no grande plof! do encerramento dos tribunais).

 

O que pouco se fala ou se vê é como, com o verão a caminhar, a humidade a descer, o vento a soprar, os pinhais e eucaliptos por emparcelar, os sirespes por funcionar, vamos arrostar com o período de incêndios caso os nossos protetores celestes se mantenham distraídos ou cansados de aturar tanta imprevidência. E já agora, que dizer de um chefe do estado-maior que exonera os comandantes de batalhões ou regimentos e se esquece, como primeiro responsável, de apresentar, honrosamente, a sua demissão?

 

“Ah! Se calhar estará a preparar uma providência cautelar”!

 

E para o ano, amigos, companheiros, camaradas, concidadãos, compatriotas e visitantes, por esta altura, aposto, estaremos de novo a discutir as mesmas coisas, ou outras semelhantes. Como diz o velho ditado: “só se lembram de Santa Bárbara quando faz trovões.”

 

Oh! Diabo, a santa que me perdoe, mas tinha-me esquecido desta.

 

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 19:43

O muro

Quinta-feira, 15.06.17

 

 

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Vim viver para o Barreiro nos inícios dos anos oitenta. Não me recordo exatamente do ano, mas sei que coincidiu com um dos mais lindos e brilhantes outonos de que me lembro. Os dias eram explosões de Sol e, no jardim, entre o moinho do Jim e o Clube de Vela deleitava-me nesse fulgor, apaziguado pela leve neblina a fazer de Lisboa um quadro quase impressionista. Escrevia, pensava e apercebia-me do quanto valia ser uma península dentro de outra península, esta abraçada pelo Tejo e o Coina, em termos de ambiente, paisagem e claridades.

 

Recordo ainda, por esses tempos escrevia texto para um programa da Rádio Comercial, FM, que, não me apetecendo ir para aquele que era o meu emprego efetivo e burocrático, antes querendo continuar a gozar a maravilha daqueles dias, me deixei ficar olhando o Tejo, vendo o movimentos das embarcações, o pontilhado de pequenas velas brancas a competirem, na subtileza, com as parcas névoas. Escrevi, a propósito, uma justificação de falta, em poesia, que deixou estupefacto e sem saber como agir o meu Diretor de Serviços.

 

Para quem aguentou até aqui o meu palavreado e se pergunta o propósito de tais rememorações confesso-lhes nascerem de um misto de desapontamento e receio, provindos de ter tido conhecimento da ideia abstrusa de colocarem um muro de contentores entre a Avenida da Praia e o alongamento do Tejo. Vi-me obrigado a repetir a leitura da notícia para perceber a enormidade do sacrilégio pretendido. Claro que defendo a colocação do Porto de Contentores no Barreiro. Precisamos de alargar os préstimos da cidade e os postos de trabalho. É evidente que sei e me disponho a aceitar alguns impactos socioambientais. Não há progresso sem transformação! Mas isto, senhores?! Que mente retorcida pode pensar em tapar a respiração da Cidade? Que cálculos económicos valerão o emparedamento da população? Com tantos quilómetros de rio disponíveis na antiga zona industrial, para quê construir um muro de contentores mesmo defronte dos nossos olhos, condenando-nos ao isolamento de uma cegueira inadmissível? Volto a perguntar: cálculos económicos abstrusos ou vontade de mudar a instalação para qualquer outro local procurando o pretexto no afrontamento da população?

 

Desconheço a quem pertence a decisão final, assim como não sei que e quantos interesses, dos mais aos menos legítimos, nela se jogam; sei apenas que deveremos defender a instalação do Porto nesta cidade, ao mesmo tempo que não poderemos permitir a sua colocação sem a mínima salvaguarda dos direitos ambientais e de qualidade de vida dos nossos concidadãos.

 

Câmara, Assembleia Municipal, Juntas de Freguesia, Coletividades, gentes do poder e comuns, juntemo-nos para impedir que, neste tempo de muros impiedosos, seja, perante a nossa indignação, colocado um outro no campo de deleite dos nossos olhos. Não nos deixemos emparedar. Que o único muro possível de aceitar seja o da defesa dos nossos interesses legítimos e da paisagem onde descansamos o olhar. Sigamos livres pela margem de um rio observado em plena liberdade.

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 21:20

A respeito das reformas

Domingo, 26.03.17

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Confesso o meu “despeito a (des) respeito” das propostas apresentadas pelo Ministro do Trabalho. Ingenuidade? Talvez! No entanto aguardava documento mais humano, considerando a vida concreta dos portugueses.

Para obviar a intenções retilíneas informo que me encontro reformado desde 2007, com a totalidade de 43 anos de trabalho, dos quais três ou quatro são de serviço militar. Desde o seu início ficou “congelada”, com exceção dos cortes e reposições aplicados a qualquer português. Foi uma reforma bem ganha e o Estado não faz mais que a sua obrigação ao pagar-me com pontualidade, devendo ainda, o que não cumpre, atualizá-la anualmente, no mínimo, pelo nível da inflação. Durante todo esse tempo descontei e raramente, apesar de em quase toda a duração me chamarem beneficiário (pura ironia), pouco ou nada recebi em troca. Mesmo a assistência médica era tão precária que sempre me vi confrontado com a necessidade de consultar médicos e hospitais particulares, pagos do meu bolso. Por isso, pelo direito que me cabe, estamos conversados.

Voltemos, portanto ao despeito. Ao ouvir as propostas senti-me injuriado. Estavam certamente - através das esperanças suscitadas e ora negadas a outros com longas carreiras contributivas - a gozar connosco. Então alguém que tivesse 48 anos de desconto (ou inscrição) poderia reformar-se antecipadamente (?), sem penalizações, desde que tivesse mais de sessenta anos? Máquina na mão subtrai-o 48 de 60! Vejo com espanto que esse alguém teria de ter começado a trabalhar aos 12 anos de idade. Tendo em conta o espírito da época (estaríamos em 1969) não espanta que muita gente, com essa idade e com menos, já trabalhasse no duro. O que me deixa boquiaberto – aqui o ingénuo será o governante ou então é mal-intencionado – é que, o senhor ministro e assessores, se tenham esquecido do facto comezinho de que talvez nenhum desses trabalhadores estaria inscrito na “Caixa”. Basta ler algo sobre esse tempo para se saber que a fuga à inscrição era enorme e mesmo, em muitos casos, nem sequer era obrigatória. Estou errado, senhor ministro?

Que me seja perdoada a inanidade de insistir em algo que deverá ser, para espíritos neoliberais, atentatório ao eterno direito à servidão das massas populares. Então, independentemente da idade tida, qualquer cidadão que tenha dado à comunidade quarenta anos de vida de trabalho, não será merecedor do reconhecimento do seu esforço? Não lhe deverá ser reconhecido o direto e lídimo direito à reforma? Estarão a fazer-lhe algum favor? Ah! Já sei, a regra da extensão da vida humana. Pois, é! Se considerarmos os nossos tempos, qualquer jovem, e beneficio muito as contas, só começará a ter trabalho e descontos lá para os 27 anos (não disse que favorecia?). Assim só completará 40 anos de trabalho quando perfizer sessenta e sete anos, isto é, mais alguns meses da idade necessária para se reformar nesta altura. Tendo em conta o índice de esperança de vida e seguindo a lógica de contínua progressão da idade de reforma, sem exageros, esse pretérito jovem terá a possibilidade de se reformar… quando estiver morto! Vá lá, sei que estou a exagerar, mas é tão-somente para tornar visível a hipocrisia do sistema. Para não ser chato nem sequer vou referir as momentosas questões das reformas por incapacidade ou a cegueira de juntas médicas, a mandar apresentar ao serviço gente em tratamentos violentos e desgastantes, incluindo terapias anticancerígenas em estado avançado, como, bastantes vezes, os noticiários televisivos nos mostram.

Quero apenas a terminar, esclarecendo ter sido substancialmente informado de o dito documento ser tão-somente uma base de trabalho, demonstrar a minha desconfiança. Já estou queimado e, como se dizia na minha terra, pelo andar da carruagem se vê quem lá vai dentro.

Por tanto, não só estou completamente contra o formulado no documento apresentado como, por experiência adquirida, não espero substanciais melhorias em sede de (des)concertação social, nem, Sua Excelência me desculpe, acredito na boa vontade deste ministro.

Resta-me a esperança de ver o meu partido (BE) não o subscrever quando passar pela Assembleia da República. Assim o espero e assim o quero!

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 11:49

Acordo Ortográfico

Domingo, 12.02.17

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Cansado de, no Face Book e em outros locais, explicar as razões porque, embora com reservas, apoio a manutenção do Acordo Ortográfico, decidi render-me.

 

Não só vou esquecer-me de todos estes anos em que a escola tem andado a preparar as novas gerações para escreverem em concórdia com ele, como nem sequer me vou lembrar de estarmos por mais velhos, a maior parte, biologicamente condenados, restando, nos anos futuros, todas as gerações que escreverão como aprenderam, as quais, se alguma vez tal situação se colocar, não perceberão o que levou a tanta discussão sobre uma forma de escrita que, está-se mesmo a ver, só poderia ser conforme se habituaram a escrever. Provavelmente serão visceralmente contra putativo acordo a ganhar corpo por essa altura…, digo eu!

 

Irei mesmo mais longe nesta rendição. Serei radical, consequente. Porei, por tanto, de parte todos os acordos e formas de grafia que me antecederam, voltarei à pureza das origens. Espero que os detratores do Acordo me acompanhem nesta cruzada que será absolutamente inequívoca para quem pensa ser a língua um monumento monolítico, fixado de uma vez para sempre.

 

Ora aqui vai:

 

“(…) Dom Diego Lopez era mui boo monteiro, e estando hum en sa armada e atemdemdo quamdo verria o porco, ouuyo cantar muita alta huuma molher em cima de huuma pena; e el foy pera la e vio-a seer muy fermosa e muy bem vistida, e namorou-sse logo d’ella muy fortemente e pregumtou-lhe quem era; e ela lhe disse que era huuma molher de muito alto linhagem, e ele lhe disse que pois era molher d’alto linhagem que casaria com ela se ela quisesse, ca ele era senhor d’aquella terra toda; (…)

 

Ora aqui fica a minha determinação de defesa da pureza e imobilidade da língua. Não voltem, por favor, a vir-me com as asneiras recorrentes e mal-intencionadas de cagado por cágado e de fato por facto. É falso! Já chega! Escrevam como quiserem. Tanto se me dá. Não se submetam, porém, a nenhum exame oficial porque irão chumbar. Não poderão ressalvar “o examinando escreve com ortografia anterior ao Acordo.” Ninguém vos levará a sério, é um risco!

 

Fiquem bem, satisfeitos e em paz! De acordo?

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 00:14








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