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Falar de mim

Quinta-feira, 09.11.17

 

 

 

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Não se importam de parar um pouco o coro de protestos? Certo! Parece muito desplante de qualquer meco utilizar o espaço do jornal e a paciência dos leitores, com a arrogância de um discurso sobre si próprio, isto como se cada escrito, cada crónica, por muito que aparente distância do autor não fosse, de outra forma, o seu reflexo no espelho. Que mais não seja porque, escrevendo-se sobre coisa diversa, continuamente se estará a escrever nos moldes em que pensa o mundo, a partir de si, das suas experiências, gostos e decisões. Já lá dizia Barthes, “quem fala, fala-se”, ou, traduzindo para o assunto em causa, quem escreve, sempre se escreve.

 

Se aguentaram até aqui a discursata em que me envolvi, terão o direito absoluto a exigirem-me as razões da mesma. E o anterior pedido de acalmia nos protestos nasce do reconhecimento de que têm esse poder. Vou, pois, por ínvios caminhos, ao assunto.

 

Pertenço ainda à geração do livro! Neste momento, certamente, o coro de protestos recrudescerá em bastos, também eu, também eu! Sei muito bem ser isso verdade. Para ser sincero a maior parte de nós faz parte dela. Lembro-me de quando, em início de adolescência, conseguia uns cobres para comprar algum livro cobiçado desde há muito, correr para casa, agarrar num corta-papéis e entre emoção e nervosismo, abrir as páginas, deixando sobre a mesa as raspas de papel sobrantes ao sacrifício da abertura original. Nesse tempo o livro era assim! Comportava um ritual desvirginador garantindo, a quem o comprava, ser o seu único e primeiro possuidor. Estão a ver a semelhança com os rituais núbeis? Pois, em sociedade as coisas não só se tocam como vão mudando com os tempos. A tradição é uma grande mentira securizante!

 

O que foi de gritos e destemperos (estou a exagerar) quando os livros começaram a aparecer aparadinhos, folhinhas abertas a todos e certinhas no corte, nunca sabendo o comprador quantos mais teriam passado os dedos molhados na língua e os olhos ávidos pelas suas páginas. Os brados lancinantes, os anátemas garantidos, não mudaram o produto industrial e, vejam lá, estenderam-se às relações amorosas. A virgindade deixou de ter sentido absoluto tornando-se o objeto livro, ou a pessoa feminina, valores por si próprios, independentemente de terem, ou não, sido primordialmente tocados por outras mãos. É o efeito do tempo, a mudança de valores, a acompanhar e a produzir serventias técnicas e sociais diferenciadas. Os conservadores bramiram por muito tempo o descontentamento, mas a tradição foi-se tornando outra, fortificando, ganhando raízes, obrigando pela omnipresença à diminuição paulatina dos bramadores do antes é que estava bem.

 

Perguntar-me-ão de novo, para que serve tudo isto? Porque estou a perder o meu tempo a ler este tipo? Pois, a curiosidadezinha, o querer saber para onde os quero, docemente, conduzir. A desagradável e fria resposta é a enunciada no título: a mim!

 

Então porque fala de livros, de virgindades e absurdos congéneres? Porque, meus amigos, lhes vou dar uma notícia em primeira mão. Claro, ela importa sobretudo ao próprio, mas, para além do egoísmo demonstrado, pode ser que, por algum modo, vos venha também a interessar. Sabem, o escritor é um autocentrado megalómano. Parte do princípio que o escrito não só tem quem o procure e espere, como poderá alterar comportamentos, modos de pensar, estilos de vida. Esteja embora por provar, não deixa o escriba de, mesmo não o confessando abertamente, ter lá, muito no fundo, este bichinho de esperança a roer-lhe a expectativa.

 

Pois a notícia, estão a ver como eu estendo o mistério buscando que a curiosidade do leitor supere o tédio do discurso, é que vou mudar de paradigma!

 

Pressinto os vossos olhos a abrirem-se de admirados, na boca um sopro irónico, a pergunta desencantada: que quer ele dizer e o que tenho a ver com isto? Com mais um pouco de paciência, lá chegaremos.

 

No tempo dos livros abertos com espátula eram eles objetos caros, raros, valiosos. Não existiriam no país muitos editores. Conseguir a publicação “do Livro” exigia um percurso de artigos em revista, jornais, referências académicas e mais um rol de coisas de aborrecida enumeração. Chegados lá, porém, seria a consagração. Era assim como erigir um farol ou um altar. Haveria dissidentes? Certamente! Mas o feito estava firme nas montras das livrarias, nas estantes das bibliotecas, nos suplementos da imprensa, nos ensaios a respeito. Com o livro aparadinho chegou maior facilidade de publicação. A técnica passou da tipografia ao “offset”, as chapas podiam guardar-se para novas edições, os preços diminuíam. Muito mais gente começou a publicar e livros e autores dominaram a praça publica. Nessa altura o Editor era ainda uma figura respeitada e interessada que, escolhida a obra, a acompanhava desde a releitura e correção, passando pela impressão, divulgação e distribuição do livro. Este era o seu trabalho! A ele se dedicava a tempo inteiro, pugnando pelo êxito da obra.

 

Os tempos e as técnicas continuaram a mudar. Tornou-se fácil editar fosse lá o que fosse. O Editor dedicado transformou-se num funcionário, muitas das vezes a recibos verdes e pelo tempo de duração de um estágio, que, na ótica do patrão, procura menos, ou quase nada, a qualidade do texto, visando meramente o cálculo de quanto pode render. Tais empresas de serviços, arvoradas em editoras, fazem livros como poderiam fazer tijolos ou ensacar feijões, caso tais atividades se revelassem mais remuneratórias. Assim, em grande parte, exigem ao autor o pagamento de edição, contra a aposição de uma chancela que liberte o livro da menoridade de edição de autor, e, recebido o dinheiro, produzem meramente o número de exemplares requeridos pelo consumo imediato e declarado, deixando o autor sozinho, não distribuindo nem divulgando o livro. A edição deixou de ser sinónimo de gosto, de bem escrever e passou a estar disponível para quantos, tendo o necessário poder de compra, entreguem os originais nesses mercadores de folhas agrupadas. Por isso nunca se publicou tanto, tão mau e cada vez mais se rarefaz o mercado dos livros. Claro que outros factos haverá – tudo é mais complexo do que aparenta – mas estas são as principais razões a apontarem para a revelação que, desde inicio, vos prometo.

 

Farto de consultar e discutir com os novéis editores as condições de aparição de cada uma das obras, obrigando-me embora a perder o contacto com o objeto físico, deixando de parte a sensualidade de sentir o ruge-ruge do passar das folhas, aceitando o caminho de desmaterialização a impor-se a muitas atividades, com alguma mágoa, confesso, decidi partir para nova experiência. Retirei da Editora o meu romance “Momentos para inventar o amor” e entreguei-o, para ser publicado como ”e-book”, a uma parceria de grande credibilidade – “escritores online” – entre a Associação Portuguesa de Escritores e a CLEPUL, organização da Faculdade de Letras de Lisboa.

 

Esta era a mudança que vos queria comunicar. Lutando contra o hábito de ter o escrito corporizado em objeto físico vou entrar pelo caminho, que prevejo como o futuro, do livro a existir numa nuvem informática sabendo que, para os amantes dos livros será decisão desilusória, mas, por outro lado, fundado em organizações credíveis, saber da possibilidade de chegar a outro público, interessado, informado e, acrescendo, pelo preço que custará (2,95 euros) a possibilidade de alargar a fruição do texto a quantos não podem esportular a dezena de euros de uma publicação impressa.

 

Falei de mim, confessei aderir ao futuro, espero não me desiludir, nem desiludir os putativos leitores. Façam um esforço! Alterem hábitos! Não o podendo garantir reconheço que pode valer a pena.

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publicado por Carlos Alberto Correia às 18:00

Sobre maiorias e nem tanto

Quinta-feira, 12.10.17

 

 

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Eu, que fui candidato, na segunda posição, à Câmara do Barreiro, pelo Bloco, deveria, neste momento, estar em triste reflexão sobre a falência do intento. Não fui eleito, o que não seria expetável, nem sequer o cabeça de lista, considerado com boas probabilidades. Mas eleições são o que são e, nelas, o Povo é quem mais ordena. Isto por definição, porque a coisa é de muito maior complexidade. Tão grande que seria fastidioso estar aqui a fazer um levantamento das imensas variáveis.

 

Também não irei dizer que fiquei alegre com os acontecimentos. Antes surpreendido e observante da embrulhada que poderá vir a ser a nossa Câmara. Vejamos: O PS ganha as eleições, tem direito à presidência e guarda quatro mandatos. A CDU, perdendo a presidência, arrecada igualmente outros quatro mandatos, e, pese embora o voto de qualidade do Presidente, estamos empatados. Ou não! Porque o PSD, ao contrário da dominante eleitoral do seu partido, subiu em votos e mantém o seu vereador, o que pode bem (des)equilibrar o sistema de desempate por voto de qualidade. Temos assim o PSD na invejável posição de, sendo absolutamente minoritário, poder ser determinante.

 

No gozo frio e intelectual do momento interrogo-me. Que fará ele? Unir-se-á ao PS dando-lhe maioria e governabilidade? Assim uma geringonça mais virada para a direita? Ou, fiel aos muitos anos de aliança camarária com a CDU, manterá a “fidelidade “, juntando o seu voto a esta coligação, criando, quiçá, a inoperância da Câmara? Ou ainda, num sentido de maior liberdade ou oportunidade, vogará, em geometria variável, segundo interesses mais partidários que comunitários? Estão a ver as cogitações em que me enlevo?

 

Não é que me queixe! Muitos anos antes do meu partido erguer a bandeira do impedimento de maiorias absolutas, já eu, nestas colunas, refletia sobre o assunto. Tinha para mim que democracia representativa seria aquela que representasse a maioria da população, o que dificilmente se passará com um único vencedor, embora maioritário, a representar, tão somente, uma parte dos cidadãos. E isto, sem levar em conta a abstenção a qual, só por si, nos valores em que se encontra, faz da representação, dita maioritária, a de uma muito pequena minoria.

 

Por isso defendia, e defendo, tal como é objetivo do método de Hondt, a inexistência de maiorias absolutas e a necessidade de coordenação, coligações, geringonças, ou seja, lá o que for, entre vários partidos. Assegurar-se-á deste modo mais alargada representatividade, nenhum partido poderá arrogar-se ao direito de instituir uma ditadura democrática, onde a sua voz, de maioria sempre relativa, imperará anulando todos os quereres alheios, porque será obrigado a contínuas negociações. Isto claro, pugnado pelos partidos enquanto oposição, torna-se rapidamente no seu contrário quando se pressupõem a caminho da vitória. Então, ao princípio timidamente, aumentando o volume e exigência quando se aproximam do final da campanha e as sondagens confirmam o desejado posicionamento, passam a pedir aos eleitores o cheque em branco da maioria absoluta. A tendência do “poder” é para se auto engravidar, crescer, reproduzir, ganhar espaço. Por tal é necessário, quanto a mim, a sua limitação e contínua fiscalização por órgãos apropriados. Que me desminta quem possa!

 

Aqui chegados e voltando ao nosso território, a serem seguidas as palavras emocionadas de Jerónimo de Sousa, ainda no inesperado da vitória rosa, a CDU estaria impedida de estabelecer acordos de governação com o PS. Isto deixaria o caminho livre ao PSD que poderia, teoricamente, exigir o que quisesse para manter a operacionalidade da Câmara PS. É uma possibilidade, no entanto, com demasiados risco. Tenho para mim, no entanto, que a capacidade política e racional do PCP (partido com maior experiência organizativa no nosso país), nunca permitiria deixar o PS refém do PSD, pelo que, mesmo “engolindo sapos”, - já não seria a primeira vez - ultrapassando emoções e desilusões, perceberá que “congelar” a Câmara é mau negócio. Poderia, muito eventualmente, conduzir à sua queda e levar-nos a eleições antecipadas, onde, pese embora a volatilidade dos votos, creio que o PS teria a hipótese de ganhar com maioria absoluta. E isso é que, nem para o PS, a CDU e, no campo das miragens, o meu partido, eu quero ver acontecer.

 

Aguardo, pois, com muito interesse, aquilo que os próximos dias nos poderão revelar.

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 14:55

Da tristeza em Passos Coelho

Terça-feira, 26.09.17

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Tudo parte de um princípio!

 

 Por exemplo, para mim, o simples nascimento de um ser humano, neste mundo de homens/mulheres, deveria, só por si, ser o suficiente para que a sua vida, o seu bem-estar, estivessem, tanto quanto é humanamente possível fazê-lo, completamente assegurados. Isto porque cada ser é único e como tal insubstituível. Na realidade, dir-me-ão muitos, tal não passará de impossível utopia, dada a diversidade de recursos e ideologias imperantes no mundo. Terão a sua razão e, volto a dizê-lo, tudo parte de um princípio.

 

Para Passos Coelho, presumo, o ser humano valerá na medida daquilo que dele se possa haver. Isto é, vales o que tens, respeito-te na razão de quanto possas ser útil ao meu plano. Fora disso és perfeitamente descartável, inútil. Possuis apenas o valor que o sapiente mercado te conceder.

 

Ele terá como despiciendo o que para mim é fundamental.

 

Aquele conjunto de genes, desejos, dores, afeições, desesperos e por aí adiante que é o ser-se gente, pouco significará para o meu referido. Terá de acrescentar-lhe o peso social, a possibilidade visível, imediata, de modificar ou arregimentar coisas e pessoas à  sua volta para adquirir peso especifico, importância. Talvez só muito subliminarmente se recorde de que também ele está na tômbola, também ele poderá passar a irrelevante. Mas, pelo menos nos seus sonhos, tal perpassará e, aqui, teremos o primeiro momento da sua tristeza.

 

Por outro lado, chegou demasiado cedo aos cumes de um certo poder. Não estava, nem podia estar preparado. Pouco tinha feito na vida. A experiência era escassa. Talvez, à parte as facilidades do cartão e amigos do partido, se submetido a entrevista para cargo médio numa empresa bem organizada, para maior tristeza e desilusão, tivesse sido a sua candidatura preterida por alguém mais experiente, ou com maiores capacidades. Isto poder-lhe-ia ter dado outra visão sobre o querido modo de olhar o Estado, a Sociedade, como macro empresas, a serem geridas por estritos princípios técnicos, suscetíveis de serem colocados, de forma simples, em relatórios sucintos com regras de execução imediata e posterior avaliação contabilística.

 Poderá, eventualmente, tal ideia perpassar-lhe no pensamento, criando, na dúvida, meteórica a penugem de tristeza.

 

Com alegria enorme, confiança total nas capacidades próprias, subiu ao poder que pretendeu, que lutou para obter, sabendo bem o que se passava no Paíse aproveitando o sabê-lo como alimento da "sede ao pote". Mal se sentou na cadeira do poder, quase de imediato, descobriu os alfinetes escondidos na almofada. Que sim, senhor! Ora essa! Tão pequena dor valeria bem os altos feitos a cometer e aceitou da troika todos os dislates. Contra a maioria do seu Povo foi conivente e majorador das iniquidades propostas. De moto próprio ultrapasso-as. Isso com maior tristeza nossa que dele. Alegria breve lhe assistiu. Sem perceber bem porquê, tudo começou a resistir-lhe. Os sindicatos? Sim! Esperava por tal. Os partidos de esquerda? A oposição  que fizessem seria benção! Mas, os seus correligionários mais experimentados principiando a, surdamente, criticá-lo; abandonando-o posteriormente e logo a seguir juntarem-se às vozes da desesperante oposição? Isso, confundia-o e, secretamente, permeava-o de sombria tristeza. Até o Constitucional lhe dava desgostos, a ele, que assentado no poder, não concebia vontades além da sua (ou que Bruxelas ou outro centro difusor autorizado ordenasse)! A disforia passava a raiva e mordia qualquer mão que se lhe estendesse em moldes de moderação. Foi juntado à  tristeza, solidão. Trocou camaradas por seguidores, membros respeitados por apaniguados. Não o sabia, mas estava a construir a senda da mais profunda tristeza.

 

Venceu as eleições, não conseguiu formar governo. Estupefacto viu a maldita esquerda tomar-lhe o lugar. Rugiu ao ver desfazer-se, passo a passo, a teia de miséria lançada sobre o povo irrelevante. Não encontrou na banca estimável a retribuição do afeto e benesses concedidos. Tristeza relevante lhe toldou a alma. Falou, oráculo vazio, em quantos desastres esperava tal governação. Abriu-se-lhe a boca, em descrédito, ao reparar que quem lhe encomendara as tristes açõespraticadas contra o seu povo, dava agora encómios aos inversos do que fizera; via as mais negras profecias transmudarem-se no contrário. Sentiu-se traído e mais tristeza se lhe colou na alma. Esperava a qualquer momento um descalabro a justificar-lhe as anteriores decisões, as atuais previsões. Tudo lhe saiu mal. O País prosperava sem si e contra as medidas que tomara. Uma qualquer injustiça, alguns escondidos inimigos, teceriam intrigas, moviam interesses, para o fazer cair em desgraça. O sentimento viscoso de inauditas traições plantara-se no âmago da tristeza, a envolvê-lo. O Sol haveria de brilhar. Seria redimido, reconduzido Éà  capacidade de ação, aos cortes salvadores e preferidos. Teria ainda o seu dia.

 

Então caiu-lhe na tristeza a Presidência da República. Quem ele queria não havia. Havia quem ele nunca quisera e ousara, imprudente, dizê-lo. Deve ter passados horas bem amargas, plenas de raivosa tristeza em desolação de desertos interiores, nunca poupado pelos Fados, que continuavam a ser faustos para o inimigo, o qual lhe roubara o que só a ele, por direito, pertencia. Claro, na sua inexperiência nunca prestara grande atenção àquela coisa esquisita chamada Constituição e ela, vindicativa, pregara-lhe várias partidas. Alguns próximos bem o tinham avisado: Cuidado com a Constituição! Não é menina com quem se brinque! Como poderia ligar-lhes? Ele era o poder! Ele sabia! Tínhamos um País de velhos! Era preciso reverter isto com ferocidade. Ataquem-se os velhos! Passagem para os novos (desde que fossem para as privadas). Esses amigos torceram o nariz! Pois que o mantenham assim! E foram afastados! Alguns com tristeza, outros lamentando, antecipadamente, o futuro do chefe.

 

Agora, autárquicas à porta, vai de comício em comício, jantar em jantar, desdizendo tudo quanto se pode inteligentemente ver ou perceber sobre os efeitos da nova governação. Nuns locais diz o contrário sobre o mesmo assunto, noutros, talvez esquecido do anteriormente propalado, reivindicando para si o resultado de medidas opostas às suas.  Assim o vemos e   entendemos "numa apagada e vil tristeza" onde, nem ele já se deve reconhecer e muito menos aos desmandos que permitiu e praticou. É uma tristeza!

 

Vê-lo, bufão de si mesmo - apesar de reconhecer ter o castigo que merece - perceber-lhe o terror de maus resultados eleitorais a ameaçarem-lhe o emprego - tal como o fez a milhares de concidadãos - não deixa de influenciar o meu estado de alma a seu respeito. Porque, a seu contrário, lhe reconheço, como ser humano, o direito a esperanças e aflições, ponho-me no seu lugar, sinto a tristeza que emana e, muito sinceramente - por ele no momento, pelo ele no a vir - aperta-se-me o coração e, com a tristeza dele me enfeito.

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publicado por Carlos Alberto Correia às 10:40

Demita-se a “Providência”

Domingo, 02.07.17

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A palavra providência é um tanto ou quanto ambígua. Tanto pode referir-se a previsão de situações futuras, como a não antever evento nenhum, não tomar qualquer precaução e confiar que o sagrado conduza, sem nossa inquietação e mínimo de esforço, coisas e seres a fins benéficos. Embora se possa confundir e seja muitas vezes considerada sinónimo, convém diferenciar de “Previdência”, nome primitivo atribuído ao que hoje chamamos de Segurança Social e que, no espírito da época e na nossa especial relação com as divindades, estava muito bem-posto. É que no que toca a prevenção, o tuga sente-se dispensado de tal esforço.

 

E tem razão!

 

Primeiro somos uma cultura de desenrasca, de guarda para o último momento, do alguma coisa há de aparecer. Isto porque somos muito mimados. Somos o povo de Nossa Senhora de Fátima e dos três pastorinhos (agora reduzidos a dois, por eclipse de Lúcia, que deve ter cometido o feio pecado de viver demais e, se calhar, deixar-se tomar por algumas pecaminosas dúvidas, ou talvez os segredos fossem menos valiosos ou menos segredos do que o esperado). De qualquer modo, quem dispõe de semelhantes proteções, pode bem passar sem prestar culto a algo tão pragmático e rasteirinho como dar-se ao trabalho de prevenir acontecimentos desagradáveis, os quais podem bem nunca ocorrer. Estão a ver o desperdício, a subida do deficit, o nervoso miudinho dos mercados!

 

Por isso confiamos e deixamos ao céu a obrigação de nos proteger. Compreende-se assim as surpresas, os gritos estridentes de quantos, desinvestindo fortemente em quanto é social, apenas apoquentados pela subida do PIB e a descida do deficit, esperam que os nossos santos protetores façam o seu trabalho, nos livrem de maleitas, furacões, tremores de terra e outras coisas mais, enquanto nós, no ripanço, vivemos o dia-a-dia sem preocupações de acontecimentos futuros, além dos citados indicadores económicos.

 

Depois, quando o céu não nos responde ou se distrai e deixa cair-nos em cima qualquer calamidade é o aqui d’el-rei. Pedem-se cabeças de ministros, castigos dos responsáveis, tomadas enérgicas de medidas e políticas corretivas. Durante dias, talvez semanas, não se fala, não se ouve, nem se vê mais nada. O País foca-se na desgraça, arrepela-se, entra de luto e depois… esquece.

 

Devo esclarecer que o papel do luto é precisamente o de atenuar a lembrança, permitindo ao vivente, estabelecer nova identidade onde o já acontecido vá perdendo força e permita reestruturar a vida, ajeitando o sistema, à existência com tal falta. Por isso não nos escandalizamos com os sucessivos esquecimentos e nos admiramos que anteriores responsáveis, com bastas culpas no cartório, venham a terreiro feitos virgens inocentes, a clamar pelas cabeças de quem apenas deu continuidade aos seus feitos.

 

De repente, talvez haja excesso de trabalho no céu, estejam as tarefas a ser executadas por estagiários – os nossos pastorinhos (dois) só agora obtiveram contrato definitivo – Nossa Senhora de Fátima esteja absorvida por tarefas domésticas ou ensinando os novéis santos a milagrar – caíram em cima duas faíscas de alto lá com elas. O fogo de Pedrógão, com as mortes a lamentar, e o caso vexatório do rato ir comer ao prato do gato, em Tancos. E pronto! Foi a exclamação geral, os enérgicos protestos dirigidos a todos e ninguém, o afasta-te que a culpa é tua, eu fiz tudo bem, a gargalhada de assumir responsabilidades políticas sem que aconteça coisa alguma (a propósito e antes que alguém venha fazer mais ruído não se esqueçam que a primeira vez – que me lembre – que tal aconteceu foi com a então ministra da justiça Paula Teixeira da Cruz no grande plof! do encerramento dos tribunais).

 

O que pouco se fala ou se vê é como, com o verão a caminhar, a humidade a descer, o vento a soprar, os pinhais e eucaliptos por emparcelar, os sirespes por funcionar, vamos arrostar com o período de incêndios caso os nossos protetores celestes se mantenham distraídos ou cansados de aturar tanta imprevidência. E já agora, que dizer de um chefe do estado-maior que exonera os comandantes de batalhões ou regimentos e se esquece, como primeiro responsável, de apresentar, honrosamente, a sua demissão?

 

“Ah! Se calhar estará a preparar uma providência cautelar”!

 

E para o ano, amigos, companheiros, camaradas, concidadãos, compatriotas e visitantes, por esta altura, aposto, estaremos de novo a discutir as mesmas coisas, ou outras semelhantes. Como diz o velho ditado: “só se lembram de Santa Bárbara quando faz trovões.”

 

Oh! Diabo, a santa que me perdoe, mas tinha-me esquecido desta.

 

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 19:43

O muro

Quinta-feira, 15.06.17

 

 

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Vim viver para o Barreiro nos inícios dos anos oitenta. Não me recordo exatamente do ano, mas sei que coincidiu com um dos mais lindos e brilhantes outonos de que me lembro. Os dias eram explosões de Sol e, no jardim, entre o moinho do Jim e o Clube de Vela deleitava-me nesse fulgor, apaziguado pela leve neblina a fazer de Lisboa um quadro quase impressionista. Escrevia, pensava e apercebia-me do quanto valia ser uma península dentro de outra península, esta abraçada pelo Tejo e o Coina, em termos de ambiente, paisagem e claridades.

 

Recordo ainda, por esses tempos escrevia texto para um programa da Rádio Comercial, FM, que, não me apetecendo ir para aquele que era o meu emprego efetivo e burocrático, antes querendo continuar a gozar a maravilha daqueles dias, me deixei ficar olhando o Tejo, vendo o movimentos das embarcações, o pontilhado de pequenas velas brancas a competirem, na subtileza, com as parcas névoas. Escrevi, a propósito, uma justificação de falta, em poesia, que deixou estupefacto e sem saber como agir o meu Diretor de Serviços.

 

Para quem aguentou até aqui o meu palavreado e se pergunta o propósito de tais rememorações confesso-lhes nascerem de um misto de desapontamento e receio, provindos de ter tido conhecimento da ideia abstrusa de colocarem um muro de contentores entre a Avenida da Praia e o alongamento do Tejo. Vi-me obrigado a repetir a leitura da notícia para perceber a enormidade do sacrilégio pretendido. Claro que defendo a colocação do Porto de Contentores no Barreiro. Precisamos de alargar os préstimos da cidade e os postos de trabalho. É evidente que sei e me disponho a aceitar alguns impactos socioambientais. Não há progresso sem transformação! Mas isto, senhores?! Que mente retorcida pode pensar em tapar a respiração da Cidade? Que cálculos económicos valerão o emparedamento da população? Com tantos quilómetros de rio disponíveis na antiga zona industrial, para quê construir um muro de contentores mesmo defronte dos nossos olhos, condenando-nos ao isolamento de uma cegueira inadmissível? Volto a perguntar: cálculos económicos abstrusos ou vontade de mudar a instalação para qualquer outro local procurando o pretexto no afrontamento da população?

 

Desconheço a quem pertence a decisão final, assim como não sei que e quantos interesses, dos mais aos menos legítimos, nela se jogam; sei apenas que deveremos defender a instalação do Porto nesta cidade, ao mesmo tempo que não poderemos permitir a sua colocação sem a mínima salvaguarda dos direitos ambientais e de qualidade de vida dos nossos concidadãos.

 

Câmara, Assembleia Municipal, Juntas de Freguesia, Coletividades, gentes do poder e comuns, juntemo-nos para impedir que, neste tempo de muros impiedosos, seja, perante a nossa indignação, colocado um outro no campo de deleite dos nossos olhos. Não nos deixemos emparedar. Que o único muro possível de aceitar seja o da defesa dos nossos interesses legítimos e da paisagem onde descansamos o olhar. Sigamos livres pela margem de um rio observado em plena liberdade.

 

 

Publicado em Rostos on-line

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 21:20

A respeito das reformas

Domingo, 26.03.17

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Confesso o meu “despeito a (des) respeito” das propostas apresentadas pelo Ministro do Trabalho. Ingenuidade? Talvez! No entanto aguardava documento mais humano, considerando a vida concreta dos portugueses.

Para obviar a intenções retilíneas informo que me encontro reformado desde 2007, com a totalidade de 43 anos de trabalho, dos quais três ou quatro são de serviço militar. Desde o seu início ficou “congelada”, com exceção dos cortes e reposições aplicados a qualquer português. Foi uma reforma bem ganha e o Estado não faz mais que a sua obrigação ao pagar-me com pontualidade, devendo ainda, o que não cumpre, atualizá-la anualmente, no mínimo, pelo nível da inflação. Durante todo esse tempo descontei e raramente, apesar de em quase toda a duração me chamarem beneficiário (pura ironia), pouco ou nada recebi em troca. Mesmo a assistência médica era tão precária que sempre me vi confrontado com a necessidade de consultar médicos e hospitais particulares, pagos do meu bolso. Por isso, pelo direito que me cabe, estamos conversados.

Voltemos, portanto ao despeito. Ao ouvir as propostas senti-me injuriado. Estavam certamente - através das esperanças suscitadas e ora negadas a outros com longas carreiras contributivas - a gozar connosco. Então alguém que tivesse 48 anos de desconto (ou inscrição) poderia reformar-se antecipadamente (?), sem penalizações, desde que tivesse mais de sessenta anos? Máquina na mão subtrai-o 48 de 60! Vejo com espanto que esse alguém teria de ter começado a trabalhar aos 12 anos de idade. Tendo em conta o espírito da época (estaríamos em 1969) não espanta que muita gente, com essa idade e com menos, já trabalhasse no duro. O que me deixa boquiaberto – aqui o ingénuo será o governante ou então é mal-intencionado – é que, o senhor ministro e assessores, se tenham esquecido do facto comezinho de que talvez nenhum desses trabalhadores estaria inscrito na “Caixa”. Basta ler algo sobre esse tempo para se saber que a fuga à inscrição era enorme e mesmo, em muitos casos, nem sequer era obrigatória. Estou errado, senhor ministro?

Que me seja perdoada a inanidade de insistir em algo que deverá ser, para espíritos neoliberais, atentatório ao eterno direito à servidão das massas populares. Então, independentemente da idade tida, qualquer cidadão que tenha dado à comunidade quarenta anos de vida de trabalho, não será merecedor do reconhecimento do seu esforço? Não lhe deverá ser reconhecido o direto e lídimo direito à reforma? Estarão a fazer-lhe algum favor? Ah! Já sei, a regra da extensão da vida humana. Pois, é! Se considerarmos os nossos tempos, qualquer jovem, e beneficio muito as contas, só começará a ter trabalho e descontos lá para os 27 anos (não disse que favorecia?). Assim só completará 40 anos de trabalho quando perfizer sessenta e sete anos, isto é, mais alguns meses da idade necessária para se reformar nesta altura. Tendo em conta o índice de esperança de vida e seguindo a lógica de contínua progressão da idade de reforma, sem exageros, esse pretérito jovem terá a possibilidade de se reformar… quando estiver morto! Vá lá, sei que estou a exagerar, mas é tão-somente para tornar visível a hipocrisia do sistema. Para não ser chato nem sequer vou referir as momentosas questões das reformas por incapacidade ou a cegueira de juntas médicas, a mandar apresentar ao serviço gente em tratamentos violentos e desgastantes, incluindo terapias anticancerígenas em estado avançado, como, bastantes vezes, os noticiários televisivos nos mostram.

Quero apenas a terminar, esclarecendo ter sido substancialmente informado de o dito documento ser tão-somente uma base de trabalho, demonstrar a minha desconfiança. Já estou queimado e, como se dizia na minha terra, pelo andar da carruagem se vê quem lá vai dentro.

Por tanto, não só estou completamente contra o formulado no documento apresentado como, por experiência adquirida, não espero substanciais melhorias em sede de (des)concertação social, nem, Sua Excelência me desculpe, acredito na boa vontade deste ministro.

Resta-me a esperança de ver o meu partido (BE) não o subscrever quando passar pela Assembleia da República. Assim o espero e assim o quero!

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 11:49

Acordo Ortográfico

Domingo, 12.02.17

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Cansado de, no Face Book e em outros locais, explicar as razões porque, embora com reservas, apoio a manutenção do Acordo Ortográfico, decidi render-me.

 

Não só vou esquecer-me de todos estes anos em que a escola tem andado a preparar as novas gerações para escreverem em concórdia com ele, como nem sequer me vou lembrar de estarmos por mais velhos, a maior parte, biologicamente condenados, restando, nos anos futuros, todas as gerações que escreverão como aprenderam, as quais, se alguma vez tal situação se colocar, não perceberão o que levou a tanta discussão sobre uma forma de escrita que, está-se mesmo a ver, só poderia ser conforme se habituaram a escrever. Provavelmente serão visceralmente contra putativo acordo a ganhar corpo por essa altura…, digo eu!

 

Irei mesmo mais longe nesta rendição. Serei radical, consequente. Porei, por tanto, de parte todos os acordos e formas de grafia que me antecederam, voltarei à pureza das origens. Espero que os detratores do Acordo me acompanhem nesta cruzada que será absolutamente inequívoca para quem pensa ser a língua um monumento monolítico, fixado de uma vez para sempre.

 

Ora aqui vai:

 

“(…) Dom Diego Lopez era mui boo monteiro, e estando hum en sa armada e atemdemdo quamdo verria o porco, ouuyo cantar muita alta huuma molher em cima de huuma pena; e el foy pera la e vio-a seer muy fermosa e muy bem vistida, e namorou-sse logo d’ella muy fortemente e pregumtou-lhe quem era; e ela lhe disse que era huuma molher de muito alto linhagem, e ele lhe disse que pois era molher d’alto linhagem que casaria com ela se ela quisesse, ca ele era senhor d’aquella terra toda; (…)

 

Ora aqui fica a minha determinação de defesa da pureza e imobilidade da língua. Não voltem, por favor, a vir-me com as asneiras recorrentes e mal-intencionadas de cagado por cágado e de fato por facto. É falso! Já chega! Escrevam como quiserem. Tanto se me dá. Não se submetam, porém, a nenhum exame oficial porque irão chumbar. Não poderão ressalvar “o examinando escreve com ortografia anterior ao Acordo.” Ninguém vos levará a sério, é um risco!

 

Fiquem bem, satisfeitos e em paz! De acordo?

 

 

Publicado em Rostos on line

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publicado por Carlos Alberto Correia às 00:14

A pobreza das crianças?

Segunda-feira, 06.02.17

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Diversas instituições, comentadores nacionais e internacionais vêm debatendo o tema anunciado em título. À primeira vista parece ser conceito perfeitamente aceitável, justo. Quem não é tocado pela imagem de uma criança esfomeada, suja, maltrapilha? É preciso ter coração de pedra para assistir ao sofrimento de tão desprotegidos seres. Já Augusto Gil, na Balada da Neve, se comovia e perguntava: “Mas as crianças, Senhor,/ porque lhes dais tanta dor?!…Porque padecem assim?!…”

E, no entanto, sempre que oiço alguém referir-se ao tema, continuando com Augusto Gil,” uma funda turbação/ entra em mim, fica em mim presa.”, porque entre os traços miniaturais dos pezinhos das crianças diviso, lateralmente, passo a passo, rastos mais marcados, mais profundos que, suponho, possam ser feitos pelos pés dos pais das ditas crianças.

 

Não querendo ser completamento disruptivo sobre o assunto, parece-me estar perante uma sinédoque, um artifício semântico, de tomar a parte pelo todo, ou, por outras mais claras palavras, mandar areia para os olhos de toda a gente. Na verdade, poderá ser problema meu, não consigo distinguir a pobreza das crianças da pobreza dos genitores, da genérica pobreza das ditas classe baixas. Já agora, aproveito para dizer também não entender como, em qualquer país e sobretudo no nosso, pode alguém, com trabalho garantido, continuar com rendimentos que não lhe permitem ultrapassar a linha da miséria. Presumo haver aqui alguma contradição nos termos ou, como se dizia nos meus tempos juvenis, a lógica é uma batata. Mas adiante.

 

Penso não ser completamente abstruso se afirmar que só há crianças pobres porque os seus pais, quando os têm, o são igualmente. Aqui o problema muda de estatuto e, em vez da misericórdia anunciada, transparece a tentativa de ocultação de inaceitável proposta de manutenção da desigualdade social, a qual, creio, e perdoem-me as almas bem-intencionadas, é o fulcro da questão. Dê-se a sopinha, uns sapatitos, qualquer abafo às crianças e poderemos fazer olhos mortos ao verdadeiro problema. Com a esmola, sabendo não se resolver qualquer problema social, ficam as boas almas de bem consigo e paraíso garantido.

 

Deixemos pois de edulcorar a realidade. A pobreza é endémica nas sociedades defensoras das desigualdades, mesmo quando recobrem a podridão com o manto da sentimentalidade, das boas obras. A pobreza das crianças só cessará quando os pais tiverem condições de vida dignas. Tudo o mais é conversa para distrair ceguinhos. Tratemos as coisas pelos seus nomes e reafirmemos não haver, na atualidade, qualquer razão para existir pobreza no mundo, a não ser a que provém da ganância, da distribuição injusta do trabalho de cada um de nós. É sabido, um pequeno grupo detém parte substancial de toda a riqueza do mundo. Como lhes chegou? Como a mantém? Porque lhes calhou a eles? Falem sobre isso, meditem, mudem as fórmulas e nunca mais será necessários choramingar sobre a pobreza das crianças.

 

Termino com a citação de uma quadra, publicada no Diário de Lisboa, salvo erro no suplemento “A Mosca”, da autoria do meu saudoso amigo, companheiro de trabalho e lutas, Severiano Falcão que foi, durante muito tempo, Presidente da Câmara de Loures:

 

“Nestas festas de Natal

mais em foco nos jornais

dão-se aos filhos, afinal

prendadas roubadas aos pais”

 

Tenham vergonha! A pobreza não é só das crianças. É de todos nós, por mais dinheiro que tenhamos, enquanto não houver trabalho, inclusão e rendimento justo para todos. E nada disto é impossível!

 

 

Publicado em http://www.rostos.pt

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 12:09

Ai, valha-me Deus!

Quarta-feira, 04.01.17

 

 

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Eu até não acredito nos diabos do doutor Passos Coelho. Mais, sempre que o vejo – no televisor – recuo aos tempos de infância e, com rápidas persignações, arengo tarrenego, tarrenego, vade retro! Pois é! Estão já a ver as dificuldades com que me debato. Eu não quero, nem posso dar-lhe razão. Aliás, mesmo que os apocalipses anunciados no decorrer do ano transato viessem a acontecer, os meus motivos e ações seriam totalmente diferentes dos dele. Eu não desejo a sociedade que ele quer. Penso o Estado de maneira e com funções diferentes daquelas que ele almeja e não estou, nem um bocadinho, virado para a excelência inata das gestões privadas. Se o simples bom senso não chegar para perceber que nunca poderá servir o bem comum quem apenas se interessa pelo êxito próprio, recordemos-mos do acontecido à nossa sociedade após as excelsas ações e poucas vergonhas das elites gestionárias e financeiras. Ao rever os acontecimentos penso, muitas vezes, que as máfias e alguns cultores de Esquemas de Ponzi são ingénuos aprendizes destes mestres de seguras reputações.

 

Porque razão me ponho, neste princípio de ano, com alguns arrepios?

 

A resposta mais direta, que adiante tentarei demonstrar, é a de que, mais que ver, sinto formar-se no horizonte uma frente fria. Embora possa vir a ser criticado pelos nossos melhores sabedores, recorri à Wikipédia – horror! – para melhor explicação daquilo a que me leva a entrar na linguagem meteorológica. “Frente fria é a borda dianteira de uma massa de ar fria, em movimento ou estacionária. Em geral a massa de ar frio apresenta-se na atmosfera como um domo de ar frio sobre a superfície. O ar frio, relativamente denso, introduz-se sob o ar mais quente e menos denso, provocando uma queda rápida de temperatura junto ao solo, seguindo-se tempestades e também trovoadas.”

 

Já começaram a entender o meu ponto de vista? Se considerarmos o horrível ano de 2016 como coisa um pouco menos horrível e, com essa perspetiva olharmos o recém-nascido 2017, digam lá, com verdade, se não ficam com pés de galinha ao olhar para o que por aí se anuncia? Não quero ser profeta da desgraça, mas não me imagino cego. Portanto não posso deixar de ver, a nível internacional o crescendo do vozear bélico, a corrida aos armamentos de destruição massiva, a loucura de Putins, Trumps - e como é que se chama aquela coisa da Coreia do Norte? – cada um a fazer voz mais grossa a ver se intimida o parceiro ou ganha aliado. Jogo perigoso, não acham? Esta coisa dos macacos brincarem com átomos sempre me intranquilizou. Mas, como é costume dizer-se “prontos!”, o que é que poderemos fazer além de esperar que tudo isto não passe de espirros, de constipação sem consequência de maior. Ah! Dizem-me, os refugiados? Cale lá essa boca. Não venha para a mesa proferir impropérios. Não se preocupe com coisas que só interessam aos adultos, sendo que no “(des)concerto das nações” somos apenas gente miúda, sem voto na matéria.

 

Pois, e por cá? Ó gentes! Temos a “Geringonça” a qual, não devendo a todos os títulos durar, vai comendo estrada a boa velocidade, derrotando a cada dia, os prognósticos malévolos de quem assim a apodou e esperava vê-la desconjuntar-se na primeira curva. Então, perguntar-me-ão, porque vens para aqui salmodiando tristezas, deplorando futuros? É que, como já vos disse, estou inquieto. Desde há muitos anos defendo a união das esquerdas – mesmo sobre um programa mínimo – a transformar em maioria de poder a maioria sociológica que nos vínhamos contentando em ser. Então deves estar satisfeito! O acordo não quebrou, o prometido não foi de vidro, foi-se cumprindo, o pior já está passado.

 

Ora precisamente aqui reside a minha angústia. Quando o perigo é visível tomam-se precauções. Quando nos sentimos seguros deixamos alguns cuidados de lado, desacreditamos de riscos, facilitamos a intrusão. Bolas! És mesmo desconfiado! Porque tenho razões. Lembra-te da frente fria. Lá estás tu com jeitos de pitonisa meteorológica. Troca isso por miúdos. Está bem! Comecei a ficar receoso com a inflação na Alemanha. Isso é lá com os alemães. Seria caso não pertencêssemos à moeda única e um espirro da Alemanha criar, na Europa, uma epidemia de gripe. Queres dizer? O custo dos nossos empréstimos, a dez anos, subiu para 3,9%. Ora, isso é muito mais baixo que os 7% a pôr-nos nas mãos da “troika”. Parece, na verdade sê-lo. Tem porém em conta que só podemos ir buscar dinheiro ao mercado, com o apoio do Banco Central Europeu, desde que uma agência de “ranking” nos mantenha acima da condição de lixo. É verdade! Como sabes a única a valorizar-nos é a canadense DBRS. Correto! Tomaste em devida conta a afirmação de terem de rever a posição se os juros chegarem aos 4%? Ó Diabo! Não me lembrava. Cala-te lá com invocações aleivosas. Deixa o Diabo em paz, com o Passos Coelho. Não desistas porém de preocupar-te. É apenas esta a angústia que te assalta? Antes fosse! Trago umas PPP na garganta. Isso quer dizer? Pareceria Público Privado. Assim um negócio onde o Estado põe os meios, os privados gerem, se der lucro arrecadam, se der prejuízo, o Estado – logo nós – paga! Que belo negócio. É quase o Euromilhões com a certeza de acertar. Pois é. É a isto que os investidores privados chamam a remuneração do risco. Qual risco? Isso não te sei dizer, mas lá que chamam, chamam.

 

Somente não ficam por aqui as minhas preocupações. Mais maus agoiros? Diz antes premonições. Estou com receio das autárquicas. É pá, isso são eleições locais, nada têm a ver com o Governo ou o Parlamento. É o que te parece! Observa para trás e vê os discursos dos vencedores antes das eleições e depois de as ganharem. Mudam completamente. Tens razão! Olha, o PS está a subir nas eleições. Isso é bom, não é? Claro que sim. Tira espaço à direita. Deves estar contente. Pelo contrário inquieta-me. Ora essa, a que propósito? Sabes, as nações e os partidos não têm amigos, tem aliados ou adversários e as suas juras não garantem fidelidade eterna. São os interesses que os guiam. Quando mudam os contextos, mudam os “amigos”. Mas não está nada disso no horizonte, pois não. É precisamente essa a minha insegurança. Queres dizer? Nem toda a gente, em todos os partidos das esquerdas está de acordo com esta associação. O resultado das eleições, ou o seu pressuposto, podem levar muitos a quererem reformular as coisas, a dar passos atrás. Além disso terão sempre a apoiá-los uma Europa que observa com desagrado um Governo, com apoio das esquerdas, a contrariar o seu plano de colonização ideológica dos povos europeus. Vê tu bem como mais nenhum país – nem a Espanha – conseguiu construir algo semelhante. A Europa já estava alertada, não permitiu mais nenhuma escorregadela. Não gostas muito da Europa! Pelo contrário, Sou Português e Europeu! Mas a Europa do Euro, de Maastricht e do Tratado de Lisboa, é a da dominação alemã e da finança, nada tem a ver com a Europa dos cidadãos. Esta Europa não quero, não me serve! O PS é um partido europeísta, não é? Sempre o foi. Essa é outra contradição a avolumar-se no caminho da Geringonça. O António Costa está pior que na canção. Tem três amores! É lá! Nem duvides. Divide-se entre a Europa e os seus desígnios, o Presidente da República e a Geringonça. Todas as noites tem de dormir em casa de um. Cá para mim isto só dura até que um deles comece a reivindicar mais tempo, mais afeto, mais permanência. Nesse caso? Haverá divórcio, pela certa. É isso que temes? É isso que vislumbro no futuro. É o Diabo! É o Diabo! Lá estás tu com passices! Não é coisa mística nem inevitável. É tão-somente questão de firmeza, bom senso, que ninguém queira ser mais papista que o papa. Não será fácil. Pois não! Mas vale a pena tentar!

 

 

 

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 23:59

"Colar de Pérolas"

Quinta-feira, 08.12.16

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Foi assim! A Guida telefonou-me. Tens tempo? Sim, podes avançar. A São (Maria Barradas) vai lançar no dia 5 de novembro um livro de contos. Pediu-me para fazer o prefácio e a apresentação. Estás disponível para ouvires o que escrevi? Reafirmei a minha disponibilidade. Pela voz profunda e pausada da Guida começaram a desfilar as suas impressões sobre o “Colar de Contos”. Fiquei logo interessado ao ouvir o primeiro excerto. Ao convidar-me para ir a Évora, à sala dos Leões da Câmara Municipal, nem hesitei. Lá me encontrarás!

 

A primeira impressão agradável veio do público. Muito ao contrário daquilo que costuma acontecer nestes eventos, a sala estava cheia, alegre. Os lugares não chegavam, nem sequer a sala. Muita gente de pé no interior, bastante na balaustrada exterior. O livro, editado pela “ambiguaedições”, é um objeto bem cuidado, Contos” não poderia descrever de melhor forma o que vamos encontrar na leitura. Uma fiada de pequenas (grandes) histórias, onde, a partir do quase nada de um quotidiano vulgar se descobre o insólito de cada momento, tudo envolvido numa ironia conduzindo-nos, insidiosa, do sorriso à dor das pequenas tragédias a desenrolarem-se, contínuas, perante os nossos olhares, se não cegos, pelo menos distraídos. Por isso a autora, na frase tensa, sincopada, em cada texto manufatura uma conta/conto, com que vai perfazendo a circunferência (mais ou menos) do colar.

 

Diz-se que em Portugal se edita muito, compra-se pouco e se lê ainda menos. É provável que haja muito de verdade nisto e que as causas para tal sejam variadas. Não duvido que tal aconteça. Porém, isto é pensamento só de minha responsabilidade, edita-se muito lixo, o que poderá ser um dos fatores a desencadear a recusa à compra e posterior leitura. Arrisquem-se os amigos a procurar este livro na Editora (não sei como será a distribuição, problema maior daquilo que se lança), mas é sempre certo avançar com o pedido direto a quem edita e, fique certo, não perderá o seu tempo e ficará enriquecido com novas perspetivas sobre que somos e como reagimos ao que nos acontece, do mais vulgar ao insólito. Este livro não é lixo! É literatura a sério! Vale a pena ganhar tempo com a sua leitura.

 

Tenho dito!

 

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publicado por Carlos Alberto Correia às 13:12








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