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Demita-se a “Providência”

Domingo, 02.07.17

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A palavra providência é um tanto ou quanto ambígua. Tanto pode referir-se a previsão de situações futuras, como a não antever evento nenhum, não tomar qualquer precaução e confiar que o sagrado conduza, sem nossa inquietação e mínimo de esforço, coisas e seres a fins benéficos. Embora se possa confundir e seja muitas vezes considerada sinónimo, convém diferenciar de “Previdência”, nome primitivo atribuído ao que hoje chamamos de Segurança Social e que, no espírito da época e na nossa especial relação com as divindades, estava muito bem-posto. É que no que toca a prevenção, o tuga sente-se dispensado de tal esforço.

 

E tem razão!

 

Primeiro somos uma cultura de desenrasca, de guarda para o último momento, do alguma coisa há de aparecer. Isto porque somos muito mimados. Somos o povo de Nossa Senhora de Fátima e dos três pastorinhos (agora reduzidos a dois, por eclipse de Lúcia, que deve ter cometido o feio pecado de viver demais e, se calhar, deixar-se tomar por algumas pecaminosas dúvidas, ou talvez os segredos fossem menos valiosos ou menos segredos do que o esperado). De qualquer modo, quem dispõe de semelhantes proteções, pode bem passar sem prestar culto a algo tão pragmático e rasteirinho como dar-se ao trabalho de prevenir acontecimentos desagradáveis, os quais podem bem nunca ocorrer. Estão a ver o desperdício, a subida do deficit, o nervoso miudinho dos mercados!

 

Por isso confiamos e deixamos ao céu a obrigação de nos proteger. Compreende-se assim as surpresas, os gritos estridentes de quantos, desinvestindo fortemente em quanto é social, apenas apoquentados pela subida do PIB e a descida do deficit, esperam que os nossos santos protetores façam o seu trabalho, nos livrem de maleitas, furacões, tremores de terra e outras coisas mais, enquanto nós, no ripanço, vivemos o dia-a-dia sem preocupações de acontecimentos futuros, além dos citados indicadores económicos.

 

Depois, quando o céu não nos responde ou se distrai e deixa cair-nos em cima qualquer calamidade é o aqui d’el-rei. Pedem-se cabeças de ministros, castigos dos responsáveis, tomadas enérgicas de medidas e políticas corretivas. Durante dias, talvez semanas, não se fala, não se ouve, nem se vê mais nada. O País foca-se na desgraça, arrepela-se, entra de luto e depois… esquece.

 

Devo esclarecer que o papel do luto é precisamente o de atenuar a lembrança, permitindo ao vivente, estabelecer nova identidade onde o já acontecido vá perdendo força e permita reestruturar a vida, ajeitando o sistema, à existência com tal falta. Por isso não nos escandalizamos com os sucessivos esquecimentos e nos admiramos que anteriores responsáveis, com bastas culpas no cartório, venham a terreiro feitos virgens inocentes, a clamar pelas cabeças de quem apenas deu continuidade aos seus feitos.

 

De repente, talvez haja excesso de trabalho no céu, estejam as tarefas a ser executadas por estagiários – os nossos pastorinhos (dois) só agora obtiveram contrato definitivo – Nossa Senhora de Fátima esteja absorvida por tarefas domésticas ou ensinando os novéis santos a milagrar – caíram em cima duas faíscas de alto lá com elas. O fogo de Pedrógão, com as mortes a lamentar, e o caso vexatório do rato ir comer ao prato do gato, em Tancos. E pronto! Foi a exclamação geral, os enérgicos protestos dirigidos a todos e ninguém, o afasta-te que a culpa é tua, eu fiz tudo bem, a gargalhada de assumir responsabilidades políticas sem que aconteça coisa alguma (a propósito e antes que alguém venha fazer mais ruído não se esqueçam que a primeira vez – que me lembre – que tal aconteceu foi com a então ministra da justiça Paula Teixeira da Cruz no grande plof! do encerramento dos tribunais).

 

O que pouco se fala ou se vê é como, com o verão a caminhar, a humidade a descer, o vento a soprar, os pinhais e eucaliptos por emparcelar, os sirespes por funcionar, vamos arrostar com o período de incêndios caso os nossos protetores celestes se mantenham distraídos ou cansados de aturar tanta imprevidência. E já agora, que dizer de um chefe do estado-maior que exonera os comandantes de batalhões ou regimentos e se esquece, como primeiro responsável, de apresentar, honrosamente, a sua demissão?

 

“Ah! Se calhar estará a preparar uma providência cautelar”!

 

E para o ano, amigos, companheiros, camaradas, concidadãos, compatriotas e visitantes, por esta altura, aposto, estaremos de novo a discutir as mesmas coisas, ou outras semelhantes. Como diz o velho ditado: “só se lembram de Santa Bárbara quando faz trovões.”

 

Oh! Diabo, a santa que me perdoe, mas tinha-me esquecido desta.

 

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 19:43

O muro

Quinta-feira, 15.06.17

 

 

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Vim viver para o Barreiro nos inícios dos anos oitenta. Não me recordo exatamente do ano, mas sei que coincidiu com um dos mais lindos e brilhantes outonos de que me lembro. Os dias eram explosões de Sol e, no jardim, entre o moinho do Jim e o Clube de Vela deleitava-me nesse fulgor, apaziguado pela leve neblina a fazer de Lisboa um quadro quase impressionista. Escrevia, pensava e apercebia-me do quanto valia ser uma península dentro de outra península, esta abraçada pelo Tejo e o Coina, em termos de ambiente, paisagem e claridades.

 

Recordo ainda, por esses tempos escrevia texto para um programa da Rádio Comercial, FM, que, não me apetecendo ir para aquele que era o meu emprego efetivo e burocrático, antes querendo continuar a gozar a maravilha daqueles dias, me deixei ficar olhando o Tejo, vendo o movimentos das embarcações, o pontilhado de pequenas velas brancas a competirem, na subtileza, com as parcas névoas. Escrevi, a propósito, uma justificação de falta, em poesia, que deixou estupefacto e sem saber como agir o meu Diretor de Serviços.

 

Para quem aguentou até aqui o meu palavreado e se pergunta o propósito de tais rememorações confesso-lhes nascerem de um misto de desapontamento e receio, provindos de ter tido conhecimento da ideia abstrusa de colocarem um muro de contentores entre a Avenida da Praia e o alongamento do Tejo. Vi-me obrigado a repetir a leitura da notícia para perceber a enormidade do sacrilégio pretendido. Claro que defendo a colocação do Porto de Contentores no Barreiro. Precisamos de alargar os préstimos da cidade e os postos de trabalho. É evidente que sei e me disponho a aceitar alguns impactos socioambientais. Não há progresso sem transformação! Mas isto, senhores?! Que mente retorcida pode pensar em tapar a respiração da Cidade? Que cálculos económicos valerão o emparedamento da população? Com tantos quilómetros de rio disponíveis na antiga zona industrial, para quê construir um muro de contentores mesmo defronte dos nossos olhos, condenando-nos ao isolamento de uma cegueira inadmissível? Volto a perguntar: cálculos económicos abstrusos ou vontade de mudar a instalação para qualquer outro local procurando o pretexto no afrontamento da população?

 

Desconheço a quem pertence a decisão final, assim como não sei que e quantos interesses, dos mais aos menos legítimos, nela se jogam; sei apenas que deveremos defender a instalação do Porto nesta cidade, ao mesmo tempo que não poderemos permitir a sua colocação sem a mínima salvaguarda dos direitos ambientais e de qualidade de vida dos nossos concidadãos.

 

Câmara, Assembleia Municipal, Juntas de Freguesia, Coletividades, gentes do poder e comuns, juntemo-nos para impedir que, neste tempo de muros impiedosos, seja, perante a nossa indignação, colocado um outro no campo de deleite dos nossos olhos. Não nos deixemos emparedar. Que o único muro possível de aceitar seja o da defesa dos nossos interesses legítimos e da paisagem onde descansamos o olhar. Sigamos livres pela margem de um rio observado em plena liberdade.

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 21:20

A respeito das reformas

Domingo, 26.03.17

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Confesso o meu “despeito a (des) respeito” das propostas apresentadas pelo Ministro do Trabalho. Ingenuidade? Talvez! No entanto aguardava documento mais humano, considerando a vida concreta dos portugueses.

Para obviar a intenções retilíneas informo que me encontro reformado desde 2007, com a totalidade de 43 anos de trabalho, dos quais três ou quatro são de serviço militar. Desde o seu início ficou “congelada”, com exceção dos cortes e reposições aplicados a qualquer português. Foi uma reforma bem ganha e o Estado não faz mais que a sua obrigação ao pagar-me com pontualidade, devendo ainda, o que não cumpre, atualizá-la anualmente, no mínimo, pelo nível da inflação. Durante todo esse tempo descontei e raramente, apesar de em quase toda a duração me chamarem beneficiário (pura ironia), pouco ou nada recebi em troca. Mesmo a assistência médica era tão precária que sempre me vi confrontado com a necessidade de consultar médicos e hospitais particulares, pagos do meu bolso. Por isso, pelo direito que me cabe, estamos conversados.

Voltemos, portanto ao despeito. Ao ouvir as propostas senti-me injuriado. Estavam certamente - através das esperanças suscitadas e ora negadas a outros com longas carreiras contributivas - a gozar connosco. Então alguém que tivesse 48 anos de desconto (ou inscrição) poderia reformar-se antecipadamente (?), sem penalizações, desde que tivesse mais de sessenta anos? Máquina na mão subtrai-o 48 de 60! Vejo com espanto que esse alguém teria de ter começado a trabalhar aos 12 anos de idade. Tendo em conta o espírito da época (estaríamos em 1969) não espanta que muita gente, com essa idade e com menos, já trabalhasse no duro. O que me deixa boquiaberto – aqui o ingénuo será o governante ou então é mal-intencionado – é que, o senhor ministro e assessores, se tenham esquecido do facto comezinho de que talvez nenhum desses trabalhadores estaria inscrito na “Caixa”. Basta ler algo sobre esse tempo para se saber que a fuga à inscrição era enorme e mesmo, em muitos casos, nem sequer era obrigatória. Estou errado, senhor ministro?

Que me seja perdoada a inanidade de insistir em algo que deverá ser, para espíritos neoliberais, atentatório ao eterno direito à servidão das massas populares. Então, independentemente da idade tida, qualquer cidadão que tenha dado à comunidade quarenta anos de vida de trabalho, não será merecedor do reconhecimento do seu esforço? Não lhe deverá ser reconhecido o direto e lídimo direito à reforma? Estarão a fazer-lhe algum favor? Ah! Já sei, a regra da extensão da vida humana. Pois, é! Se considerarmos os nossos tempos, qualquer jovem, e beneficio muito as contas, só começará a ter trabalho e descontos lá para os 27 anos (não disse que favorecia?). Assim só completará 40 anos de trabalho quando perfizer sessenta e sete anos, isto é, mais alguns meses da idade necessária para se reformar nesta altura. Tendo em conta o índice de esperança de vida e seguindo a lógica de contínua progressão da idade de reforma, sem exageros, esse pretérito jovem terá a possibilidade de se reformar… quando estiver morto! Vá lá, sei que estou a exagerar, mas é tão-somente para tornar visível a hipocrisia do sistema. Para não ser chato nem sequer vou referir as momentosas questões das reformas por incapacidade ou a cegueira de juntas médicas, a mandar apresentar ao serviço gente em tratamentos violentos e desgastantes, incluindo terapias anticancerígenas em estado avançado, como, bastantes vezes, os noticiários televisivos nos mostram.

Quero apenas a terminar, esclarecendo ter sido substancialmente informado de o dito documento ser tão-somente uma base de trabalho, demonstrar a minha desconfiança. Já estou queimado e, como se dizia na minha terra, pelo andar da carruagem se vê quem lá vai dentro.

Por tanto, não só estou completamente contra o formulado no documento apresentado como, por experiência adquirida, não espero substanciais melhorias em sede de (des)concertação social, nem, Sua Excelência me desculpe, acredito na boa vontade deste ministro.

Resta-me a esperança de ver o meu partido (BE) não o subscrever quando passar pela Assembleia da República. Assim o espero e assim o quero!

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 11:49

Acordo Ortográfico

Domingo, 12.02.17

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Cansado de, no Face Book e em outros locais, explicar as razões porque, embora com reservas, apoio a manutenção do Acordo Ortográfico, decidi render-me.

 

Não só vou esquecer-me de todos estes anos em que a escola tem andado a preparar as novas gerações para escreverem em concórdia com ele, como nem sequer me vou lembrar de estarmos por mais velhos, a maior parte, biologicamente condenados, restando, nos anos futuros, todas as gerações que escreverão como aprenderam, as quais, se alguma vez tal situação se colocar, não perceberão o que levou a tanta discussão sobre uma forma de escrita que, está-se mesmo a ver, só poderia ser conforme se habituaram a escrever. Provavelmente serão visceralmente contra putativo acordo a ganhar corpo por essa altura…, digo eu!

 

Irei mesmo mais longe nesta rendição. Serei radical, consequente. Porei, por tanto, de parte todos os acordos e formas de grafia que me antecederam, voltarei à pureza das origens. Espero que os detratores do Acordo me acompanhem nesta cruzada que será absolutamente inequívoca para quem pensa ser a língua um monumento monolítico, fixado de uma vez para sempre.

 

Ora aqui vai:

 

“(…) Dom Diego Lopez era mui boo monteiro, e estando hum en sa armada e atemdemdo quamdo verria o porco, ouuyo cantar muita alta huuma molher em cima de huuma pena; e el foy pera la e vio-a seer muy fermosa e muy bem vistida, e namorou-sse logo d’ella muy fortemente e pregumtou-lhe quem era; e ela lhe disse que era huuma molher de muito alto linhagem, e ele lhe disse que pois era molher d’alto linhagem que casaria com ela se ela quisesse, ca ele era senhor d’aquella terra toda; (…)

 

Ora aqui fica a minha determinação de defesa da pureza e imobilidade da língua. Não voltem, por favor, a vir-me com as asneiras recorrentes e mal-intencionadas de cagado por cágado e de fato por facto. É falso! Já chega! Escrevam como quiserem. Tanto se me dá. Não se submetam, porém, a nenhum exame oficial porque irão chumbar. Não poderão ressalvar “o examinando escreve com ortografia anterior ao Acordo.” Ninguém vos levará a sério, é um risco!

 

Fiquem bem, satisfeitos e em paz! De acordo?

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 00:14

A pobreza das crianças?

Segunda-feira, 06.02.17

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Diversas instituições, comentadores nacionais e internacionais vêm debatendo o tema anunciado em título. À primeira vista parece ser conceito perfeitamente aceitável, justo. Quem não é tocado pela imagem de uma criança esfomeada, suja, maltrapilha? É preciso ter coração de pedra para assistir ao sofrimento de tão desprotegidos seres. Já Augusto Gil, na Balada da Neve, se comovia e perguntava: “Mas as crianças, Senhor,/ porque lhes dais tanta dor?!…Porque padecem assim?!…”

E, no entanto, sempre que oiço alguém referir-se ao tema, continuando com Augusto Gil,” uma funda turbação/ entra em mim, fica em mim presa.”, porque entre os traços miniaturais dos pezinhos das crianças diviso, lateralmente, passo a passo, rastos mais marcados, mais profundos que, suponho, possam ser feitos pelos pés dos pais das ditas crianças.

 

Não querendo ser completamento disruptivo sobre o assunto, parece-me estar perante uma sinédoque, um artifício semântico, de tomar a parte pelo todo, ou, por outras mais claras palavras, mandar areia para os olhos de toda a gente. Na verdade, poderá ser problema meu, não consigo distinguir a pobreza das crianças da pobreza dos genitores, da genérica pobreza das ditas classe baixas. Já agora, aproveito para dizer também não entender como, em qualquer país e sobretudo no nosso, pode alguém, com trabalho garantido, continuar com rendimentos que não lhe permitem ultrapassar a linha da miséria. Presumo haver aqui alguma contradição nos termos ou, como se dizia nos meus tempos juvenis, a lógica é uma batata. Mas adiante.

 

Penso não ser completamente abstruso se afirmar que só há crianças pobres porque os seus pais, quando os têm, o são igualmente. Aqui o problema muda de estatuto e, em vez da misericórdia anunciada, transparece a tentativa de ocultação de inaceitável proposta de manutenção da desigualdade social, a qual, creio, e perdoem-me as almas bem-intencionadas, é o fulcro da questão. Dê-se a sopinha, uns sapatitos, qualquer abafo às crianças e poderemos fazer olhos mortos ao verdadeiro problema. Com a esmola, sabendo não se resolver qualquer problema social, ficam as boas almas de bem consigo e paraíso garantido.

 

Deixemos pois de edulcorar a realidade. A pobreza é endémica nas sociedades defensoras das desigualdades, mesmo quando recobrem a podridão com o manto da sentimentalidade, das boas obras. A pobreza das crianças só cessará quando os pais tiverem condições de vida dignas. Tudo o mais é conversa para distrair ceguinhos. Tratemos as coisas pelos seus nomes e reafirmemos não haver, na atualidade, qualquer razão para existir pobreza no mundo, a não ser a que provém da ganância, da distribuição injusta do trabalho de cada um de nós. É sabido, um pequeno grupo detém parte substancial de toda a riqueza do mundo. Como lhes chegou? Como a mantém? Porque lhes calhou a eles? Falem sobre isso, meditem, mudem as fórmulas e nunca mais será necessários choramingar sobre a pobreza das crianças.

 

Termino com a citação de uma quadra, publicada no Diário de Lisboa, salvo erro no suplemento “A Mosca”, da autoria do meu saudoso amigo, companheiro de trabalho e lutas, Severiano Falcão que foi, durante muito tempo, Presidente da Câmara de Loures:

 

“Nestas festas de Natal

mais em foco nos jornais

dão-se aos filhos, afinal

prendadas roubadas aos pais”

 

Tenham vergonha! A pobreza não é só das crianças. É de todos nós, por mais dinheiro que tenhamos, enquanto não houver trabalho, inclusão e rendimento justo para todos. E nada disto é impossível!

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 12:09

Ai, valha-me Deus!

Quarta-feira, 04.01.17

 

 

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Eu até não acredito nos diabos do doutor Passos Coelho. Mais, sempre que o vejo – no televisor – recuo aos tempos de infância e, com rápidas persignações, arengo tarrenego, tarrenego, vade retro! Pois é! Estão já a ver as dificuldades com que me debato. Eu não quero, nem posso dar-lhe razão. Aliás, mesmo que os apocalipses anunciados no decorrer do ano transato viessem a acontecer, os meus motivos e ações seriam totalmente diferentes dos dele. Eu não desejo a sociedade que ele quer. Penso o Estado de maneira e com funções diferentes daquelas que ele almeja e não estou, nem um bocadinho, virado para a excelência inata das gestões privadas. Se o simples bom senso não chegar para perceber que nunca poderá servir o bem comum quem apenas se interessa pelo êxito próprio, recordemos-mos do acontecido à nossa sociedade após as excelsas ações e poucas vergonhas das elites gestionárias e financeiras. Ao rever os acontecimentos penso, muitas vezes, que as máfias e alguns cultores de Esquemas de Ponzi são ingénuos aprendizes destes mestres de seguras reputações.

 

Porque razão me ponho, neste princípio de ano, com alguns arrepios?

 

A resposta mais direta, que adiante tentarei demonstrar, é a de que, mais que ver, sinto formar-se no horizonte uma frente fria. Embora possa vir a ser criticado pelos nossos melhores sabedores, recorri à Wikipédia – horror! – para melhor explicação daquilo a que me leva a entrar na linguagem meteorológica. “Frente fria é a borda dianteira de uma massa de ar fria, em movimento ou estacionária. Em geral a massa de ar frio apresenta-se na atmosfera como um domo de ar frio sobre a superfície. O ar frio, relativamente denso, introduz-se sob o ar mais quente e menos denso, provocando uma queda rápida de temperatura junto ao solo, seguindo-se tempestades e também trovoadas.”

 

Já começaram a entender o meu ponto de vista? Se considerarmos o horrível ano de 2016 como coisa um pouco menos horrível e, com essa perspetiva olharmos o recém-nascido 2017, digam lá, com verdade, se não ficam com pés de galinha ao olhar para o que por aí se anuncia? Não quero ser profeta da desgraça, mas não me imagino cego. Portanto não posso deixar de ver, a nível internacional o crescendo do vozear bélico, a corrida aos armamentos de destruição massiva, a loucura de Putins, Trumps - e como é que se chama aquela coisa da Coreia do Norte? – cada um a fazer voz mais grossa a ver se intimida o parceiro ou ganha aliado. Jogo perigoso, não acham? Esta coisa dos macacos brincarem com átomos sempre me intranquilizou. Mas, como é costume dizer-se “prontos!”, o que é que poderemos fazer além de esperar que tudo isto não passe de espirros, de constipação sem consequência de maior. Ah! Dizem-me, os refugiados? Cale lá essa boca. Não venha para a mesa proferir impropérios. Não se preocupe com coisas que só interessam aos adultos, sendo que no “(des)concerto das nações” somos apenas gente miúda, sem voto na matéria.

 

Pois, e por cá? Ó gentes! Temos a “Geringonça” a qual, não devendo a todos os títulos durar, vai comendo estrada a boa velocidade, derrotando a cada dia, os prognósticos malévolos de quem assim a apodou e esperava vê-la desconjuntar-se na primeira curva. Então, perguntar-me-ão, porque vens para aqui salmodiando tristezas, deplorando futuros? É que, como já vos disse, estou inquieto. Desde há muitos anos defendo a união das esquerdas – mesmo sobre um programa mínimo – a transformar em maioria de poder a maioria sociológica que nos vínhamos contentando em ser. Então deves estar satisfeito! O acordo não quebrou, o prometido não foi de vidro, foi-se cumprindo, o pior já está passado.

 

Ora precisamente aqui reside a minha angústia. Quando o perigo é visível tomam-se precauções. Quando nos sentimos seguros deixamos alguns cuidados de lado, desacreditamos de riscos, facilitamos a intrusão. Bolas! És mesmo desconfiado! Porque tenho razões. Lembra-te da frente fria. Lá estás tu com jeitos de pitonisa meteorológica. Troca isso por miúdos. Está bem! Comecei a ficar receoso com a inflação na Alemanha. Isso é lá com os alemães. Seria caso não pertencêssemos à moeda única e um espirro da Alemanha criar, na Europa, uma epidemia de gripe. Queres dizer? O custo dos nossos empréstimos, a dez anos, subiu para 3,9%. Ora, isso é muito mais baixo que os 7% a pôr-nos nas mãos da “troika”. Parece, na verdade sê-lo. Tem porém em conta que só podemos ir buscar dinheiro ao mercado, com o apoio do Banco Central Europeu, desde que uma agência de “ranking” nos mantenha acima da condição de lixo. É verdade! Como sabes a única a valorizar-nos é a canadense DBRS. Correto! Tomaste em devida conta a afirmação de terem de rever a posição se os juros chegarem aos 4%? Ó Diabo! Não me lembrava. Cala-te lá com invocações aleivosas. Deixa o Diabo em paz, com o Passos Coelho. Não desistas porém de preocupar-te. É apenas esta a angústia que te assalta? Antes fosse! Trago umas PPP na garganta. Isso quer dizer? Pareceria Público Privado. Assim um negócio onde o Estado põe os meios, os privados gerem, se der lucro arrecadam, se der prejuízo, o Estado – logo nós – paga! Que belo negócio. É quase o Euromilhões com a certeza de acertar. Pois é. É a isto que os investidores privados chamam a remuneração do risco. Qual risco? Isso não te sei dizer, mas lá que chamam, chamam.

 

Somente não ficam por aqui as minhas preocupações. Mais maus agoiros? Diz antes premonições. Estou com receio das autárquicas. É pá, isso são eleições locais, nada têm a ver com o Governo ou o Parlamento. É o que te parece! Observa para trás e vê os discursos dos vencedores antes das eleições e depois de as ganharem. Mudam completamente. Tens razão! Olha, o PS está a subir nas eleições. Isso é bom, não é? Claro que sim. Tira espaço à direita. Deves estar contente. Pelo contrário inquieta-me. Ora essa, a que propósito? Sabes, as nações e os partidos não têm amigos, tem aliados ou adversários e as suas juras não garantem fidelidade eterna. São os interesses que os guiam. Quando mudam os contextos, mudam os “amigos”. Mas não está nada disso no horizonte, pois não. É precisamente essa a minha insegurança. Queres dizer? Nem toda a gente, em todos os partidos das esquerdas está de acordo com esta associação. O resultado das eleições, ou o seu pressuposto, podem levar muitos a quererem reformular as coisas, a dar passos atrás. Além disso terão sempre a apoiá-los uma Europa que observa com desagrado um Governo, com apoio das esquerdas, a contrariar o seu plano de colonização ideológica dos povos europeus. Vê tu bem como mais nenhum país – nem a Espanha – conseguiu construir algo semelhante. A Europa já estava alertada, não permitiu mais nenhuma escorregadela. Não gostas muito da Europa! Pelo contrário, Sou Português e Europeu! Mas a Europa do Euro, de Maastricht e do Tratado de Lisboa, é a da dominação alemã e da finança, nada tem a ver com a Europa dos cidadãos. Esta Europa não quero, não me serve! O PS é um partido europeísta, não é? Sempre o foi. Essa é outra contradição a avolumar-se no caminho da Geringonça. O António Costa está pior que na canção. Tem três amores! É lá! Nem duvides. Divide-se entre a Europa e os seus desígnios, o Presidente da República e a Geringonça. Todas as noites tem de dormir em casa de um. Cá para mim isto só dura até que um deles comece a reivindicar mais tempo, mais afeto, mais permanência. Nesse caso? Haverá divórcio, pela certa. É isso que temes? É isso que vislumbro no futuro. É o Diabo! É o Diabo! Lá estás tu com passices! Não é coisa mística nem inevitável. É tão-somente questão de firmeza, bom senso, que ninguém queira ser mais papista que o papa. Não será fácil. Pois não! Mas vale a pena tentar!

 

 

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 23:59

"Colar de Pérolas"

Quinta-feira, 08.12.16

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Foi assim! A Guida telefonou-me. Tens tempo? Sim, podes avançar. A São (Maria Barradas) vai lançar no dia 5 de novembro um livro de contos. Pediu-me para fazer o prefácio e a apresentação. Estás disponível para ouvires o que escrevi? Reafirmei a minha disponibilidade. Pela voz profunda e pausada da Guida começaram a desfilar as suas impressões sobre o “Colar de Contos”. Fiquei logo interessado ao ouvir o primeiro excerto. Ao convidar-me para ir a Évora, à sala dos Leões da Câmara Municipal, nem hesitei. Lá me encontrarás!

 

A primeira impressão agradável veio do público. Muito ao contrário daquilo que costuma acontecer nestes eventos, a sala estava cheia, alegre. Os lugares não chegavam, nem sequer a sala. Muita gente de pé no interior, bastante na balaustrada exterior. O livro, editado pela “ambiguaedições”, é um objeto bem cuidado, Contos” não poderia descrever de melhor forma o que vamos encontrar na leitura. Uma fiada de pequenas (grandes) histórias, onde, a partir do quase nada de um quotidiano vulgar se descobre o insólito de cada momento, tudo envolvido numa ironia conduzindo-nos, insidiosa, do sorriso à dor das pequenas tragédias a desenrolarem-se, contínuas, perante os nossos olhares, se não cegos, pelo menos distraídos. Por isso a autora, na frase tensa, sincopada, em cada texto manufatura uma conta/conto, com que vai perfazendo a circunferência (mais ou menos) do colar.

 

Diz-se que em Portugal se edita muito, compra-se pouco e se lê ainda menos. É provável que haja muito de verdade nisto e que as causas para tal sejam variadas. Não duvido que tal aconteça. Porém, isto é pensamento só de minha responsabilidade, edita-se muito lixo, o que poderá ser um dos fatores a desencadear a recusa à compra e posterior leitura. Arrisquem-se os amigos a procurar este livro na Editora (não sei como será a distribuição, problema maior daquilo que se lança), mas é sempre certo avançar com o pedido direto a quem edita e, fique certo, não perderá o seu tempo e ficará enriquecido com novas perspetivas sobre que somos e como reagimos ao que nos acontece, do mais vulgar ao insólito. Este livro não é lixo! É literatura a sério! Vale a pena ganhar tempo com a sua leitura.

 

Tenho dito!

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 13:12

AMANHÃ, DEPOIS… E DEPOIS

Segunda-feira, 07.11.16

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Amanhã Trump pode ser, ou não, eleito presidente dos Estados Unidos da América.

 Desta incerteza restará, porém uma forte certeza: o dia seguinte será para muitos anos o início de uma América diferente, dividida entre a modernidade das grandes urbes e a ignorância, mais profunda que a profundidade dessa América interior, branca, pobre e inculta, para quem Obama não nasceu nos Estados Unidos, é muçulmano, terrorista, além de, por causa do “obamacare”, de que são diretos beneficiários, ser também um perigoso comunista.

 

Por outro lado, a juventude, desconfiada da bondade das elites políticas, sobretudo das dinásticas, olha com desconfiança para Hillary, marcada pela nobreza republicana dos Clintons e quejandos oligarcas da “esquerda” americana. Fartos de crises, desconfiados dos políticos e de quem os suporta financeiramente, olhando descrentes para o futuro, não percebem bem porque hão de votar em alguém que comunga dos créditos daqueles que conduziram o mundo ao caos em presença.

 

Tudo isto poderia ser apenas a resultante de pensar demasiado em eleições num país que não é o nosso, mas não é! São eleições que não só demonstram o estado desse país, como, indo mais além, nos apresentam o doloroso caminho por onde o nosso mundo se obstina.

 

Faz hoje parte dos conhecimentos de qualquer ser humano normal, saber como as inovações tecnológicas alteram as relações sociais e, concomitantemente, as políticas. A facilidade de comunicação permitiu tornar o mundo mais pequeno, mais próximo. Isso é, indubitavelmente bom. Não há, porém nada de humano que, como Janus, não se apresente, no mínimo, com duas faces. A face mais obscura deste notável avanço foi o aumento, em tempo e espaço, da circulação dos capitais. As fronteiras (no caso a sua ausência), que a muitos, mesmos na União Europeia, tantos engulhos causam pela livre circulação de pessoas – nem sequer estou a pensar nos refugiados – as fronteiras, repito, tornam-se inexistentes para os capitais à procura de paragens menos complicadas, mais propicias ao seu rápido crescimento.

 

A esta facilidade juntou-se a, um pouco mais trabalhosa, deslocalização industrial para o terceiro mundo, na procura de custo menos elevados para proporcionar à gente ocidental a possibilidade, querida infinita, de consumir cada vez mais pagando menos, de elevarmos os dividendos acionários. Nós por cá, cheios de pena de tão deserdados seres, pensando apenas em como poderíamos dispor de tantas mais coisas ao preço da chuva, assobiamos para o lado, esquecidos de que fábrica transitada para um local era desemprego garantido em outro e por aí fomos alegres e contentes, deslocalizando, desregulando, até, na forma de crise, vermos o nosso modo de vida ameaçado. Não é que mais que ameaçado ele não estivesse já condenado. O bem-estar das social-democracias baseava-se na pobreza endémica de vastas regiões de África e Ásia, primeiro como colónias, depois, independentes, como fornecedores baratos de matérias-primas e mão-de-obra. Era tão conveniente! Nós até lhe permitíamos melhorar a vida em troca de bens e esforços que eles tão agradecidamente cediam. Porém, é sabido, nem há bem que sempre dure, nem mal que sempre se ature, e os solícitos fornecedores começaram a sentir-se espoliados, a requerer o seu lugar no banquete. Aí foi uma carga de trabalhos. As coisas que iam tão bem encaminhadas começaram a dar para o torto. Incapacitados para atingirem quem de longe os feria, como é epidémico costume, atingiram quem estava a jeito, mais perto. Com uns empurrãozinho dos ocidentes, gulosos por mais um naco, ei-los, em nome da democracia, que teimam em enterrar nos meles do mais selvagem neoliberalismo, a impelir as gentes para duvidosas primaveras, apenas servindo para desestabilizar ainda mais o mundo, permitindo o fluxo contínuo na produção e venda de armamento, o regresso da guerra fria, onde os principais adversários, se digladiam através de combates dispersos um pouco por todo o lado.

 

Aquilo que se espera das eleições de amanhã é apenas a continuação (Hillary), ou o aceleramento (Trump) do triste panorama que os nossos olhos vêm e o raciocínio teme. O rápido deslize para guerras de maior intensidade - a começarem dentro dos países - entre possuidores e despossuídos, sempre com o risco de, a partir de qualquer minudência, descambar para mais generalizado e, possivelmente, definitivo conflito entre potências de credos aparentemente diferentes, mas unidos no essencial: a conquista de cada vez mais poder, de maior quantidade de recursos, mesmo que tal custe a sobrevivência humana na Terra.

 

Tudo isto, que é muito pobre como análise do momento, faz-me retornar a António Sérgio: “uma fronteira é o lugar mais distante onde uma classe dominante consegue levar o seu exército.”

 

E mais não digo!

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publicado por Carlos Alberto Correia às 22:00

Burquinis e outras analepses

Domingo, 28.08.16

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Quando, há alguns anos atrás, estalou em França a polémica sobre o uso de lenços por alunas muçulmanas em escolas oficiais, estive, de coração aberto, a favor dessa medida. Considerava, e ainda considero, que num estado laico as religiões se devem manter afastadas dos centros de poder republicanos, devendo, o mais possível, ater-se à condução espiritual das almas, de molde a atribuir a cada uma, consoante os méritos demonstrados, um pedaço maior ou menor de paraíso post-mortem. Considero ainda que qualquer indivíduo, seja ele quem for, enquanto permanecer num país estranho estará, para o melhor e para o pior, sujeito às leis desse país. Aquilo que um cidadão precavido deverá fazer, caso não aceite leis ou comportamentos locais, é não ir a esses sítios. Se, porém, optar por ir ou permanecer deverá aceitar os usos e costumes locais, evitando quaisquer choques culturais.

 

Nisto me baseava de boa-fé para suportar, em muitas discussões com amigos de opinião contrária, a bondade da norma francesa.

 

Porém, sujeitando-me a alguma crítica etnocêntrica, comecei a verificar a unidirecionalidade da medida, bem como as inúmeras exceções que a mesma comportava. Observei, por exemplo que aos cristãos não era proibido ostentar crucifixos em nenhum lugar; que os budistas podiam, sem qualquer receio, passear-se por onde quisessem, no açafrão dos trajos e que ninguém se opunha ao chapéu e melenas dos ortodoxos judaicos.

 

Aqui chegado os meus critérios começaram a vacilar. Cada vez se me afigurava mais ser uma medida apenas virada contra os islâmicos e isso era, eticamente, inaceitável. Como dizia um ex-governante – de quem não sou um fiel – a quem usurpei esta bela frase englobante, sou republicano, socialista e laico, como tal defensor acérrimo da Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Não poderia, assim, sem grande desconforto de alma, aceitar algo que, parecendo correto, conduzia a uma discriminação contra um grupo particular. Vejam lá se me consigo fazer entender. Continuo a não aceitar teocracias (ai Vaticano), sou contra a subordinação das mulheres, contra burcas e quejandos medos do corpo, sempre instituídos por morais criadas por grupos dominantes para conseguirem, sem revoltas lúcidas, a submissão dos outros.

 

Deste modo passei a considerar injusta tal lei a não ser que fosse aplicada igualmente a todos os credos e seus símbolos.

 

Como toda a gente com um mínimo de humanidade revoltei-me contra os atos terroristas, não apenas os acontecidos na Europa, mas os de todo o mundo, e gostaria de ver presos, julgados e condenados por tribunais internacionais, os perpetradores de tais crimes. Não que eles sejam mais pesados que aqueles cometidos à sombra de políticas, sempre bem-intencionadas e com bastante aceitação popular, que levam a pobreza, o desemprego, o desespero, a humilhação, etc. a tantos lares deste mundo, apenas para que um punhado de fulanos seja cada vez mais rico e cada vez lucre mais com a miséria dos povos, criando esta guerra de intermitência globalizante que justifica todos os excessos em nome de excessos anteriores.

 

Suficientemente demonstradas razões e posições, retomo o tema que intitula esta crónica.

 

Gozava de um modestamente requintado bem-estar termal quando a notícia da proibição do burquini me entrou pelo quarto dentro. O jornalista explicava como em Nice, lugar de sofrimento recente por ato de terrorismo, tais peças de vestuário atentavam contra o sentimento dos franceses e eram um ato de discriminação feminino. Pois claro! Tinha toda a razão. Apesar da sensualidade revelada por alguns modelos, envoltos em tais trajos, era uma ofensa aos bons costumes pôr-se uma mulher tão vestida em lugar onde obrigatoriamente devia desnudar-se. Além de um contrassenso era manifesta falta de gosto, já sem falar na ofensa à moral pública. Por isso as autoridades foram lépidas e mandaram – cá volta o domínio político sobre o corpo de cada um, definindo o que é lícito ocultar e obrigatório mostrar – proibir tal trajo nas exíguas areias das suas tão reputadas praias.

 

(Abro aqui um parêntesis para recordar aos mais novos a renhida luta que a moral salazarenta travou contra o biquíni e que levou muito cabo de mar, de metro em punho, não só a verificar se o fato de banho da senhora tinha saiote, mas se o mesmo estava na medida preconizada, como a verificar se os calções de banho dos cavalheiros eram decentes e se tinham os centímetros de perna obrigatórios.)

 

 O exemplo de Nice pegou e foi como fogo em mata seca a expansão de tal interdição noutras praias francesas. Com tal força se vinculou esta ideia que me foi permitido ver – ó ironia – em nome da moral, uma senhora, possivelmente muçulmana, além de multada, ser obrigada a despir-se em plena praia. Até onde não consegui perceber porque a reportagem, por pudica, não deu azo a que cevasse a minha lubricidade.

 

O que porém me deixou um tanto ou quanto preocupado é o que poderá acontecer a qualquer compadre ou comadre provençais, idos de excursão a ver o mar, querendo, com toda a tranquilidade, passear-se de calças arregaçadas ou saias levemente repuxadas - quiçá o cabelo protegido por um lenço - pela orla da praia. O que lhes poderá acontecer? Para além da multa, quanto os mandarão despir? Na falta de fato de banho as cuecas serão aceitáveis? E, ó pensamento do diabo, se forem à praia, gozar da aragem salina, um grupo de castas freiras? Já estou a ver o Vaticano em fúria a declarar guerra à França.

 

Ou estarei enganado e qualquer não muçulmano pode estar, na praia, com lhe aprouver?

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 17:36

A lógica do transepto

Terça-feira, 19.07.16

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Para quem ficar admirado pelo título desta croniqueta avançarei duas breves explicações. Uma de natureza arquitetónica, outra mais ou menos sociopolítica. A primeira define o transepto como aquela parte da igreja, antes da capela-mor, que atravessa o corpo principal do templo conferindo-lhe a habitual forma de cruz. Explicitando melhor, seriam os seus braços! A segunda tem a ver comigo, com o especial modo – cheio de simpatia própria, como é evidente – como me defino. Sou, para todos os efeitos, um extremista conciliador. Não fora a lógica do transepto e poder-me-iam clamar a evidência da contradição dos termos. Mas eu explico. Porque não creio que as lógicas estruturais de uma sociedade sofram qualquer alteração de monta, sem que movimentos radicais as venham pôr violentamente em causa, coloco-me nos extremos; porque sei que tais movimentações obedecem a critérios específicos, não se fazem ou aparecem quando qualquer quer, só quando as condições objetivas tal possibilitam, vejo-me obrigado, nem que seja por tática, a contemporizar com medidas as quais não anulando o mal, pelo menos o travam ou diminuem-lhe os efeitos. Como se pode observar, qualquer dos casos exposto pode ser considerado como atravessamento do corpo principal das situações a expor.

 

Estarão, neste momento, a perguntar, mas o que é que este gajo quer dizer com este arrazoado? Simplesmente falar destas duas noites arrasadoras que o meios de comunicação social nos serviram e, a muitos, fez estar acordados, noite fora, na expectativa do entendimento ou consecução dos atos que em direto – ou quase – desfilavam perante os nossos olhos, na relativa incomodidade causada pelo posicionamento, de muitas horas, no descómodo do sofá. Já sei ser voz corrente as críticas, entre outros meios, às televisões sobre estes programas e, como muita gente vai dizendo – arranhando mal o conceito de Hannh Arendt – que tal só leva à “banalização do mal”. Pois, apesar da verborreia de alguns pivôs, da falta de conhecimentos sobre os fenómenos relatados, pese embora as profundas opiniões de puro senso comum de alguns doutos comentadores apanhados de surpresa, sem tempo para ilustrarem no vade-mécum do ofício a erudita parlenda a debitar, estou contra todas esses pareceres. O mal não se banaliza porque no-lo mostram, à hora de jantar, em maiores ou menores doses. Pode habituar-nos, é certo, mas apenas porque o mal já está, desde há muito, banalizado. Aquilo que nos mostram não é inventado como espetáculo para nos ser servido como distração. É o real a acontecer, debaixo dos nossos olhos e sim, também as variadas tentativas de interpretação ou manipulação do mesmo. Mas, para alguma coisa viemos providos de uma máquina de pensar. É caso para dizer, não culpem o mensageiro. Antes analisem a forma como transmite o conteúdo, que não fabricou, lhe foi transmitido por outrem, segundo a interpretação de alguém a servir interesses, por vezes, difíceis de destrinçar.

 

Este longo prólogo destina-se a situar-me na apresentação, como já devem ter presumido, do morticínio de Nice e dos acontecimentos na Turquia.

 

Comecemos pelo primeiro. Na corrida entre terroristas e forças da ordem, aqueles têm nítidas vantagens sobre estes. São eles quem determina o onde, o modo e o tempo. Claro que deveremos exigir aos serviços de informação um trabalho atento e eficaz, embora saibamos que é quase o mesmo que pedir à água que não molhe. Isto porque, para ser eficaz teria de haver empenhamento, meios e sobretudo partilha de informação. Se dos dois primeiros vai havendo o bastante, a última condição é quase insuperável. Nos serviços de inteligência a informação é poder. Não se cede, troca-se. Mesmo que os governos aflitos exijam tal barganha, haverá, a muitos níveis, resistências várias as quais, no mínimo, atrasarão o reconhecimento de gentes e probabilidades, permitindo, por vezes, que o pior aconteça. Por outro lado, o Euro exigiu um esforço sobre-humano às várias polícias e serviços de tratamento de informação. Claro, passado o evento, descontraíram e isto, sim, pode ter causado um erro técnico muito importante. Deveria saber-se que, não tendo havido nenhum atentado no decorrer do Euro, seria expetável que, logo a seguir, em local improvável onde houvesse aglomeração de pessoas, algo poderia acontecer. Não sou especialista, não disponho de informação privilegiada, mas em conversa familiar não deixei de, antes dos acontecimentos, levantar tal receio. Depois, não se percebe como, no local, a polícia permitiu o estacionamento por largo período e, posteriormente, a deslocação de um veículo pesado, sem qualquer designação de empresa, com a simples explicação de que estava ali para fornecer as empresas de gelados. Nem sequer verificaram o conteúdo do transporte, em tempo de estado de emergência declarado? Cá para mim isto chama-se negligência. A seu tempo algumas cabeças irão rolar. O chato é que os mortos não voltam e os feridos não o deixarão de ser e de sofrer todas as consequências do acontecido. Nos tempos que correm, não se pode dormir na forma. Muito menos quem tem o dever de assegurar a nossa tranquilidade.

 

Ainda mal refeito dos acontecimentos da noite anterior nova notícia obrigava os canais noticiosos a outra maratona. Golpe de Estado na Turquia. A Europa tremeu, os Estados Unidos ficaram mudos, a Rússia foi rápida a condenar. Nada ouvi dizer sobre a posição da China. Por todo o lado a mesma confusão. Havia tiros, passagens rasantes de caças, helicópteros a disparar sobre a multidão. Edorgan não está, está sim, senhor; Edorgan não conseguiu aterrar na Alemanha, Edorgan já está no Irão e por aí adiante. Pelos nossos olhos passavam imagens, ouvíamos os tiros e comentários cautelosos. Dois factos houve que me levaram a augurar mau resultado para os apoiantes do golpe. Um foi não se perceber como foi possível deixar passar o apelo do Presidente, na CNN turca, como as redes sociais puderam continuar utilizáveis, como foi tão fácil desalojarem as tropas insurrectas ocupantes da estação pública de televisão, porque seriam tão poucas as forças empenhadas naquele tão importante objetivo? O outro tem a ver com a notícia de um jato ter atingido um heli dos revoltosos. Tal facto denunciava divisão nas forças armadas. Somando-se a isto o apelo público feito por Edorgan para que o povo viesse, desarmado, enfrentando tanques, defender-lhe o lugar, sabendo estar a precipitar uma noite sangrenta, sob a moral do dito senhor, tudo fica dito. Só por curiosidade relembro que no 25 de Abril, o apelo dos militares era para que o povo se resguardasse em casa. Não queriam escudo humano a protege-los. Tomavam sobre si a responsabilidade e riscos da ação. Uma posição semelhante à tomada pelos revoltosos turcos, contrariada por Edorgan. Percebe-se bem quem tinha preocupações com o que pudesse acontecer ao Povo. De qualquer modo, quando os apoiantes do Presidente, aderindo às chamadas dele próprio e dos clérigos nas mesquitas saíram, em massa, às ruas, a revolta estava condenada.

No entanto, nesta altura, desconhecendo quem eram os golpistas e mal sabendo o que queriam e que forças tinham, comecei a ter por eles alguma simpatia (não se esqueçam que sou um extremista). Talvez porque não quiseram escudar-se na população; talvez porque poucos dispararam sobre os manifestantes – foi interessante perceber que grande parte dos mortos eram militares revoltosos que se negaram a atingir os populares, acabando mortos por eles -; talvez porque não tenho a mínima simpatia por Edorgan, nem pelo mal que tem feito ao seu país e mesmo à Europa com o comportamento dúbio sobre as tropas do Daesh; talvez porque, defeitos de um feitio republicano, defenda a separação de poderes, a laicidade do Estado; mesmo percebendo que não seria já possível ganhar a parada, desejava, bem no fundo do inconsciente que, sem derramamento de sangue, a revolta triunfasse.

 

Pronto, sei que me vão dizer que apesar de tudo Edorgan é um líder eleito, que o tempo dos golpes passou e mesmo os partidos da oposição declararam-se contra os revoltosos. Têm toda a razão. Mais uma vez é este meu feitio extremista a manifestar-se.

 

E não tinha razão!

 

Porque logo no dia seguinte, mostrando uma eficiência nunca conseguida no tratamento dos refugiados, ou na luta contra o dito estado islâmico, em pouco mais de oito horas, conseguiram detetar, investigar, prender, dois mil setecentos e cinquenta juízes, ligados aos revoltosos. Com uma polícia tão atuante, tão capaz, como se deixaram surpreender pelo golpe? Mistério que ficou a zunir-me na alma. E a eficiência continua. Pelas últimas notícias já lá vão mais de nove mil suspeitos. Suspeitos, uma ova! Pelos cânones que Edorgan quer introduzir e que a democracia nunca lhe concedeu, são já condenados só pelo facto de terem sido presos. Pois é verdade, voltemos à legitimidade eleitoral. Para além de a Constituição prever o direito – discutível, mas historicamente compreensível - dos militares tomarem o poder, quando ele se desviasse dos princípios basilares, coisa inegável porquanto todas as democracias vinham acusando o homem de estar a conduzir o país para a ditadura, de não respeitar direitos humanos, de prender jornalistas, fechar meios de comunicação que não cantassem no coro da sua igreja. Mas o facto é que tinha sido eleito! Ainda bem que Hitler tomou o poder por um golpe de estado e nunca, por nunca ser, recorreu a eleições, caso contrário ainda hoje estaria no poder (ou será que por outros meios não estará de volta?). Bem, isto sou eu a dizer, sabendo que estou a ser puxado por aquela costela extremista. No entanto, como também sou conciliador, não poderei deixar de concordar que sim, que está, democraticamente, a levar a Turquia para o abismo e, disparate, que temos nós a ver com isso, dado o senhor ter o largo apoio da maioria dos seus cidadãos? Têm toda a razão. Deixemos que democraticamente instaure a pena de morte, que se livre de todos quantos não pensam como ele, porque só ele é o democrático representante daquele país, e esperemos que a Sharia venha, um destes dias, a estabelecer-se democraticamente na Turquia, permitindo um salto civilizacional numa das portas da Europa. Já que a outra, a Grécia, a própria Europa, para se defender da invasão dos bárbaros, muito inteligentemente está a desfazê-la, a pontapés.

 

Tudo isto, e muito mais que não há espaço para referir, não passa de um cruzamento paralelo, um transepto, no corpo de um templo chamado liberalismo, mercado, desregulamentação, globalização financeira, os verdadeiros deuses por detrás de tudo o que no mundo vem acontecendo, connosco perplexos a tentar perceber os porquês deste grande Porquê?

 

 

Publicado em “Rosto on-line”

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 00:18








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