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AMANHÃ, DEPOIS… E DEPOIS

Segunda-feira, 07.11.16

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Amanhã Trump pode ser, ou não, eleito presidente dos Estados Unidos da América.

 Desta incerteza restará, porém uma forte certeza: o dia seguinte será para muitos anos o início de uma América diferente, dividida entre a modernidade das grandes urbes e a ignorância, mais profunda que a profundidade dessa América interior, branca, pobre e inculta, para quem Obama não nasceu nos Estados Unidos, é muçulmano, terrorista, além de, por causa do “obamacare”, de que são diretos beneficiários, ser também um perigoso comunista.

 

Por outro lado, a juventude, desconfiada da bondade das elites políticas, sobretudo das dinásticas, olha com desconfiança para Hillary, marcada pela nobreza republicana dos Clintons e quejandos oligarcas da “esquerda” americana. Fartos de crises, desconfiados dos políticos e de quem os suporta financeiramente, olhando descrentes para o futuro, não percebem bem porque hão de votar em alguém que comunga dos créditos daqueles que conduziram o mundo ao caos em presença.

 

Tudo isto poderia ser apenas a resultante de pensar demasiado em eleições num país que não é o nosso, mas não é! São eleições que não só demonstram o estado desse país, como, indo mais além, nos apresentam o doloroso caminho por onde o nosso mundo se obstina.

 

Faz hoje parte dos conhecimentos de qualquer ser humano normal, saber como as inovações tecnológicas alteram as relações sociais e, concomitantemente, as políticas. A facilidade de comunicação permitiu tornar o mundo mais pequeno, mais próximo. Isso é, indubitavelmente bom. Não há, porém nada de humano que, como Janus, não se apresente, no mínimo, com duas faces. A face mais obscura deste notável avanço foi o aumento, em tempo e espaço, da circulação dos capitais. As fronteiras (no caso a sua ausência), que a muitos, mesmos na União Europeia, tantos engulhos causam pela livre circulação de pessoas – nem sequer estou a pensar nos refugiados – as fronteiras, repito, tornam-se inexistentes para os capitais à procura de paragens menos complicadas, mais propicias ao seu rápido crescimento.

 

A esta facilidade juntou-se a, um pouco mais trabalhosa, deslocalização industrial para o terceiro mundo, na procura de custo menos elevados para proporcionar à gente ocidental a possibilidade, querida infinita, de consumir cada vez mais pagando menos, de elevarmos os dividendos acionários. Nós por cá, cheios de pena de tão deserdados seres, pensando apenas em como poderíamos dispor de tantas mais coisas ao preço da chuva, assobiamos para o lado, esquecidos de que fábrica transitada para um local era desemprego garantido em outro e por aí fomos alegres e contentes, deslocalizando, desregulando, até, na forma de crise, vermos o nosso modo de vida ameaçado. Não é que mais que ameaçado ele não estivesse já condenado. O bem-estar das social-democracias baseava-se na pobreza endémica de vastas regiões de África e Ásia, primeiro como colónias, depois, independentes, como fornecedores baratos de matérias-primas e mão-de-obra. Era tão conveniente! Nós até lhe permitíamos melhorar a vida em troca de bens e esforços que eles tão agradecidamente cediam. Porém, é sabido, nem há bem que sempre dure, nem mal que sempre se ature, e os solícitos fornecedores começaram a sentir-se espoliados, a requerer o seu lugar no banquete. Aí foi uma carga de trabalhos. As coisas que iam tão bem encaminhadas começaram a dar para o torto. Incapacitados para atingirem quem de longe os feria, como é epidémico costume, atingiram quem estava a jeito, mais perto. Com uns empurrãozinho dos ocidentes, gulosos por mais um naco, ei-los, em nome da democracia, que teimam em enterrar nos meles do mais selvagem neoliberalismo, a impelir as gentes para duvidosas primaveras, apenas servindo para desestabilizar ainda mais o mundo, permitindo o fluxo contínuo na produção e venda de armamento, o regresso da guerra fria, onde os principais adversários, se digladiam através de combates dispersos um pouco por todo o lado.

 

Aquilo que se espera das eleições de amanhã é apenas a continuação (Hillary), ou o aceleramento (Trump) do triste panorama que os nossos olhos vêm e o raciocínio teme. O rápido deslize para guerras de maior intensidade - a começarem dentro dos países - entre possuidores e despossuídos, sempre com o risco de, a partir de qualquer minudência, descambar para mais generalizado e, possivelmente, definitivo conflito entre potências de credos aparentemente diferentes, mas unidos no essencial: a conquista de cada vez mais poder, de maior quantidade de recursos, mesmo que tal custe a sobrevivência humana na Terra.

 

Tudo isto, que é muito pobre como análise do momento, faz-me retornar a António Sérgio: “uma fronteira é o lugar mais distante onde uma classe dominante consegue levar o seu exército.”

 

E mais não digo!

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publicado por Carlos Alberto Correia às 22:00

Burquinis e outras analepses

Domingo, 28.08.16

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Quando, há alguns anos atrás, estalou em França a polémica sobre o uso de lenços por alunas muçulmanas em escolas oficiais, estive, de coração aberto, a favor dessa medida. Considerava, e ainda considero, que num estado laico as religiões se devem manter afastadas dos centros de poder republicanos, devendo, o mais possível, ater-se à condução espiritual das almas, de molde a atribuir a cada uma, consoante os méritos demonstrados, um pedaço maior ou menor de paraíso post-mortem. Considero ainda que qualquer indivíduo, seja ele quem for, enquanto permanecer num país estranho estará, para o melhor e para o pior, sujeito às leis desse país. Aquilo que um cidadão precavido deverá fazer, caso não aceite leis ou comportamentos locais, é não ir a esses sítios. Se, porém, optar por ir ou permanecer deverá aceitar os usos e costumes locais, evitando quaisquer choques culturais.

 

Nisto me baseava de boa-fé para suportar, em muitas discussões com amigos de opinião contrária, a bondade da norma francesa.

 

Porém, sujeitando-me a alguma crítica etnocêntrica, comecei a verificar a unidirecionalidade da medida, bem como as inúmeras exceções que a mesma comportava. Observei, por exemplo que aos cristãos não era proibido ostentar crucifixos em nenhum lugar; que os budistas podiam, sem qualquer receio, passear-se por onde quisessem, no açafrão dos trajos e que ninguém se opunha ao chapéu e melenas dos ortodoxos judaicos.

 

Aqui chegado os meus critérios começaram a vacilar. Cada vez se me afigurava mais ser uma medida apenas virada contra os islâmicos e isso era, eticamente, inaceitável. Como dizia um ex-governante – de quem não sou um fiel – a quem usurpei esta bela frase englobante, sou republicano, socialista e laico, como tal defensor acérrimo da Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Não poderia, assim, sem grande desconforto de alma, aceitar algo que, parecendo correto, conduzia a uma discriminação contra um grupo particular. Vejam lá se me consigo fazer entender. Continuo a não aceitar teocracias (ai Vaticano), sou contra a subordinação das mulheres, contra burcas e quejandos medos do corpo, sempre instituídos por morais criadas por grupos dominantes para conseguirem, sem revoltas lúcidas, a submissão dos outros.

 

Deste modo passei a considerar injusta tal lei a não ser que fosse aplicada igualmente a todos os credos e seus símbolos.

 

Como toda a gente com um mínimo de humanidade revoltei-me contra os atos terroristas, não apenas os acontecidos na Europa, mas os de todo o mundo, e gostaria de ver presos, julgados e condenados por tribunais internacionais, os perpetradores de tais crimes. Não que eles sejam mais pesados que aqueles cometidos à sombra de políticas, sempre bem-intencionadas e com bastante aceitação popular, que levam a pobreza, o desemprego, o desespero, a humilhação, etc. a tantos lares deste mundo, apenas para que um punhado de fulanos seja cada vez mais rico e cada vez lucre mais com a miséria dos povos, criando esta guerra de intermitência globalizante que justifica todos os excessos em nome de excessos anteriores.

 

Suficientemente demonstradas razões e posições, retomo o tema que intitula esta crónica.

 

Gozava de um modestamente requintado bem-estar termal quando a notícia da proibição do burquini me entrou pelo quarto dentro. O jornalista explicava como em Nice, lugar de sofrimento recente por ato de terrorismo, tais peças de vestuário atentavam contra o sentimento dos franceses e eram um ato de discriminação feminino. Pois claro! Tinha toda a razão. Apesar da sensualidade revelada por alguns modelos, envoltos em tais trajos, era uma ofensa aos bons costumes pôr-se uma mulher tão vestida em lugar onde obrigatoriamente devia desnudar-se. Além de um contrassenso era manifesta falta de gosto, já sem falar na ofensa à moral pública. Por isso as autoridades foram lépidas e mandaram – cá volta o domínio político sobre o corpo de cada um, definindo o que é lícito ocultar e obrigatório mostrar – proibir tal trajo nas exíguas areias das suas tão reputadas praias.

 

(Abro aqui um parêntesis para recordar aos mais novos a renhida luta que a moral salazarenta travou contra o biquíni e que levou muito cabo de mar, de metro em punho, não só a verificar se o fato de banho da senhora tinha saiote, mas se o mesmo estava na medida preconizada, como a verificar se os calções de banho dos cavalheiros eram decentes e se tinham os centímetros de perna obrigatórios.)

 

 O exemplo de Nice pegou e foi como fogo em mata seca a expansão de tal interdição noutras praias francesas. Com tal força se vinculou esta ideia que me foi permitido ver – ó ironia – em nome da moral, uma senhora, possivelmente muçulmana, além de multada, ser obrigada a despir-se em plena praia. Até onde não consegui perceber porque a reportagem, por pudica, não deu azo a que cevasse a minha lubricidade.

 

O que porém me deixou um tanto ou quanto preocupado é o que poderá acontecer a qualquer compadre ou comadre provençais, idos de excursão a ver o mar, querendo, com toda a tranquilidade, passear-se de calças arregaçadas ou saias levemente repuxadas - quiçá o cabelo protegido por um lenço - pela orla da praia. O que lhes poderá acontecer? Para além da multa, quanto os mandarão despir? Na falta de fato de banho as cuecas serão aceitáveis? E, ó pensamento do diabo, se forem à praia, gozar da aragem salina, um grupo de castas freiras? Já estou a ver o Vaticano em fúria a declarar guerra à França.

 

Ou estarei enganado e qualquer não muçulmano pode estar, na praia, com lhe aprouver?

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 17:36

A lógica do transepto

Terça-feira, 19.07.16

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Para quem ficar admirado pelo título desta croniqueta avançarei duas breves explicações. Uma de natureza arquitetónica, outra mais ou menos sociopolítica. A primeira define o transepto como aquela parte da igreja, antes da capela-mor, que atravessa o corpo principal do templo conferindo-lhe a habitual forma de cruz. Explicitando melhor, seriam os seus braços! A segunda tem a ver comigo, com o especial modo – cheio de simpatia própria, como é evidente – como me defino. Sou, para todos os efeitos, um extremista conciliador. Não fora a lógica do transepto e poder-me-iam clamar a evidência da contradição dos termos. Mas eu explico. Porque não creio que as lógicas estruturais de uma sociedade sofram qualquer alteração de monta, sem que movimentos radicais as venham pôr violentamente em causa, coloco-me nos extremos; porque sei que tais movimentações obedecem a critérios específicos, não se fazem ou aparecem quando qualquer quer, só quando as condições objetivas tal possibilitam, vejo-me obrigado, nem que seja por tática, a contemporizar com medidas as quais não anulando o mal, pelo menos o travam ou diminuem-lhe os efeitos. Como se pode observar, qualquer dos casos exposto pode ser considerado como atravessamento do corpo principal das situações a expor.

 

Estarão, neste momento, a perguntar, mas o que é que este gajo quer dizer com este arrazoado? Simplesmente falar destas duas noites arrasadoras que o meios de comunicação social nos serviram e, a muitos, fez estar acordados, noite fora, na expectativa do entendimento ou consecução dos atos que em direto – ou quase – desfilavam perante os nossos olhos, na relativa incomodidade causada pelo posicionamento, de muitas horas, no descómodo do sofá. Já sei ser voz corrente as críticas, entre outros meios, às televisões sobre estes programas e, como muita gente vai dizendo – arranhando mal o conceito de Hannh Arendt – que tal só leva à “banalização do mal”. Pois, apesar da verborreia de alguns pivôs, da falta de conhecimentos sobre os fenómenos relatados, pese embora as profundas opiniões de puro senso comum de alguns doutos comentadores apanhados de surpresa, sem tempo para ilustrarem no vade-mécum do ofício a erudita parlenda a debitar, estou contra todas esses pareceres. O mal não se banaliza porque no-lo mostram, à hora de jantar, em maiores ou menores doses. Pode habituar-nos, é certo, mas apenas porque o mal já está, desde há muito, banalizado. Aquilo que nos mostram não é inventado como espetáculo para nos ser servido como distração. É o real a acontecer, debaixo dos nossos olhos e sim, também as variadas tentativas de interpretação ou manipulação do mesmo. Mas, para alguma coisa viemos providos de uma máquina de pensar. É caso para dizer, não culpem o mensageiro. Antes analisem a forma como transmite o conteúdo, que não fabricou, lhe foi transmitido por outrem, segundo a interpretação de alguém a servir interesses, por vezes, difíceis de destrinçar.

 

Este longo prólogo destina-se a situar-me na apresentação, como já devem ter presumido, do morticínio de Nice e dos acontecimentos na Turquia.

 

Comecemos pelo primeiro. Na corrida entre terroristas e forças da ordem, aqueles têm nítidas vantagens sobre estes. São eles quem determina o onde, o modo e o tempo. Claro que deveremos exigir aos serviços de informação um trabalho atento e eficaz, embora saibamos que é quase o mesmo que pedir à água que não molhe. Isto porque, para ser eficaz teria de haver empenhamento, meios e sobretudo partilha de informação. Se dos dois primeiros vai havendo o bastante, a última condição é quase insuperável. Nos serviços de inteligência a informação é poder. Não se cede, troca-se. Mesmo que os governos aflitos exijam tal barganha, haverá, a muitos níveis, resistências várias as quais, no mínimo, atrasarão o reconhecimento de gentes e probabilidades, permitindo, por vezes, que o pior aconteça. Por outro lado, o Euro exigiu um esforço sobre-humano às várias polícias e serviços de tratamento de informação. Claro, passado o evento, descontraíram e isto, sim, pode ter causado um erro técnico muito importante. Deveria saber-se que, não tendo havido nenhum atentado no decorrer do Euro, seria expetável que, logo a seguir, em local improvável onde houvesse aglomeração de pessoas, algo poderia acontecer. Não sou especialista, não disponho de informação privilegiada, mas em conversa familiar não deixei de, antes dos acontecimentos, levantar tal receio. Depois, não se percebe como, no local, a polícia permitiu o estacionamento por largo período e, posteriormente, a deslocação de um veículo pesado, sem qualquer designação de empresa, com a simples explicação de que estava ali para fornecer as empresas de gelados. Nem sequer verificaram o conteúdo do transporte, em tempo de estado de emergência declarado? Cá para mim isto chama-se negligência. A seu tempo algumas cabeças irão rolar. O chato é que os mortos não voltam e os feridos não o deixarão de ser e de sofrer todas as consequências do acontecido. Nos tempos que correm, não se pode dormir na forma. Muito menos quem tem o dever de assegurar a nossa tranquilidade.

 

Ainda mal refeito dos acontecimentos da noite anterior nova notícia obrigava os canais noticiosos a outra maratona. Golpe de Estado na Turquia. A Europa tremeu, os Estados Unidos ficaram mudos, a Rússia foi rápida a condenar. Nada ouvi dizer sobre a posição da China. Por todo o lado a mesma confusão. Havia tiros, passagens rasantes de caças, helicópteros a disparar sobre a multidão. Edorgan não está, está sim, senhor; Edorgan não conseguiu aterrar na Alemanha, Edorgan já está no Irão e por aí adiante. Pelos nossos olhos passavam imagens, ouvíamos os tiros e comentários cautelosos. Dois factos houve que me levaram a augurar mau resultado para os apoiantes do golpe. Um foi não se perceber como foi possível deixar passar o apelo do Presidente, na CNN turca, como as redes sociais puderam continuar utilizáveis, como foi tão fácil desalojarem as tropas insurrectas ocupantes da estação pública de televisão, porque seriam tão poucas as forças empenhadas naquele tão importante objetivo? O outro tem a ver com a notícia de um jato ter atingido um heli dos revoltosos. Tal facto denunciava divisão nas forças armadas. Somando-se a isto o apelo público feito por Edorgan para que o povo viesse, desarmado, enfrentando tanques, defender-lhe o lugar, sabendo estar a precipitar uma noite sangrenta, sob a moral do dito senhor, tudo fica dito. Só por curiosidade relembro que no 25 de Abril, o apelo dos militares era para que o povo se resguardasse em casa. Não queriam escudo humano a protege-los. Tomavam sobre si a responsabilidade e riscos da ação. Uma posição semelhante à tomada pelos revoltosos turcos, contrariada por Edorgan. Percebe-se bem quem tinha preocupações com o que pudesse acontecer ao Povo. De qualquer modo, quando os apoiantes do Presidente, aderindo às chamadas dele próprio e dos clérigos nas mesquitas saíram, em massa, às ruas, a revolta estava condenada.

No entanto, nesta altura, desconhecendo quem eram os golpistas e mal sabendo o que queriam e que forças tinham, comecei a ter por eles alguma simpatia (não se esqueçam que sou um extremista). Talvez porque não quiseram escudar-se na população; talvez porque poucos dispararam sobre os manifestantes – foi interessante perceber que grande parte dos mortos eram militares revoltosos que se negaram a atingir os populares, acabando mortos por eles -; talvez porque não tenho a mínima simpatia por Edorgan, nem pelo mal que tem feito ao seu país e mesmo à Europa com o comportamento dúbio sobre as tropas do Daesh; talvez porque, defeitos de um feitio republicano, defenda a separação de poderes, a laicidade do Estado; mesmo percebendo que não seria já possível ganhar a parada, desejava, bem no fundo do inconsciente que, sem derramamento de sangue, a revolta triunfasse.

 

Pronto, sei que me vão dizer que apesar de tudo Edorgan é um líder eleito, que o tempo dos golpes passou e mesmo os partidos da oposição declararam-se contra os revoltosos. Têm toda a razão. Mais uma vez é este meu feitio extremista a manifestar-se.

 

E não tinha razão!

 

Porque logo no dia seguinte, mostrando uma eficiência nunca conseguida no tratamento dos refugiados, ou na luta contra o dito estado islâmico, em pouco mais de oito horas, conseguiram detetar, investigar, prender, dois mil setecentos e cinquenta juízes, ligados aos revoltosos. Com uma polícia tão atuante, tão capaz, como se deixaram surpreender pelo golpe? Mistério que ficou a zunir-me na alma. E a eficiência continua. Pelas últimas notícias já lá vão mais de nove mil suspeitos. Suspeitos, uma ova! Pelos cânones que Edorgan quer introduzir e que a democracia nunca lhe concedeu, são já condenados só pelo facto de terem sido presos. Pois é verdade, voltemos à legitimidade eleitoral. Para além de a Constituição prever o direito – discutível, mas historicamente compreensível - dos militares tomarem o poder, quando ele se desviasse dos princípios basilares, coisa inegável porquanto todas as democracias vinham acusando o homem de estar a conduzir o país para a ditadura, de não respeitar direitos humanos, de prender jornalistas, fechar meios de comunicação que não cantassem no coro da sua igreja. Mas o facto é que tinha sido eleito! Ainda bem que Hitler tomou o poder por um golpe de estado e nunca, por nunca ser, recorreu a eleições, caso contrário ainda hoje estaria no poder (ou será que por outros meios não estará de volta?). Bem, isto sou eu a dizer, sabendo que estou a ser puxado por aquela costela extremista. No entanto, como também sou conciliador, não poderei deixar de concordar que sim, que está, democraticamente, a levar a Turquia para o abismo e, disparate, que temos nós a ver com isso, dado o senhor ter o largo apoio da maioria dos seus cidadãos? Têm toda a razão. Deixemos que democraticamente instaure a pena de morte, que se livre de todos quantos não pensam como ele, porque só ele é o democrático representante daquele país, e esperemos que a Sharia venha, um destes dias, a estabelecer-se democraticamente na Turquia, permitindo um salto civilizacional numa das portas da Europa. Já que a outra, a Grécia, a própria Europa, para se defender da invasão dos bárbaros, muito inteligentemente está a desfazê-la, a pontapés.

 

Tudo isto, e muito mais que não há espaço para referir, não passa de um cruzamento paralelo, um transepto, no corpo de um templo chamado liberalismo, mercado, desregulamentação, globalização financeira, os verdadeiros deuses por detrás de tudo o que no mundo vem acontecendo, connosco perplexos a tentar perceber os porquês deste grande Porquê?

 

 

Publicado em “Rosto on-line”

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 00:18

O senhor Subir Lall

Quarta-feira, 29.06.16

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O senhor Subir Lall está a descer. Quis subir muito. Funcionário de organização financeira pensou (certamente ainda pensa) que o facto de fazer parte de um dos organismos implicados no empréstimo a Portugal (o qual está a ser principescamente pago em juros) lhe dá o direito de decidir o que o País poderá/deverá fazer.

 

Por isso, nesta visita periódica de acompanhamento, não se coibiu de, contra o decidido nos órgãos nacionais legítimos, mandar para o ar recados autoritários e austeritários, tais como: baixem o salário mínimo; reduzam mais o funcionalismo público; fora com as 35 horas e aumentem a idade de reforma, deixando implícito, ao mesmo tempo, a respetiva redução dos valores.

 

O senhor Subir Lall é um ponto. De exclamação! Não me recordo de ter votado nele para qualquer cargo político, permitindo-lhe ter voz na condução da vida nacional. Não lhe reconheço, portanto, autoridade para se sobrepor às instituições portuguesas, nem consigo perceber de onde, ao empregado do FMI, vem o poder de se julgar mandatado para mandar nas decisões tomadas por aqueles que nós, para tal, mandatámos.

 

Provavelmente o senhor Subir Lall ainda não se apercebeu que o Governo de Portugal mudou, que já não é o grupo subserviente e agradecido o que agora decide, nem que o NHA (não há alternativa) que tão prestamente voltou a enunciar, por aqui já deu o que tinha a dar e foi substituído pelo muito mais democrático HSA (há sempre alternativa).

 

Parece pois que o senhor Subir Lall não se atualizou, está fora do tempo. Na minha opinião também está fora do espaço. Não é este o lugar onde deva estar, nem as suas atitudes são minimamente aceitáveis. Talvez o Sol e o calor lhe tenham perturbado o raciocínio, talvez só saiba pensar, como burocrata que é, em contas e deve/haver. Talvez não consiga perceber o que é a soberania nacional, se calhar desconhece termos instituições credíveis e se admire por não vivermos em cubatas nem fazermos danças propiciatórias quando ele, que se julga o Grande Senhor, não passa de um vulgar senhor Subir Lall, a exercer as funções que o seu empregador lhe destina. No fundo é só alguém mal-educado a não respeitar poderes e dignidades que lhe são muito superiores. É então, por inábil e míope, digno de dó.

 

Mas o senhor Subir Lall é também cobarde. Não tenham medo de usar a palavra. É mesmo medroso – eu disse medroso, não confundam - pois após arrojar estas atoardas, largadas numa entrevista em meio de comunicação social, fugiu a comparecer na reunião marcada com os Parceiros Sociais. Não justificou a falta! Apenas enviou dois subordinados mais subordinados que ele. Teve medo de ser confrontado com argumentos que destruíssem o seu sagrado não há alternativa. Sabia não ter fundamentos para defender a posição propugnada. Sentiu-se frágil na causa trazida, incapaz de demonstrar a razão que pensa (?) assistir-lhe. O senhor Subir Lall, mais uma vez desceu. Ao nível do incivilizado, do malcriado, do desprezador de quem, em Portugal, país livre e democrático, decide o que fazer, como fazer e quando fazer. Afinal, o senhor Subir Lall não é um ponto. É uma ladeira. Sempre a descer.

 

 

Publicado em Rostos On-line

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publicado por Carlos Alberto Correia às 02:23

Apresentação de Concerto para Sanca João, pela Drª Ana Garrido

Segunda-feira, 06.06.16

 

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Algumas boas razões para gostar deste livro

 

Agradeço a vossa presença. Sinto-me muito feliz por andar a apresentar este romance. Eu digo até por andar em turné. Esta é já a sexta apresentação do livro que faço e farei muitas mais se for oportuno com um grande prazer. Essa satisfação deve-se a duas ordens de razões. As primeiras afetivas: como alguns de vocês saberão, sou amiga do autor há décadas, uma amizade que agradeço aos deuses, e uma outra razão afetiva é sentir-me especialmente ligada a esta narrativa porque tive o privilégio de ir acompanhando a sua realização à medida que cada um dos seus capítulos se ia aprontando.

As outras razões são mais objetivas: em primeiro lugar trata-se de um romance com uma linguagem poderosa, emotiva e criativa, em segundo lugar o livro está povoado de dezenas de histórias interessantes, em terceiro, há um vertente de documento histórico, se o quisermos dizer, pois este livro fala da vida dos Portugueses, e em especial dos que têm agora 50, 60, 70 anos. Toca as nossas vidas. Ler este romance transporta-nos para o modo de vida nos anos 50, 60, 70 (a vida ainda sem televisão, e depois com televisão, os cafés como locais de reunião, os antepassados dos bailes de garagem, o aparecimento do gira-discos, os primeiros concertos de rock, a beatlemania, as pousadas de juventude, os contactos com estrangeiros em viagem que nos falavam de outros modos de ver a guerra e a realidade política portuguesa, a guerra do Vietname os escuteiros, a guerra colonial, a vulgarização da pílula, as leituras políticas às escondidas, a censura, a resistência antifascista em Portugal, o 25 de abril, o PREC. Cada um de nós tem as suas memórias destas décadas.

O que é fantástico é que o narrador tem uma perspetiva privilegiada. Esse horizonte que é o do narrador é uma vista especial, porque há um conhecimento por dentro e de experiências feito. Se conhecermos a biografia do autor não estranharemos que a guerra colonial, o jornalismo, a oposição ao regime sejam vistas por dentro. Concerto para Sanca João junta a vivência com a qualidade estética, o que não é muito comum. Quase apetece dizer numa mão a arma na outra a pena ou a caneta…

 

 

Apresentação do autor

 

Passo à apresentação do autor. O Carlos nasceu em 29 de setembro de 1944. Tem 71 anos, portanto. É natural de Évora. Foi seminarista. Participou na guerra colonial como comandante de um pelotão na Guiné. Regressado à metrópole veio trabalhar para a zona da grande Lisboa. Começou na Publicidade. Depois trabalhou em gestão e administração de grandes empresas entre elas as Construções Técnicas e a Parmalat. Formou-se em Antropologia Social. Foi colaborador em jornais como o Diário Popular e a Capital e Diário de Lisboa. Casou-se em 1982 com a atual mulher, a Fernanda Afonso, uma outra amiga querida aqui presente. Como é muito ativo, em criança tinha a alcunha de O Vitamina, continua a fazer imensas coisas: teatro, dá aulas de antropologia na UTIB, faz comentário político no jornal Rostos.

Este é o seu primeiro romance. Tem publicados (e esgotados) dois livros de poesia, um de 1974 e outro de 1982: Silêncio Mordido e Penélope e Outras Esperas. Porquê um romance 33 anos depois? Porquê este romance? Fui perguntar. 33 anos depois porque embora o projeto estivesse na cabeça, não havia tempo para o realizar enquanto não se aposentou. Esta obra demorou 5 anos a ser escrita. Porquê este romance? Quais as motivações? No dizer do Carlos, pretendeu mostrar como uma geração foi levada à guerra, e como o contraste entre a ideologia que era servida e o que se vivia no terreno acabou por levar a contradições e a virar o cano da espingarda para outro lado. Os cinco anos de escrita resultaram neste livro bem nutrido de 740 páginas.

 

 

O título do livro

 

Não é muito comum um romance chamar-se concerto. Mas não é inédito o contágio dos géneros musicais em títulos de romance. Temos o Fado Alexandrino do Lobo Antunes ou a Balada da Praia dos Cães do José Cardoso Pires.

Este romance que é um grande romance de amor e guerra chama-se Concerto para Sanca João mas podia chamar-se Confrontações e Afetos que é o título de um dos seus capítulos, porque é disso que fala, de lutas e de sentimentos.

Porquê para Sanca João? Sanca João é uma personagem que surge pontualmente no romance, primeiro, no conto que constitui o prólogo, onde tem a função de mensageiro, vem contar a Samba Badji que a aldeia dele, Autacunda, foi atacada pelos militares portugueses e falar dos horrores que lá se passaram, personagem que surge de novo cerca da página 400 para ficar na narrativa apenas o lapso de discurso correspondente a umas escassas duas páginas, já olhado sob a perspetiva do protagonista que é um oficial do exército português. Atacados pela guerrilha local queriam descobrir quem tinha colocado as minas que haviam feito baixas nos seus homens. O facto de este guineense, apesar de torturado, não ceder, e afirmar que a ideia na sua cabeça não irá mudar, mesmo que morra, provoca uma revolução mental e visceral no narrador.

E o primeiro texto do romance que vamos ouvir é precisamente o momento crucial que explica o título. O leitor é um amigo nosso, contador de histórias profissional, José Manuel Paula Santos.

 

Pela tardinha o Toni foi buscar Sanca. Estava preso numa cela improvisada na casa do chefe de posto. Chegou, o braço forte do Toni amparando-o a meia cintura, os pés sem ação, arrastados no chão, toda a cara um inchaço desfigurador. Se não soubesse ser ele, não o reconheceria. O corpo de homem maduro, bem desenhado, tornara-se objeto mole, sem vértebra, dobrado. Toni largou-o à entrada da tenda. Despenhou-se no pavimento. Dos lábios rebentados saiu, rouca, impercetível, a palavra água. Agarro-o pelos ombros para o erguer. É trapo mole incapaz de manter-se ereto. Seguro-o com um pouco mais de firmeza. A pele solta-se do corpo, fica-me colada às mãos. Acrescento mais duas chagas à ferida que já era. O Matias manda o Toni trazer um balde de água. Coloca-o próximo do prisioneiro. Podes beber quanta quiseres. Basta dizer-me de onde vens e para onde levavas o carregamento. Os lábios, literalmente colados pelo pus das feridas, não se abrem. Despeja um pouco da água, Toni. Por cada pergunta não respondida vai fora mais uma quantidade. Se o balde se despejar não torna a encher-se. Voltas para a choça sem água nem comida. Já não lhe batiam. Não havia sítio para tal, nem, no sofrimento onde ia durando, haveria lugar para mais dor. Só a sede tinha importância. Desde que fora amarrado à árvore não bebia. Por isso mal conseguia fazer-se ouvir. Soaram, porém, com a força de terramoto nas minhas certezas, as únicas palavras ditas naquele interrogatório. Sanca não trai companheiros. Tu vais matar-me o corpo, mas não matas a ideia na minha cabeça. Saí enjoado, vomitei na parte de trás da tenda. Nessa noite apanhei a primeira grande bebedeira da guerra.

Capítulo «A ideia na minha cabeça» pp. 414-415

Música: Valsa Lenta

 

Porquê Concerto?

 

Uma das originalidades, das várias originalidades do romance, consiste na ligação de cada um dos capítulos a um trecho musical. Alguns são canções portuguesas, italianas, francesas em voga nos anos cinquenta e sessenta, outros são árias de ópera, outros são canções revolucionárias, já na parte final, correspondente aos anos 70. O nome da peça musical aparece entre parênteses junto ao título do capítulo e no corpo da narrativa nesse capítulo, integrado num evento ou num sentimento de uma personagem. Assim por exemplo La piu bella del mondo uma música de Marino Marini é cantada pelo namorado de Luana que lhe dedica este trecho musical numa festa e é este o subtítulo do capítulo em que este evento ocorre. São esses trechos musicais que temos estado a ouvir, que constituem a primeira banda sonora deste jantar

Para além das múltiplas referências musicais no romance aos Shadows, ao Cliff Richard, aos Beatles, próprias das vivências das personagens, o romance assume-se também no seu título como um tributo e uma homenagem à personagem de Sanca João e simbolicamente a todos os que ela representa, os que sofrem de guerras que não provocaram e pelo seu exemplo nos fazem despertar para mudanças no pensamento e na ação.

 

A estrutura

 

Este romance tem uma estrutura em 4 partes….

O Prólogo é a primeira delas, é uma narrativa de 16 páginas que pode ser tomada como um conto independente. A ação situa-se na Guiné, em dois locais, numa aldeia, e na capital Bissau, o narrador desta narrativa pertenceu a uma das aldeias guineenses atacadas pelos Portugueses, viveu na mesma aldeia que Sanca João… Esta narrativa inicial permite a entrada no romance começando com a perspetiva de um jovem guineense sobre a guerra. Faz-nos olhar a mesma guerra pelo outro lado. Assim, Samba Badji é o primeiro narrador do romance. Com os seus dezasseis anos apresenta-nos a guerra colonial, em toda a sua violência. E não mais aparecerá na narrativa. O jovem que será o protagonista do primeiro capítulo é outro, é um jovem nascido no território da metrópole, como ele diz, pouco antes dos americanos lançarem os cavalos agónicos sobre Hiroxima e Nagasáqui, numa cidade do Sul, que um dia fará parte das forças portuguesas que irão atacar essas aldeias da Guiné. Esse é o protagonista do romance e seu principal narrador.

Depois do Prólogo, o romance apresenta uma série de 19 capítulos que constitui a primeira parte, que tem por título Convergência, e depois uma série de 20 capítulos que constitui a segunda parte, a que o autor chamou Divergência e que se inicia com a partida de Urbano, para a guerra colonial. Os títulos Convergência e Divergência não são inocentes pois estão ligados à atitude do protagonista face à política vigente. Na Convergência assistimos à infância de Urbano, à sua adolescência, à passagem pelo Seminário, pela Mocidade Portuguesa, pelo jornalismo regional, pelo serviço militar, aos seus primeiros amores e sobretudo ao nascimento daquele amor que o irá atirar como voluntário para a guerra na Guiné.

Na Divergência encontramos a experiência da guerra em Cacondo, relatada em duzentas páginas, doze capítulos onde não há só guerra e operações militares (se bem que estas sejam narradas com pormenores muito interessantes) há amizades, um amor que termina, costumes locais, encontros sociais e um amadurecimento político do protagonista que o levará a mudar a sua perspetiva da guerra e o fará passar-se para a oposição ao regime. Nesta terceira parte da obra surgirá um capítulo escrito em poesia, logo a seguir à rutura com Luana, que parece mostrar que nos momentos de trauma e desorientação, a poesia é forma mais capaz de exprimir do que a prosa.

Os outros oito capítulos da Divergência englobam os eventos da vida do protagonista que estão ligados ao jornalismo, à oposição ao regime, ao 25 de abril, ao PREC. É é nesta parte que surgem as referências à luta entre os jornais de Lisboa e a Censura, depois chamada Exame Prévio, e as referências a Coimbra e às lutas estudantis. O nosso leitor vai servir-nos dois excertos do romance relativos a essas lutas.

 

TEXTO

Luto académico

Havia, pelo menos, dois países em Portugal. O das gentes comuns, o maior, e o dos estudantes e intelectuais. O primeiro continuava na vida de privações pensando ser melhor ter pouco a não ter nada, temendo mudanças, convulsões, não querendo meter-se em sarilhos. Aparentava uma calma da qual se poderia duvidar, mas nunca afirmar que não existisse. O segundo vivia em sobressaltos e convulsões. Agravara-se o problema de Coimbra. Decretado luto académico estendeu-se a todas as academias perturbando a tranquilidade de aulas, governantes, famílias. De abril a junho tudo efervescia. Estudantes, apoiados por muitos professores, pelas elites do pensamento, resistiam às ordens dos ministérios. Universidades foram invadidas, reitores desfeiteados ou demitidos, ministros caíram e Coimbra sofreu a ocupação militarizada. Ao recrudescimento da luta, iniciada com pedidos de educação para todos, correspondia o alargamento das palavras de ordem, os apoios clandestinos de outras forças. As centrais de intoxicação do poder respondiam aos desejos de liberdade e igualdade com vagas de boatos. Esses privilegiados queriam era a liberdade de andarem a deitar-se uns com os outros; a igualdade resumia-se ao facto de estudantes de ambos os sexos quererem mijar juntos nas mesmas retretes; as universitárias não passavam, na maior parte, de gajas sem escrúpulos que se prostituíam para arranjar dinheiro para os vestidos, cabeleireiros e noitadas. Muito do bom povinho aceitava estas atoardas, por acreditar ou por vingança social. Por isso propalavam tais aleivosias nas ruas, nas tascas, nos cafés. A coisa cresceu e qualquer família com filha universitária perdia o orgulho dos seus progressos, temia o labéu. Foi tiro nos pés da polícia. Esqueceu-se que, embora revoltados, rapazes e raparigas pertenciam, na maior parte, ao escol apoiante do regime. Ofendidos os pais pressionaram, revoltaram-se, levaram ao anular desta campanha. Mas o mal já estava feito. O fogo do maldizer corria desenfreado e nada trava boato saboroso, interessante. Qualquer mecânico a caminho da oficina, ao passar pelo Conde Redondo, vendo as mulheres da vida no ofício, gargalhando, dizia, lá estão as universitárias a tirar o curso.

 

TEXTO

 

Final da Taça com a Académica

 

Não era de futebóis mas nada me faria faltar à final da Taça de Portugal. Defrontavam-se a Académica e o Benfica. Procedêramos a enorme e secreta mobilização. Escondidos pelas capas os cartazes esperavam o momento de serem exibidos. Aguardávamos essas imagens a passar na televisão. O primeiro desapontamento foi saber que, prevendo desacatos, nem as entidades nem a televisão estariam presentes. Apesar disso, depois do intervalo apareceram os cartazes. Entusiasmados com as palavras de ordem, com a prestação excecional da Académica, levou-se ao rubro o recinto. A honrosa derrota no campo acabou por transformar-se em estrondosa vitória, quando a polícia arremeteu contra manifestantes e espetadores. Fugi à carga, Jamor fora, com o Augusto, o Gaspar e centenas de desconhecidos. A fuga transbordava de alegria. Desse lá por onde desse, desta publicidade o regime não se safava.

 

Finalmente um epílogo de cerca de 20 páginas em que a história se conclui com um novo narrador, pois o protagonista que é simultaneamente o narrador dos capítulos anteriores desapareceu.

 

 O processo narrativo

 

Este romance tem assim três narradores, o do prólogo que é um guineense, suposto inimigo de guerra de Urbano, o da ação central que é o Urbano e o do epílogo, um amigo de Urbano, o Travassos. Muitos outros aspetos do processo narrativo seriam de salientar. Refiro só alguns.

  • No que respeita à ordem (ligação temporal do discurso à diegese) como dizia no outro dia a Fernanda, não deixa de existir um fio cronológico condutor que é o mais importante expediente de ordenação temporal. Mas os episódios vão surgindo também em prolepses, isto é o narrador vai ao futuro buscar um episódio ou uma história e integra-o no fio narrativo, como se fizesse uma laçada. Quando passar de novo nesse episódio, agora já na sequência cronológica, ele será de novo referido mas não haverá repetição de elementos. A forma como os vários episódios vão sendo costurados, os elos de ligação encontrados são, para além da progressão temporal, a da associação de ideias (por exemplo vieram-me à memória outros fatos de banho, dez anos após este dia fazia de novo as malas) ou a ligação a um mesmo espaço (Aquele largo, na quase saída da Cidade velha, com a fonte parada no tempo, parecia ter o condão de marcar encontros surpreendentes; No Pátio, eu estava longe de tudo isto. Foi, durante sete anos, o meu local de refúgio; Sonhos diferentes, noutra camarata mais tardia).  

 

  1. Verifica-se uma profusão incontável de episódios, de histórias e de personagens secundárias, um universo diegético riquíssimo. Se quiséssemos comparar o romance a uma molécula, essas histórias seriam átomos. Um romance, com muitos contos dentro, na sua barriga. A história da leiteira Carminda e do compadre Lagarto, tocador de sanfona e contrabandista, a história de Célia e do seu amante japonês, a história de Augusto e do seu casamento, a história do furriel Metelo, que já a caminho da loucura queria construir uma armadilha para apanhar os inimigos. Há dezenas de histórias de personagens secundárias.Vamos ouvir mais um excerto de uma outra história, a de um caçador de leopardos:

  Tive outros encontros com leopardos. O primeiro, indireto, foi quando fiz amizade com o Khalil. Tinha mais dois anos que eu, nacionalidade libanesa, cristão maronita. Vivia na avenida com a mãe e o pai, entre mais quatro famílias libanesas e uma dúzia de cabo-verdianos, imersos na imensidade de negros animistas ou islâmicos. Dedicava-se à caça grossa. Jiboias, jacarés, leopardos para venda de peles; antílopes, porcos do mato para alimentação e comércio de carne. Viviam bem. A caça era abundante, a concorrência pequena, os preços das peles altos. Por vezes pagavam com custos também elevados a abastança que a mãe natureza proporcionava. O pai Khalil estava paralisado. Sentado numa cadeira de braços, passava os dias no varandim da casa olhando a avenida quase sem ninguém, recebendo os negociantes para o produto do trabalho do filho. Fora ele que lhe ensinara toda a arte da caça. Em tempos atingira boa reputação como caçador. Até ao dia do encontro com aquele leopardo. Avisara o filho para jamais caçar sozinho um leopardo. Aquilo é bicho ruim, com raiva que chegue para matar meio mundo! Leva pelo menos um companheiro com lança. Coloca-te a seu lado. Ele que se baixe e a firme no chão. Encandeia a fera com a luz de caça do capacete. Dispara só quando, por encandeada, parar completamente. Ficarás a saber o momento logo que, em vez de avançar, com uma das garras começar a querer afastar a luz. Aí dispara rápido para o coração, desloca-te logo para outra posição. Se lhe restar sopro de vida saltará para o lugar donde atiraste. Então, se a coisa for bem feita, espetar-se-á na ponta da lança. Eu esqueci-me daquilo que recomendava. Enchi-me demasiado do meu saber. Matei muitos leopardos. Tantos até lhes perder o respeito. Quando naquela tarde me cruzei com ele, decidi abatê-lo. Era demasiado boa presa para deixar escapar. Encontrei-o no meio da picada tão desprotegido que era canja. Disparei. Ainda o tiro não partira, já sabia que fizera asneira. Vi-o cambalear com o impacto. Tornei-me consciente da insensatez do que fizera. Não esperei para ver. Corri a bom correr para a primeira tabanca descoberta. Lá dentro descansei. Estava a beber água quando o teto da cabana desmoronou. Caiu-me em cima a besta-fera. Consegui atravessar-lhe a espingarda na boca. Eu era muito forte. Enlacei-me nele e corri para o exterior. Na frente da porta estava a árvore a que subira para saltar. O sacana era tão esperto como eu. Seguiu-me e decidiu fazer-me pagar o ferimento. Numa luta medonha aproximei-me da árvore, encostei-lhe a coluna ao tronco. Fiz quanta força pude até ouvir o ruído da quebra da coluna do animal. Soou-me como trovão! Caí no chão inconsciente. Levaram-me para o hospital e durante muitos meses as minhas feridas cicatrizavam, voltavam a ser abertas, a serem lavadas, retirados os pelos das garras do leopardo semeados no corpo. Pensei não

 

Com tantas histórias e personagens heterogéneas, o romance pode assim dar conta do social e não apenas do individual.

 

Vamos ouvir o final da história de Carminda e Mestre Lagarto.  

 

Então aconteceu a tempestade. O mensageiro tremia. Tinha assistido a tudo. No frio da manhã, quando Carminda conduzia o seu carro de bilhas de leite, saíra-lhe ao caminho, junto à tasca do Galego, o Lagarto. Jurava que tinha fogo nos olhos e espumava pela boca. O Diabo, vizinhos, o Diabo. Agarrou a Carminda pelo braço e disse-lhe, vais fazer a escolha mais importante da tua vida. Ou és minha, ou de mais ninguém! A Carminda olhou para ele do alto. Só eu sou senhora das minhas escolhas! Se não és minha não és de mais ninguém! Rapou da ponta e mola e cortou-a na garganta. Ficou lá, com a navalha cheia de sangue na mão à espera que alguém tivesse coragem para se aproximar. Ninguém foi capaz. Ainda lá estava quando chegou a polícia. Não resistiu. Parecia até que queria ser preso. Nas minhas memórias vejo a minha mãe a chorar, levar-me para casa enquanto, lentamente, a vizinhança corria para o local do crime. Revejo agora, como não vi ao tempo, o corpo caído no negro do alcatrão, uma boca sangrenta na garganta golfando vermelhos por sobre os alvores da bata e do leite que, em sintonia com a vida da dona, se ia perdendo no solo, saindo aos borbotões das bilhas entornadas. Nunca mais no Pátio, nos bailes que se foram fazendo, voltou a dançar-se ao som da Amapola. 

 

 

Mercê dos avanços e recuos diegéticos e da multiplicidade de histórias e personagens, o leitor não pode deixar-se embalar passivamente pela narrativa. Por vezes é ele que tem que organizar o universo diegético, como num puzzle, mas como disse antes, existe sempre uma progressão cronológica que é organizadora da diegese.

 

Gostaria ainda de referir dois últimos aspetos. O primeiro concerne à perspetiva antropológica do narrador, que analisa os hábitos, os acontecimentos, comentando-os através do crivo científico, embora de forma subtil. O segundo deles será abordado largamente pelo autor na sua comunicação, mas não quero deixar de mencioná-lo porque é um dos aspetos mais interessantes e mais polémicos na análise deste romance. Trata-se da ligação entre o que é ficcionado e a realidade. Quer no que respeita à intriga principal (a história de Urbano criança, seminarista, militar, comando na Guiné, resistente, revolucionário) quer no que respeita às histórias secundárias, há uma ligação muito estreita com o real. O efeito de verosimilhança é intensíssimo. É claro que a experiência direta do autor no seminário, nos cenários de guerra, no PREC, ajuda decisivamente a esse efeito. E acaba por funcionar como uma das maiores virtudes deste romance.

Acabo esta minha intervenção como comecei, obrigada pela vossa atenção

É uma alegria estar aqui hoje.

 

 

 

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 20:32

A banalidade do mal

Quarta-feira, 25.05.16

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Este texto foi produzido, no âmbito dos colóquios/ação de formação “Conhecer a guerra, defender a paz”, e foi apresentado no dia 23 de maio, na Biblioteca da Escola Secundária dos Casquilhos, no decurso de uma apresentação do romance “Concerto para Sanca João”, de minha autoria. Considerando o debate gerado e a atualidade do tema, pareceu-me bem dar-lhe maior divulgação. Oxalá tenha razão

 

 

 

Num dado passo deste romance, o sargento Elias, veterano de quatro comissões nos três teatros da Guerra Colonial, onde vai contabilizando metros quadrados da quinta a haver para a reforma, alapado na secretaria do serviços de informações militares, em Cacondo, diz para o protagonista, Urbano da Consolação, que o estado normal da humanidade é a guerra. A paz será apenas um breve interlúdio entre duas guerras. Seria pois o conflito um estado de coisas banal.

 

Esta afirmação remete-me para Hannah Arendt e para o seu tão controverso conceito sobre a banalidade do mal.

 

Ao assistir ao julgamento de Eichemann, em Jerusalém, o que mais a admirou foi que aquele homem meio insignificante, aquela mentalidade burocrática, tivesse sido o executor logístico do brutal assassínio de muitos milhões de seres humanos. Percebeu então que o mal absoluto pode não estar representado num ser diabólico, mas sim num homem comum, escudado numa hierarquia, defendido pela necessidade de não pensar, executando acriticamente tudo quanto ao grupo a que pertence pareça necessário.

 

Se a discussão sobre este conceito da banalidade do mal, da desculpabilização do indivíduo através do ordenamento social foi vivo e ainda se mantém, observemos como ele ganha espaço no nosso mundo.

 

Vejamos o caso de um oficial, por exemplo americano, e poderá ser europeu ou de qualquer outro continente, a viver numa pequena vivenda ajardinada nos subúrbios de uma grande cidade. Pela manhã, após tomar o pequeno-almoço com a família, leva o filho à escola e dirige-se para o quartel. Lá chegado poisa a pasta por debaixo da bancada da consola do “joy stick”, abre o dossier impecável deixado no seu posto de trabalho por algum outro militar, lê as coordenadas, introdu-las no computador e, algures no mundo, um drone levanta voo e vai lançar um míssil sobre uma viatura, uma casa, um bairro, por vezes uma escola ou um hospital. Repetirá, nesse dia, tal operação quantas vezes for necessário. Terminado o horário de trabalho, vai buscar o filho à escola, janta com a família e, possivelmente, antes de deitar, jogará uma hora com o filho, na consola que lhe ofereceram pelo natal, um qualquer jogo de guerra virtual. Será, certamente, um bom pai, um bom militar, um cidadão cumpridor, provavelmente muito preocupado não só com os direitos humanos, também com os dos animais.

 

É um ser monstruoso? É um homem banal?

 

Segundo Hannah Arendt é apenas um homem vulgar que não pensa, ou se recusa a pensar sobre as origens, motivos e consequências do seu trabalho. Tal como ao carrasco a quem não interessa quem e porque executa, bastando-lhe apenas receber o condenado e a ordem de uma fonte com poder e legitimidade para tal, nunca se interrogando sobre a bondade de tal legitimidade. Cumpre as ordens com o maior zelo e eficiência possível, aproveitando-se de toda a panóplia de artefactos e distrações para afastar de si o pesado encargo de pensar, isto é, de correr o risco de uma valoração moral das suas ações.

A este respeito, introduzo, a leitura de um poema, publicado em “Silêncio Mordido”, um livrinho que publiquei em 1974.

 

pensar em não pensar

 

uma hora de lazer

sem nada para fazer

é um caso sério

 

                        obriga-me a pensar

 

e pensar é tão perigoso

como matar um ministro

ou ser anarquista

 

                        é ultrapassar

                        a forma prevista

de me comportar

 

o melhor é pensar em não pensar

 

 

 

 

 

Posto esquematicamente o problema de culpabilidades e maldades, passemos um rápido olhar sobre o que é essa coisa da guerra.

 

Inicialmente a batalha era, mesmo quando havia choque de massas humanas, um duelo a dois, multiplicado quase ao infinito. Dois antagonistas defrontavam-se, no meio da confusão da luta. Por maior força, motivação, coragem ou sorte, um eliminava o outro e passava de imediato a outra refrega. Até à exaustão ou abandono de uma das partes. Cada um por si sabia quem e quantos ferira ou matara e essa seria a sua glória, reforçando o seu estatuto no grupo. Com a capacidade acrescentada de matar mais longe, foi-se diluindo a pessoalização do combate e as mortes transformadas em acontecimentos longínquos, anónimos. O artilheiro, a quilómetros do inimigo, não sabe o que, quem ou quantos destruiu. O piloto, quando a bomba rebenta, já está a grande distância do lugar onde a explosão ocorreu e se viu algo, foi um vislumbre de um conjunto de casas ou uma coluna de veículos. Por outro lado, a capacidade de matar massivamente, sobretudo a partir da segunda grande guerra, mudou estruturalmente os objetivos a atingir. Sumariamente diremos que até aí a luta era entre exércitos. A população seria, quando muito, um dano colateral. Mas na idade moderna, destruir casas, cidades e instalações produtivas, matar as populações civis, para desmoralizar os combatentes, passou a ser o objetivo primordial. Recordemo-nos dos bombardeamentos massivos a Londres e Berlim, ou das bombas atómicas lançadas sobre Hiroxima e Nagasáqui.

 

Isto são, no entanto, as guerras de grande intensidade. Pelos seus custos vêm-se evitando, através do equilíbrio do terror. No entanto a máquina de produção de armamentos tem de continuar a laborar. Por isso, mesmo no tempo que chamamos de paz, rebentam escaramuças um pouco por todo o lado, em que os grandes contendores ganham duplamente numa só cartada. Escoam as armas obsoletas e conquistam vantagens no terreno geoestratégico.

 

Outra coisa são as guerras de libertação, o formato de guerrilhas, travadas a partir dos anos 60 em grande parte do mundo. Vietname e Colónias são as que mais marcaram a minha geração. Numa primeira fase a luta é de baixa intensidade. Grupos de guerrilha atacam esporadicamente, aqui e além, obrigando o ocupante a disponibilizar forças volumosas para controlar o território. Se a fase de guerrilha for insuficiente para obrigar o ocupante a desistir do seu domínio, passar-se-á para uma segunda fase de guerra clássica com domínio variável do território. Foi isto que se passou, um pouco por todo o lado, em África, até à conquista das independências.

 

No entanto, voltando a Hannah Arendt e à recusa de pensar, o aparelhamento ideológico e distrator do ocupante tem um tempo limitado de duração. As motivações apregoadas vão esbarrando na realidade no terreno e, o temido ato de pensar, começará a infiltrar-se por várias fendas, ganhando consistência, acabando por tornar-se numa recusa civil – caso da América em relação ao Vietname - ou militar como no caso português que veio a desembocar no 25 de Abril.

 

O protagonista deste romance “Concerto para Sanca João” passa por esse processo. Criado e educado num ambiente pró regime vai defender a pátria para a Guiné. O choque do real vai-lhe mudando as perspetivas, até o tornar no seu contrário. Apreende uma realidade diferente daquela que lhe tinham contado e sobre a qual fundara a vida. Procura caminhos e segue os seus trilhos convicto de ser aquela a via certa para si, mas não incorrendo já no erro de pensar ser a única possível, mas tão-somente aquela que, a ele, pareceu mais acertada. Porque pensa aprende a relativizar, porque descobre impõe-se-lhe a ação. Portanto, Urbano da Consolação, o protagonista, não é só ele, o personagem que se conta, é também o outro, os outros que formaram o seu tempo e que, pelos caminhos próprios, forjaram os nossos dias com tudo o que de bom e mau contêm.

 

Terminarei com um outro poema, do livro já referido, pondo em equação que “pensar” pode começar assim:

 

cupelon

 

sobre a Guiné havia brumas

de histórias sem regresso

 

na noite

em calmosas mentiras

dormiam pântanos    incêndios

e dois homens mortos

em casa do grotesco

 

Bissau    quase um pouco de nada

um corpo mulato a vários níveis de crédito

convidado para o grande réveillon do fim da vida

 

hospital militar 241 nos braços dos helicópteros

ou a surpresa de morrer em cada manhã

 

um batido de política e desportos

na arquitetura dum sorriso e perfume

para depois das cinco e meia com revistas

e pi-ups e frases que colo no cérebro

 

máquinas de fazer milagres precisam-se

ou a Cristina vai ficar sem namorado

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 18:14

Ela de coração parado

Quinta-feira, 17.03.16

 

à memoria de Elis Regina

 

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é sempre assim que chegam as notícias

repentinas absurdas e brutais

tudo fica parado como cartaz

em muro de silêncio

gente isolando mágoas

em fundo de ruídos de atabaques

 

todos iremos um dia e este encontro

como tu foste inesperada e breve

apartando olhos em colares noturnos

tecidos da morte de cada um de nós

 

preciso agora da dureza das palavras

para enfrentar o momento aguçar a pedra

e profanar a alma desse deus de impudica grandeza

firmada sobre o inútil de sentirmos

como se morre na lentidão dos dias

sempre mais incompletos e sós

 

acredite-se embora que na morte

continue a vida de outro modo

não se percebe porque se cala a voz

e o esquecimento se instala

amarelecendo imagens vivas e reais

 

borboletas de sombras em mar esmaecido

ou comprido nevoeiro que se adensa

a minha mágoa é mão que arrefece

na janela do comboio perante a noite

 

canto na ribalta a deceção

da hora em que se cai sobre a notícia

de um corpo abandonado

 

que desse desejar animador da voz resta ela

de coração parado

 

 

(faria hoje 71 anos)

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 17:31

Já não somos todos “Charlie”?

Sábado, 27.02.16

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Apenas para os mais desatentos recordo a onda de horror que perpassou pelo mundo quando um grupo de putativos extremistas islâmicos assassinou, fria e cobardemente, alguns jornalistas do “Charlie Hebdo”. Lembram-se? Não se esqueceram que então se discutia e apoiava o direito de liberdade de expressão, fundamentado em que os preceitos e desígnios morais de um qualquer grupo religioso, não poderiam condicionar a expressão livre, a liberdade de imprensa, nem a consciência dos autores? Não se esqueceram, pois não?

 

Então porque é que agora, perante o cartaz do Bloco de Esquerda, as mesmas consciências se revoltam e bramem contra o desaforo de um grupo de incréus por utilizarem a efígie de Cristo, numa campanha de apoio à adoção de crianças por pessoas de género idêntico? Será ainda o ressabiamento de o projeto ter passado na Assembleia? Será tentar atacar o mesmo por outro caminho? Tanta indignação! E não vejo esses indignados barafustarem contra o preconceito racista presente na maioria das imagens de Jesus. Já sei! O racismo é muito menor pecado que ser “gay” e poder adotar uma criança, que se calhar até já vivia com esses pais ou mães. O Jesus loirinho, ocidental, das imagens não é uma hipocrisia e uma clara afronta racial à história? É que Jesus, meus senhores, era bem mais escurinho. Não se sabe bem porque razões o pai celeste o fez nascer numa família semita – e aqui eu discordo do cartaz porque na verdade Cristo teria três pais (não se esqueçam do Espírito Santo que, rezam as crónicas, fertilizou a Virgem) – de certeza também trigueirinha e muito diferente dos puros arianos retratados desde as igrejas até à mais insignificantes publicações impressas.

 

É uma falta de respeito, replicam. Pois, ele não é Maomé e, muitos dos seguidores convictos do divino mestre, não têm qualquer pejo em faltar ao respeito a todos quantos não comungam da sua visão do mundo, considerando ser a sua forma de vida e moral aquela que todos terão de respeitar. Claro, o contrário seria desrespeitarem-nos a eles, senhores de toda a razão e de todo o querer. É este o tipo de pensamento autocrático que revelaram e revelam na passada discussão sobre a interrupção voluntária da gravidez e na novel sobre a morte assistida. Quando procuravam e procuram, a todo o custo, impedir a despenalização de tais atos. Reparem! As leis não os obrigam a abortar nem a pedirem a eutanásia. Apenas consideram que, em determinadas situações, tais práticas não serão consideradas crimes. Obrigará tais determinações legais que eles aceitem ou pratiquem estes preceitos? Claro que não! Então porque se opõem? Muito simplesmente porque se estão nas tintas para as éticas e comportamentos que não caibam nas normas que, com todo o direito, escolheram para as suas vidas. Mas, essa é a verdade, é um direito que é só deles, que por o ser todos terão de aceitar, cometendo assim um desrespeito continuado e bem maior que aquele de que acusam agora o Bloco de Esquerda. Precisam que lhes traga outro maior desrespeito pela vida humana? Então falemos do, agora santo, João Paulo II e do seu tão grande respeito pela vida humana que o levou a declarar ser preferível deixar continuar a grassar, sobretudo em África, a SIDA e a morte resultante, que permitir o uso do preservativo. Que respeitinho admirável, que consolo para as boas consciências.

 

Portanto, amigos e menos tal, não sendo um entusiasta, por questões de gosto pessoal por tal cartaz, defendo com unhas e dentes o direito de terem-no feito e fazê-lo difundir. É uma forma de liberdade cívica e religiosa. Nós somos um estado laico – por isso não percebo porque hei de eu ser agredido todos os domingos, de manhã, com uma transmissão de missa católica na RDP1 – isto é, um Estado que não tem qualquer escolha religiosa, mas que as permite todas e a todas dá a mesma proteção. Quer-se dizer, deveria dar e, sabemos bem, é coisa que não faz.

 

Não me venha por isso falar de respeito, ou falta dele, quem se outorga o direito de querer obrigar todos os outros a viverem segundo regras éticas, que fazendo parte do modo de vida que escolheram e apenas tendo plena validade na cultura, no tempo, de quem a tomou para si, não serão exigíveis a quem fez escolhas diferentes. Querer toda a gente de cabeça baixa por respeitinho pelas coisas religiosas que defende é, no mínimo, fascismo moral.

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publicado por Carlos Alberto Correia às 23:49

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Segunda-feira, 30.11.15

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publicado por Carlos Alberto Correia às 16:38

Inteligência, cultura, honestidade e ética

Segunda-feira, 23.11.15

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Pese embora o meu reconhecimento das qualidades da minha camarada Marisa e a certeza de que, em condições diferentes, estaria inteiramente do seu lado no prélio por qualquer lugar a que se candidatasse, desta vez não estarei com ela. Não porque discorde da sua candidatura e desejo que a mesma tenha uma excelente votação. Porém, nestas coisas da política é necessário, como diria Pessoa, por o coração de lado e deixar o pensar na cabeça.

 É por tal que tomo, abertamente, a defesa da candidatura de Sampaio da Nóvoa.

Vejamos o seu maior opositor, Marcelo Rebelo de Sousa. Sabemos que de há anos a esta parte se prepara para conquistar a Presidência da República. É um desejo legítimo e, depois de Cavaco, pode-se pensar que qualquer um tem maiores capacidades para essa alta função do que as que ele, por nossa infelicidade, demonstrou. Creio até que Marcelo não seria um presidente mau de todo. No entanto vem, quanto a mim, ferido de dois inconvenientes. O primeiro é ser, sem qualquer dúvida, um candidato de direita; o segundo é o da ambiguidade em que se envolve. O facto de ser candidato de direita, só por si, não é, numa democracia, facto impeditivo nem da candidatura, nem de um possível mandato correto. Mas, volto ao momento presente: o lugar é mais que o homem e este estará prisioneiro de apoios e dos interesses daquelas bandas. O que, para mim, conhecidas que são ações e conveniências, é inaceitável. Os quatro anos de governo Passos, os demasiados de Cavaco – como primeiro-ministro e presidente de uma República que sempre pareceu menorizar – devem levar-nos a por de lado a possível simpatia pelo comentador hábil e habitual e olhar mais para lá, para o campo ideológico e perceber como, estando no governo o PS, com o apoio do Bloco, do PCP, dos Verdes e, intermitentemente, do PAN, poderá um presidente de ligações opostas, com sentido de oportunidade, reconhecida habilidade política e de manipulação da opinião, criar zonas de fricção e rutura entre os partidos apoiantes do governo. Dirão que isto não passa de uma simples opinião e eu concedo. É porém a opinião de quem refletiu maduramente sobre estes assuntos e prefere não arriscar demasiado, tanto mais que o perigo é, por demasia, óbvio.

Por outro lado, a ambiguidade que cercará a campanha de Marcelo é notória e preocupante. Composto e em governação o executivo do PS, que fará Marcelo quando lhe for possível dissolver o Parlamento? Sabendo embora que ele se eximirá a responder a esta pergunta enquanto tal lhe for possível, avento duas hipóteses. Na primeira, sem demasiada clareza, dirá, mantenho o governo em funções enquanto demonstrar a sua sustentabilidade. Correto! Mas quem definirá essa capacidade? O Presidente, evidentemente e segundo os seus pessoalíssimos afetos. Lembremos também que o PSD de Passos, não o querendo ver nem pintado, ocorre hoje ao seu chamamento como tábua de salvação. Porque será? Que lhe irão solicitar, em troca do apoio, em primeiro lugar? Observem a frustração gritante e gritadora das bancadas da direita e logo ficarão a perceber para que caminhos tentarão conduzir a presidência. Nem é preciso ir ao astrólogo. Claro que não acredito que alguma vez, durante a campanha, Marcelo responderá a esta questão de peito aberto. Dissimulará, calará, evitará, invetivará, negará mas, mais tarde ou mais cedo, terá de ceder! Só não o pode reconhecer porque, para ganhar à primeira volta, necessita de votos para além dos da direita. Não lhe serão bastantes os trinta e tal por cento. Portanto, ver-se-á compelido a mentir ou, pelo menos a omitir.

 

Se pelo contrário ousasse dizer que manteria o Governo PS em atividade, o clamor e fuga da direita seriam imediatos e irreparáveis. Portanto, “malgré lui” Marcelo será obrigado a continuar o pântano de enganos em que executivo e presidência nos têm atolado.

 

Chego agora à minha opção. No título enuncio o que me leva a apoiar esta candidatura. Tenho saudades de ouvir um governante inteligente, de o ver tratar com conhecimento da história, das sociedades, das pessoas, as questões políticas e de governança; preciso de um banho de honestidade que me tire este mau cheiro em que tantas negociatas, enganos, declarações sem suporte e contrárias à realidade, vieram empestar o ambiente e, finalmente, porque é necessário que o prometido “não seja de vidro” – isto é, que se quebre com a maior das facilidades – seja respeitado, que a ética prevaleça sobre os interesses circundantes, de miserável mediocridade e que o juramento de defesa da Constituição seja feito por quem a respeite, não por aqueles que a traem em qualquer momento ou situação.

 

 Finalmente quero um Presidente que venha a ser a medida da justiça e da ética nas relações políticas, económicas e sociais. Em suma, quero o candidato que me parece possuir, no maior grau, as qualidades apontadas. Quero o ar mais límpido e fluido no meu País. Em suma, quero Sampaio da Nóvoa como Presidente.

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publicado por Carlos Alberto Correia às 16:01








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